XXXI. A ponta do iceberg

18 0 0
                                        

18 de julho de 1943

Francesco,

Eu já escrevi e reescrevi esta carta milhões de vezes, sinto que há tanto a ser dito mas não consigo encontrar as palavras certas a dizer e isso culminou em uma pilha de papéis de carta descartados, mas, decidi que este será o definitivo, independente de como ficar.

Primeiro de tudo, sei que a resposta é meio óbvia, mas como você está? Tem comido? Cuidado de si mesmo? Tem dormido? Normalmente você me mostraria a língua e diria "Ora Castilho está dizendo que não sei me cuidar?", consigo até mesmo ouvir sua voz dizendo isso...

Faz 3 dias desde que você partiu, os dias permanecem cinzentos, silenciosos, estranhos, você não perdeu muita coisa por aqui.

Vicente voltou aqui para o casarão, ele havia passado os últimos dias resolvendo os pormenores do sepultamento e algumas burocracias cíveis da viuvez, seus pais o acolheram na Fazenda Villamazzo e hoje pela manhã ele retornou, não garantiu ao Senhor e a Senhora Villamazzo que estava bem mas disse precisar de um tempo sozinho. Estava com olheiras enormes não deve ter dormido um único dia, nunca o havia visto tão abatido, nem quando a nossa mãe se foi, e é agoniante não poder fazer nada por quem fez tanto por mim quando eu sofria do luto. Estou pensando em voltar a sentar à mesa de jantar com o César e meu pai, para tentar mostrar a ele que ainda somos família, torta, mas somos.

Mas, voltando a falar sobre você, espero do fundo do coração que esteja fisicamente bem e, com sorte, emocionalmente, e que seus amigos estejam cuidando bem de você. Sei que não ajuda muito dizer isso, acredite, mas entendo sua dor e quero que saiba que sempre estarei aqui para você para o que quer que precise, e eu sei que você também sabe disso. 

Você faz falta por aqui,

Henrique.

30 de julho de 1943

Francesco,

Essa é a terceira carta que lhe escrevo. Nenhuma das outras foram respondidas. Eu sabia que você precisaria de algum tempo, eu sei que precisa, mas meu subconsciente não para de tentar me fazer achar que você talvez pudesse estar me ignorando, é um pensamento cruel, mas tanto silêncio diário nos faz pensar coisas que às vezes nem são tão verdade assim, eu espero.

Pensei em te visitar quando o mês virar, mas ainda não pensei como faria. Não posso contar com César, muito menos com o meu pai, e Vicente não é uma boa opção, vide o estado em que meu irmão se encontra, lhe detalharei no mais tardar, então não restando outra opção continuarei lhe mandando cartas para o caso de as estar lendo e só não querer respondê-las. Isso faz mais sentido para mim e eu não me importaria, desde que saiba que ainda estou aqui.

Suas irmãs já devem ter lhe contado que depois que o Coronel Villamazzo adoeceu o Vicente tem ajudado a tocar a fazenda da sua família junto a Senhora Villamazzo. Ele tem cuidado da parte burocrática e mantido contato com o advogado da família, e pelo que soube a Amália tem tentado garantir seu espaço nos negócios também. Com a atenção do Vicente voltada para a vinícola, o César tomou as rédeas daqui, ou do que restou daqui. Talvez seja só impressão, mas eu tenho visto certa mudança em César. Além de passar mais tempo do que deveria trancado sozinho no quarto de costura da nossa mãe, parece empenhado de verdade em cuidar das terras do nosso pai, do jeito dele, mas parece. Creio haver influência da sua irmã Marinês nisso, desde que retomaram o namoro ele parece mais preocupado com o mundo ao redor, não me surpreenderia se casassem logo mais. 

Já o Vicente tem sido um caso um pouco mais complicado.

 Eu não o tenho visto mais com tanta frequência. Ele sai bem cedo pra lida e, quando volta passa o restante do dia no escritório, diz que está trabalhando, mas as garrafas de whisky vazias no dia seguinte dizem totalmente o contrário.

HERDEIROSHistórias para pegar e não largar. Descubra agora