Nesse momento, cogitei a possibilidade de que meu futuro não fosse ao lado de Pemi. Imediatamente, entristeci-me, pois eu gostaria de acreditar que ela me amava pelo menos um pouco. No máximo eu era apenas um amigo e eu sempre tive provas de que eu era um prêmio de consolação para minha amiga dos olhos dourados.
Eu me prendera à esperança de que houvesse sentimentos que eu desconhecia na alma de minha amada, quiçá ela até me amasse em segredo.
Porém, naquela noite não me iludi novamente e senti que algo morreu em mim. Não demorou muito para eu perceber que a real perdição era aquela de quem ama e não tem esperanças de serem correspondidos.
Eu estava perdido por Pemi, depois de olhar nos dourados olhos dela nunca mais fui o mesmo. De certo modo, ela roubou parte de mim e jamais devolveu e eu sempre soube disso. No entanto, eu amava até o jeito como ela me furtava e por causa disso eu nunca fui são ou completo. Eu estava condenado a ser alguém em eterna mudança e isso não era apenas uma certeza para mim, eu via minha pena tal qual um doloroso prêmio.
Olhei ao meu redor e todos dormiam. Desejei saber quais eram seus sonhos, criei mais uma curiosidade emergencial, porque me ocupar de suposições era mais fácil do que lidar com minha realidade. Na verdade, eu só almejava fugir do sentimento de perda que estava me devastando.
Acima de tudo, eu gostaria de abraçar Pemi e prendê-la a mim para sempre, mas eu estava ciente de seu distanciamento em relação a mim e por esse motivo meu desejo era inútil. No fundo, eu sempre soube que a filha do ex-governador sempre esteve tão perto e tão longe de mim ao mesmo tempo. Todavia, o pior era que eu gostava desse amor inalcançável.
Sorri para não chorar e senti a chegada do sono. Alegrei-me ao bocejar e em pouco tempo adormeci profundamente. Apesar de eu ter descansado pouco, senti-me renovado como se eu pressentisse que algo bom me aconteceria.
Quando despertei, todos ainda dormiam e não havia amanhecido. Enquanto a noite continuava resistindo ao domínio do sol mesmo sabendo que ele era inevitável, vi ao meu lado uma rosa negra, eu nunca vira antes uma flor tão incomum e a colhi. Senti-me observado e tive a impressão de que olhos me vigiavam dentro da escuridão. Mesmo me afundando em um medo súbito, tive vontade de me adentrar nas sombras noturnas para procurar quem me vigiava. Por fim desisti, porque se fosse alguma ameaça seria mais prudente eu não me afastar de meu grupo.
Esperei o dia amanhecer. Um pouco antes de o sol nascer no horizonte, os meus companheiros despertaram. Uma gratidão me invadiu, afinal, eu continuava a tê-los perto de mim e repentinamente me lembrei de Tla.
Uma saudade avassaladora quase me fez chorar, minha irmã também estaria feliz em fazer parte do grupo de guerreiros do qual eu era membro. Recordei-me que eu não sabia se ela estava morta ou viva e me lembrei da responsável por todo esse sofrimento: Niana. Amargurei-me por não conseguir odiar a mulher que levou minha irmã para longe de mim, pois a soberana das trevas era uma pessoa sofrida e eu não conseguia desejar-lhe mal. Considerei-me indigno por algum momento e logo passou, porque não me esqueci de que Tla não gostaria de me ver odiando os outros.
Burdealdea foi a última a acordar e após despertar ela nos pediu para não partimos antes de tomarmos o café-da-manhã. Miya falou que não tínhamos comida e desse modo mostrou uma de suas qualidades: a de dizer o que era óbvio. Todos estavam com fome e se houvesse alimento já teríamos nos servido. Naquele lugarejo nem mercado tinha, porém isso não faria diferença, visto que não tínhamos dinheiro. Para piorar a situação, não paramos para caçar, pescar ou coletar frutos e o pouquíssimo suprimento que tínhamos consumimos durante o dia anterior.
Agora percebo quão amargo fui com Miya. Em meu silêncio, impacientei-me com a irmã mais nova de Tader por causa dos dissabores de minha vida. Felizmente, eu não a ofendi nem lhe olhei com raiva, preferi olhar para o chão. No entanto, era injusto me aborrecer com ela, pois Miya não era a culpada pelas desventuras que me perturbavam o espírito.
Burdealdea pediu para ficarmos onde estávamos enquanto ela iria ver o que conseguia arranjar naquelas paragens. Confiei em suas palavras, porque ela era nativa daquela região e provavelmente tinha mais conhecimentos sobre as plantas e os animais locais. Todos nós a obedecemos e esperamos sua volta durante algum tempo. Enquanto aguardávamos o regresso da princesa dos ventos, conversamos uns com os outros, indaguei a todos se dormiram bem. Hualca e Miya responderam afirmativamente enquanto Tader apenas murmurou algo.
Hualca e Miya estavam tão animados naquela manhã que em seus olhares residiam sorrisos. Eles estavam contaminados por uma alegria contagiante e logo ela se apoderou de mim. Por um momento, tive certeza de que de alguma forma tudo daria certo.
Somente Tader ficou acabrunhado, então perguntei a ele o que o incomodava. Envolto em seus próprios pensamentos, o gigante de Aima me respondeu: não é algo importante. Não me satisfiz com essa resposta atravessada e insisti em descobrir o que lhe tirava o ânimo. Finalmente meu amigo me contou o que o assombrava.
Tader me disse que sentia saudades de uma garota que ele amava. Imediatamente, tentei consolá-lo dizendo que após derrotarmos as forças das trevas ele poderia voltar para sua terra e revê-la. Meu companheiro de viagem me revelou que isso não era tão simples, porque as servas das trevas aprisionaram sua amada e ele não sabia se ela continuava viva. A parte mais assustadora de toda essa situação residia no fato de que a sobrevivência de alguém tão importante para ele depender dos torpes interesses de duas almas corrompidas com um histórico de jamais demonstrar piedade.
Abracei Tader e lhe contei sobre Pemi. Não omiti que existia uma grande chance de minha adora menina-sombra também estar sob o controle das feiticeiras do mal. A simples possibilidade de minha amada estar privada de liberdade era o suficiente para me conduzir à aflição, porque eu temia por sua vida.
No entanto, eu já sabia que deixar esse medo me paralisar era algo inaceitável e aconselhei Tader a fazer o mesmo, pois quando se deixa dominar pelo temor, se dá o primeiro passo para a derrota e não podíamos permitir isso. Por quem amamos, deveríamos vencer as forças maléficas.
Tader falou que eu tinha razão e me prometeu que jamais se acovardaria diante das nossas inimigas. Entretanto, percebi que era eu quem deveria fazer esse juramento, pois eu estava mais próximo de me deixar derrotar. Nesse momento, parei de mentir para mim mesmo: eu nutria um grande afeto por quem desgraçou minha vida e essa era minha maior fraqueza.
Infelizmente, descobri-me capaz de trair a todos por causa de Niana, éramos muito parecidos e ao mesmo tempo tão diferentes, talvez fossemos os dois lados de uma mesma moeda. Sim, eu a adorava e em meu egoísmo eu não queria dividir o fracasso com ela, porque nós dois estávamos quebrados de formas diferentes e eu não desejava que ela sentisse a dor de minhas feridas nem fosse marcado por minhas cicatrizes. Perdi minha razão de vez e passei a preferir me converter no homem mais infame existente do que ela deixá-la ser a maior derrotada de todos os tempos.
Quando todos me condenassem por amar uma maldita, eu caminharia pela estrada da desonra com altivez e cada ofensa dirigida a mim seria meu hino de vitória. Eu me via sentado em meu trono de injúrias esperando minha sentença. Decerto, o dia de minha perdição chegaria e meu plano consistia em não guardar arrependimentos por omissão. Eu amaria uma desgraçada e por ela aceitaria o apedrejamento. Éramos um romance vergonhoso, quase poético.
Percebi que Niana me furtara de Pemi. Certamente, esperavam que eu deixasse a soberana das sombras provar a amargura da derrota. Todavia, eu não queria vencê-la, mesmo sabendo que o futuro da humanidade dependia dessa vitória. Quando me apiedei de Niana, eu já estava aceitando seu perverso domínio em meu coração.
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A independência de Dai
FantasiZoco é um jovem bruxo escravizado de Dai. Não bastando as condições adversas ao qual ele é submetido, ele se apaixona por Pemi, a filha do representante da metrópole em Dai... Um amor proibido. Os deuses, principalmente o deus da guerra, não quisera...
