Era final da tarde quando nos aproximávamos de uma pequena cidade ribeirinha no interior de Dai. Chovia muito forte e eu tinha um mau pressentimento. Meu irmão percebeu minha apreensão e afirmou que tudo ficaria bem de qualquer forma, visto que ele tinha fé que o caudaloso rio Dza interferiria a nosso favor. Nesse instante, senti-me uma criança diante da certeza de Hualca, porque sua voz possuía a firmeza das profecias dos antigos sábios de nosso povo e ele mal acabara de sair da infância. Decerto, sua alma era detentora de um conhecimento milenar, eu estava ciente disso e eu temia pelo meu irmão.
Eu tinha medo de que tentassem silenciá-lo através da morte, da mesma forma como o fizeram com muitos que tentaram trazer luz ao mundo. Conheço vários que pregaram liberdade e foram cruelmente executados. Eu mal sabia o nome desses heróis e mesmo assim suas palavras não conseguiam sair de minha mente. Não vivi com os antigos notáveis de meu povo, mas eles se tornaram mitos anônimos de resistência e sei que seus cânticos de igualdade serão entoados até o final dos tempos. Decidi ser uma das vozes incansáveis responsável por propagar o legado heroico dessas lendas sem nome e os séculos não me calarão.
Vi a luz intensa do olhar de Hualca e agradeci por tê-lo como irmão cada vez que eu olhava em seus olhos castanhos, eu tinha mais certeza de que as palavras dele jamais seriam esquecidas. Meu irmão tinha coragem o suficiente para amar, lutar e acreditar.
Tentei manter a calma, porém isso era impossível. Porquanto, eu sabia que uma batalha sanguinolenta se aproximava e eu não conseguiria evitá-la. Senti-me impotente diante da tragédia evidente. No entanto, só me restava lutar para sobreviver.
Olhei para todos ao meu redor e me perguntei quantos deles ainda morreriam nessa guerra civil. Boa parte daquelas pessoas caminhava em direção ao sepulcro à medida que se aproximava de Danji. Recordei-me das famílias que ficariam sem seus entes queridos e o luto me invadiu. Infelizmente, o sangue de muita gente ainda seria derramado em minha terra e quem conseguisse sobreviver entraria no obscuro mundo dos sobreviventes.
Eu era um sobrevivente e sabia qual era a realidade daqueles que se esquecem de morrer: é uma vida na qual o esquecimento é esperado e desejado, mas ele nunca chega. Percebemos o quão frágil é a vida e que vivê-la é um desterro em vários aspectos, porque sentimos saudades e sabemos que nada será como antes. Vivemos despedaçados e a alienação não nos é mais possível.
Seguimos marchando e quando estávamos na margem do rio Dza, fomos atacados pelo exército de Gaia. Malotl estava desaparecido, provavelmente era Gaia em seus momentos de sanidade que liderava o exército que outrora obedeceu ao Malotl. Um grande combate se iniciou e tudo aquilo parecia surreal. Eu poderia dizer que era um cenário de pesadelo no qual pessoas morriam. Para piorar tudo, os habitantes do vilarejo eram reféns das forças armadas do governo de Dai que deveriam proteger-lhes.
Percebi-me bastante criança e muito envelhecido, pois eu tomava ciência de minha fragilidade ao mesmo tempo em que eu participava de uma guerra que era fruto de acontecimentos repetitivos e seculares. Portanto, eu fazia parte da história e minha pequenez se mostrava mais evidente.
Eu não era muito diferente de um animal: lutei por liberdade, passei fome, fui açoitado, nasci, sobrevivi, colocaram-me em uma jaula, separaram-me de meus irmãos de forma arbitrária, migrei, fui exposto perante o público que me acompanhava e provavelmente morrerei.
As pessoas que faleciam ao meu redor também eram animais. Logo, não existia mais dignidade em mim do que em cada corpo desfigurado no chão, isso era aterrador. No fundo, eu só queria sobreviver. Felizmente, consegui.
Burdealdea, Tader e Yaiza pediram para eu defender os civis, Hualca e Miya. Prontamente, fiz o que o trio desejava.
Ao longe, observei o gigante de Aima se deslocando com impressionante velocidade, desviando-se das ofensivas de nossos oponentes e imobilizando muitos soldados inimigos.
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A independência de Dai
FantasyZoco é um jovem bruxo escravizado de Dai. Não bastando as condições adversas ao qual ele é submetido, ele se apaixona por Pemi, a filha do representante da metrópole em Dai... Um amor proibido. Os deuses, principalmente o deus da guerra, não quisera...
