Hualca abraçou Tla e propôs que fugíssemos junto com a família de Pemi para perto da fronteira com Taen, uma terra sem grandes riquezas na qual estaríamos mais protegidos das crueldades e da ambição de Malotl. De imediato, aceitamos ir para o lugar proposto por Hualca, fazia sentido viajar para lá. Entretanto uma sensação de medo, desespero e desequilíbrio me assombravam, eu sentia que encontraria um grande desafio a ser vencido naquelas terras.
Inesperadamente, Tla se voltou para a direção de onde saímos, onde provavelmente Malotl nos esperava com um exército. Com lágrimas nos olhos, ela nos abraçou e se despediu. Um abraço nunca demorou tanto, acredito que ela não queria partir e nos deixar. Ela almejava nos defender de todo o mundo, inclusive de Malotl e dos deuses. No entanto, não nos protegeu do vazio que a sua falta criava, a sua ausência foi um inimigo perigoso desconsiderado. Ela partiu e não nos deixou segui-la.
A minha irmã se desvencilhou dos nossos braços, disse que nos amava e que quando tudo se resolvesse nós a entenderíamos. Eu era ingênuo na época, não sabia de todo o jogo que ela estava inserida. Eu só almejava ter a minha família unida novamente e o destino ria do meu querer como se ele fosse uma piada extremamente engraçada.
Eu e Hualca fizemos menção de a impedir, mas a nossa irmã nos prendeu à terra com uma magia que jamais havíamos visto antes e tivemos de lutar por horas, ou o que acho que foram horas, para nos libertar. Quando nos libertamos já era tarde, Tla retornou a Danji, onde estava Malotl, Yaiza e o combate.
Quase fui lá buscar a minha irmã, porém ouvi o pequeno Zoco chorar e me lembrei de que eu tinha que defender uma família da carnificina. Eu deveria cuidar dos entes queridos de Pemi para evitar um massacre e pelo meu amor por ela. Com lágrimas silenciosas, eu, meu irmão e a família da garota-sombra fomos para a fronteira de Dai e de Taen.
Quando eu era criança, ouvi várias lendas envolvendo essa região fronteiriça entre Dai e Taen, por isso eu temia ir para lá na época na qual eu era um menino. Mesmo depois de crescido, ainda era difícil ouvir falar daquela região, era um tabu e criou-se uma atmosfera de mistério e medo. Eu imaginava um reino de ossos e de fome, onde tudo estava em destroços, mas fui para lá apesar disso.
Eu, meu irmão e a família de Pemi fugimos para a região fronteiriça com Taen, a parte de Dai sempre esquecida pelo mundo e por qualquer um que governou Dai. Lembro-me dos meus pais e os mais velhos se referindo a esse lugar, chamavam-lhe de terra dos abandonados, onde havia uma pontiaguda e ameaçadora cordilheira de montanhas rasgando o céu. Diziam que só quem não tinha nada a perder ia para essa região agreste e esse era o nosso caso, porque dificilmente Malotl nos acharia lá.
Chegamos a um pequeno povoado cinzento onde a miséria era hereditária e estava presente em tudo e em todos. Até as crianças de colo tinham um olhar miserável. Aparentemente, o mundo se esqueceu daqueles que viviam lá e talvez os aldeões daquele lugar nem soubessem que Dai já era independente, pois eles continuaram a viver como antes: pobres, famintos e esquecidos.
Ao chegarmos nessa aldeia, muitos dos habitantes locais nos olharam com o estranhamento daqueles que raramente recebem visitantes. Porquanto, acostumadas ao esquecimento com o qual a humanidade sempre as tratou, algumas crianças nos olhavam maravilhadas como se fossemos seres míticos de outro mundo. Despertamos a curiosidade de todos daquele lugarejo e logo fomos conduzidos para o ancião local, um senhor chamado Suzo.
Suzo era um idoso mirrado com longa e desgrenhada barba branca, ele se vestia miseravelmente e mesmo assim impunha respeito. Sua voz profunda contava a história de um mundo antigo e imemorável, quando ainda havia paz, e seus olhos acinzentados se perdiam na imensidão do horizonte além da cordilheira que cercava o povoado apesar da quase cegueira os nublava. Era possível perceber em seu olhar um misto de saudades, sonhos e lucidez.
Desconfiado, Suzo indagou de onde nós éramos. Sem pestanejar, respondi que viemos das terras que ficavam além das montanhas. De repente, ele se emudeceu e ficou pensativo como se alguma lembrança o atacasse, era quase um luto. Depois de um tempo ele afirmou que tinha piedade de nós. Suzo nos contou que seu pai veio do mesmo lugar que a gente e lhe contou que a terra que fica após a cordilheira é muito mais bela que a da aldeia, mas é cheia de ilusões e por isso mesmo perigosa. O pai do idoso com quem falávamos escancarou duras verdades: Danji é uma cidade onde a pobreza reside apesar da abundância de água e de solo fértil, pois a grande produção de alimentos ficava nas mãos de poucos enquanto a maioria passava fome.
Infelizmente tive de concordar com o progenitor de Suzo. Na verdade, a realidade de toda Dai era realmente aquela que acabou de ser descrita. Falei para o venerável ancião que seu pai em nada mentiu ao descrever as terras que ficavam além das montanhas. Pedi-lhe para poder ficar no povoado e ele me contou que lá não tinha como abrigar mais gente, faltava de tudo, principalmente cabanas extras, comida e água. No entanto, lá perto havia um acampamento abandonado, o qual ele não recomendava que pessoa alguma ficasse lá, pois era um lugar assombrado por fantasmas famintos.
Suzo nos relatou que há muito tempo atrás chegou alguns soldados, estes desejavam dominar toda aquela região. Infelizmente, nada os aldeões locais puderam fazer a não ser rezar e pedir proteção do grande deus Lua, talvez ele falasse no coração dos colonizadores a fim de evitar a dominação. O divino senhor ouviu os apelos de seus fiéis e na mesma noite mandou para o acampamento dos soldados uma matilha de lobos vorazes. A alcateia foi massacrada pelos humanos, mas conseguiram matar metade do pelotão e ferir os sobreviventes. Aqueles que não faleceram naquele ataque, estavam famintos e feridos, não conseguiram arranjar alimentos para saciar a fome nem obtiveram lenha para manter a fogueira acesa os aquecendo. Dessa forma, a morte os visitou sob o manto do frio e da fome.
O venerável idoso nos relatou que após a morte de todos os soldados invasores, o local onde era o acampamento deles se tornou assombrado. Toda noite ainda é possível ouvir a legião de fantasmas marchando e quem pernoitava naquele acampamento desaparecia, ninguém voltou de lá. Provavelmente foram mortos pelos fantasmas.
Agradeci Suzo por ter nos avisado, apesar de saber que esse conselho não nos era útil. Essas palavras não mudavam o fato de não termos mais outro lugar para ficar e só acrescentavam mais medo às nossas almas. Naquele momento, eu e Hualca poderíamos fugir para Taen e abandonar a família de Pemi entregue à própria sorte, pois eles dificilmente seriam aceitos em Taen por serem filhos de Sana. Entretanto, resolvemos permanecer juntos com a família de Pemi e enfrentar os riscos do acampamento assombrado.
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A independência de Dai
FantasíaZoco é um jovem bruxo escravizado de Dai. Não bastando as condições adversas ao qual ele é submetido, ele se apaixona por Pemi, a filha do representante da metrópole em Dai... Um amor proibido. Os deuses, principalmente o deus da guerra, não quisera...
