Mais tarde fomos convocados por Yaiza para uma reunião particular na qual discutiríamos assuntos muito relevantes para nós. Recebi esse convite com receio e Tader também me comunicou que sentia um medo indefinido. Enquanto isso, a reação de Hualca e Miya foi diferente: eles exultantes com esse acontecimento, pois alguém reconheceu a importância deles e isso era mais significativo para eles do que propriamente os assuntos a serem tratados na reunião.
Observei Burdealdea de soslaio: ela não estava tão temerosa quanto eu e Tader ao mesmo tempo em que a euforia não se fazia presente em sua alma do mesmo modo que dominava Hualca e Miya. A filha da terra cheia de montanhas refletia apenas serenidade em seu olhar. Ela era dona da paz daqueles que sabiam estar cumprindo seu destino e eu lhe invejava um pouco por isso. Porquanto, eu sabia que eu demoraria em encontrar tal tranquilidade e a sentiria em poucos momentos de minha vida.
Quando a reunião começou encontramos Yaiza muito séria. Imediatamente, temi que alguma notícia ruim fosse despejada sobre nós e permaneci quieto esperando pelas palavras da líder de fogo. Conformei-me, nada eu poderia fazer a não ser escutar. Indubitavelmente, esconder-me em mim mesmo nada resolveria naquele momento crucial e me alienar não evitaria o inevitável: uma grande batalha estava próxima de nós, ela marcaria nossas existências e poderia nos engolir se não tomássemos cuidado.
Eu não temia o combate no qual eu lutaria. Todavia, lembrei-me de todos que perdi e desejei que tudo fosse diferente. Almejei a paz como nunca havia desejado, pois em minha mente ela me traria de volta todos àqueles que se foram por conta da guerra e meu amor em relação à deusa da morte seria mais possível. Meu coração seria apenas da minha sombria amada e eu não teria que derrotá-la, o nosso encontro seria diferente embora fosse inevitável do mesmo modo.
Decerto, a vida seria mais florida e meus dias seriam mais azuis, a morte me abraçaria mais tranquila e quem sabe poderíamos bailar eternamente. Entretanto, minha realidade era a de um guerreiro lutando contra o mal e por isso minha existência, tentando sobreviver aos jogos dos deuses e às guerras dos homens, estava cheia de espinhos. Restava-me apenas viver da melhor forma possível e ver a beleza escondida pela brutalidade que reside em mim.
Yaiza nos contou que Gaia estava sendo mais impiedosa em relações às rebeliões do que Malotl. A atual governante de Dai se autoproclamou imperatriz um mês após o desaparecimento do marido e se tornou uma governante extremamente autoritária. Embora conseguisse enganar a muitos com sua beleza angelical e com seu discurso macio, existiam muitos levantes, os seus gritos insanos a desmascaravam. As execuções coletivas se tornaram mais comuns, por esse motivo boa parte do povo de Dai passou a temê-la ao ponto de só se referirem ao nome dela em um tom quase inaudível. Era como se a palavra "Gaia" atraísse muitas desgraças a quem ousasse pronunciá-la.
Apiedei-me de todos os envolvidos na trama doentia de Gaia. Olhei em direção de Tader e de Miya, esta chorava muito e havia certa revolta em suas lágrimas. Hualca abraçava a ruiva de Aima e lhe dizia que ela não era culpada pelos desvarios da gélida governante de Dai. O irmão da insaciável predadora permaneceu quieto em luto pela alma de sua irmã mais velha, porque o espírito dela já estava morto mesmo com o corpo cheio de vida.
Eu gostaria de afirmar ao gigante do deserto: a alma de Gaia não havia morrido. Certamente, eu diria que a Gaia só estava dopada pela ambição e pelo relacionamento com Malotl, a loucura devorava a jovem viva sem ter conseguido matá-la ainda. No entanto, não falei coisa alguma, porque eu fui invadido por um frio aterrador e úmido. Era como se eu estivesse afogando em mim e nas batalhas que estavam por vir. Eu sentia a certeza desesperadora de que ela já estava tão perdida a ponto de não lhe restar o mínimo arrependimento por seus crimes, talvez por falta de empatia, talvez por falta de entendimento. Eu apenas poderia torcer pelo bem da irmã de meus amigos apesar de sua conduta sanguinária.
Yaiza nos disse que iríamos até Danji e tentaríamos conquistar a cidade mais importante de Dai. A guerra contra Gaia já estava iniciada e a paz era impossível, pois a imperatriz maléfica já havia executado todos aqueles que se propuseram a ir até ela e resolver as pendências com a diplomacia.
A menina-sol nos confessou que não suportava ver mais tanto sangue sendo derramado e tanta exploração. A dama flamejante nos falou que Gaia não pararia de assassinar e de tiranizar sozinha. Infelizmente, a atual governante de Dai se convertera em uma predadora insaciável e irracional cujo único objetivo era destruir e conquistar.
Lamentei por Gaia e abracei Tader. Eu queria protege-lo da dor, mas era eu quem me sentia mais seguro ao abraça-lo.
Meu companheiro de viagem estava prestes a desabar e não merecia ter sua alma destroçada por uma irmã que desconhecia o amor. Ele ainda a amava e isso o fazia sofrer por ela e pelas vítimas dela. Ele não a havia esquecido e eu não o considerava fraco. Eu sabia que ele era incapaz de odiá-la e o admirava, o amor nutrido por ele era maior do que as loucuras da imperatriz sanguinária. Tader era o gigante de Aima e sempre o seria.
Yaiza notou o quanto éramos unidos e percebeu nisso nossa maior força. Ela nos disse que cada núcleo regional de rebeldes atacaria o exército de Dai com intuito de enfraquecer as forças de Gaia e deixar Danji mais suscetível ao ataque de nosso núcleo. A união era necessária se quiséssemos acabar com a opressão existente em Dai.
Hualca indagou á guerreira de fogo se realmente deveríamos derrubar a atual governante de nosso país.
Durante alguns instantes que me pareciam eternos, o silêncio reinou. Eu também não desejava derrotar a irmã mais velha de Tader, porém ela era uma assassina descontrolada. Tader interrompeu nossa quietude e em lágrimas afirmou que ela não pararia de cometer crimes enquanto não fosse derrubada, porque ela foi capaz de aprisionar os próprios irmãos durante anos, perdeu a mãe quando ainda era uma garotinha de seis anos e foi criada pelo pai para ser uma tirana sem coração.
A predadora de Aima desconhecia o amor, estava muito insensível e se tornava cada vez mais insaciável, pelo menos era isso o que o meu amigo disse.
O pai de Tader, Miya e Gaia se chamava Nak e era o líder de uma quadrilha criminosa, esta controlava o comércio de um poderoso entorpecente somente encontrado no deserto de Aima. O progenitor de Tader não se importava em prejudicar quem quer que fosse para obter lucros. Dessa forma Nak conquistou muitos inimigos, vários deles eram falsos aliados e o rei do tráfico de Aima acabou sendo assassinado em uma emboscada, mas deixou um legado: sua filha mais velha, Gaia.
Faltou o amor dos pais aos três filhos de Nak, apesar disso Tader se recordava do pai com saudades e havia uma tristeza conformada no semblante de meu amigo ao relatar a trágica e prematura morte de Nak.
O rebento do imperador do crime de Aima nos contou que após a morte do pai, Gaia se perdeu de vez, a paranoia, a sede de vingança e a fome por poder começou a devorá-la viva. Sob a justificativa de proteção, ela aprisionou os irmãos que a amavam. Além disso, a futura governante de Dai carregava o fardo de ser uma poderosa feiticeira da água e não contava com nenhum apoio emocional.
A filha mais velha de Nak cresceu e sentimentos cada vez mais apodrecidos passaram a direcionar suas ações. Lamentavelmente, a irmã de Tader e Miya se tornou marionete de pensamentos perversos e isso a transformou em uma serva das trevas.
Miya soluçava entre lágrimas e meu irmão a abraçava: ele prometia-lhe dias melhores e ela apenas confiava nele sem contestá-lo. A menina ruiva se segurou em Hualca como se o rapaz fosse o único porto-seguro que possuía. A irmã caçula de Tader não gostaria de partir para longe do meu irmão e este deixava-se demorar no enlace.
A filha mais nova de Nak era toda ternura e entrega enquanto Hualca lhe cedia parte das suas forças. Inesperadamente, ele a permitia vê-lo frágil em todo seu esforço por fazerem as lágrimas dela secarem. Hualca se importava demais com Miya e se fosse necessário renunciaria a tudo pela garota.
Naquela época, eu os via somente tal quais jovens que descobriram o amor e hoje eu os reverencio, pois eles tiveram a maturidade de se amar dentro de suas possibilidades enquanto eu cogitava derrotar Niana.
Falei à Yaiza que ela poderia contar comigo. Os outros presentes na reunião também concordaram em se ajudar com o objetivo de aumentar nossas chances de deter Gaia e seu império das sombras e da insanidade que ela fazia questão de tentar expandir.
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A independência de Dai
FantasyZoco é um jovem bruxo escravizado de Dai. Não bastando as condições adversas ao qual ele é submetido, ele se apaixona por Pemi, a filha do representante da metrópole em Dai... Um amor proibido. Os deuses, principalmente o deus da guerra, não quisera...
