XXX. A morte não é simples

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"Talvez a morte tenha mais segredos para nos revelar que a vida."

Francesco não era de decorar o que seus professores de literatura parafraseavam daqueles livros antigos e sem gravuras, mas aquela em especial, de Gustave Flaubert, ele nunca esquecera.

Ele nunca esquecera pois há uns dois anos atrás, entrou numa discussão ferrenha com uma colega metida a sabichona acerca desta frase, discordando completamente da fala do autor: "A morte é algo totalmente simples. Que segredo há de ter? Morreu, está morto" - foi o que ele disse naquele dia em frente a uma turma composta de pelo menos 30 alunos, fosse para afrontar a colega, ou para afirmar seu ponto de vista no mínimo polêmico para um garoto de na época 14 anos.

Mas naquela manhã, enquanto seus dedos espetavam-se no buquê de rosas brancas que carregava enquanto caminhava pela trilha de pedras até o jazigo da família, a frase que há anos não relembrava lhe retornou de uma outra maneira. De uma maneira que o fazia ter vergonha do que disse naquela infame aula de literatura mesmo que a nota de participação o tenha salvo da recuperação.

Naquela manhã ele tentou retomar com o sentimento de insolência de quando disse aquilo, tentava se convencer do porque naquela época achava a morte algo simples de se compreender, ele quase implorava para sua própria mente trazer de volta quem ele era, aquele moleque mimado e egoísta que nunca perdera nada na vida mas achava que sabia de tudo, talvez assim aquela dor dilacerante que sentia há dias amenizaria ao menos um pouco e que aquela sede de viver que o moveu por todos os dias de sua vida voltaria para ele.

Após a romaria da casa até o jazigo da família nos fundos da Fazenda Villamazzo, com velas, flores brancas e o sereno das 6 da manhã salpicando as roupas escuras da família, ao chegar ao pé da lápide simbólica de Vitória, Francesco ainda tinha esperança de que alguém viria e lhe diria que era tudo uma grande piada de mau gosto, um sonho ruim e que ele só precisava acordar. Mas ao notar a foto e o nome ali gravados, ele percebeu que não havia escapatória.

Vitória Angeli Villamazzo Castilho

01/12/1923 - 12/07/1943

Amada filha, irmã e esposa

A frente de todos, ele olhou em volta para o desolador desespero da mãe e lágrimas do pai, dos olhos vermelhos de cada uma das irmãs, para a sobriedade quase catatônica do viúvo, da dolorosa compaixão e dor refletida nos olhos verdes daquele que amava. Devagar, Francesco deitou o buquê sob a plataforma de concreto, e num longo suspiro, concluiu:

Nada daquilo era uma piada de mau gosto.

Nada daquilo era só um pesadelo.

E principalmente, não, a morte não é simples. Nunca foi. E quando ela leva alguém que nunca avisou ou sequer deu sinais de que partiria, fica ainda mais difícil compreender seus segredos.

***

A cerimônia no jazigo não durou mais que meia hora. Assim que o padre terminou de rezar, os parentes, amigos e conhecidos da família que há pouco mais de um mês estiveram ali para o casamento de Vitória, voltaram para a sede e foram servidos com chá de capim santo e biscoitos de nata, apenas por casualidade, já que poucos tocaram na comida. 

Henrique se manteve sempre nas sombras, nos fundos, na tentativa de cumprir o que lhe foi imposto pelo velho Firmino como condição para que ele pudesse acompanhar a despedida de Vitória. Vicente nunca concordaria com tal, mas Henrique não o quis incomodar com mais estes problemas, ele já tinha dor o suficiente para lidar, e só de lhe ter sido permitido ir e ficar no meio de tantas pessoas da cidade já era mais do que ele havia feito em toda uma vida.

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