Um último suspiro. Luzes brilhantes no fundo das pálpebras fechadas. O cano da arma pressionado com a pele da têmpora. Summer rezou para que aquilo acabasse logo. "Será que vai doer?" ela pensou. Existia uma concepção infantil da morte no imaginário dela, mas que não era absoluto e mudava constantemente. Oras, ela pensava que a morte era dolorosa; um tipo de dor excruciante que se espalha pelo seu corpo à medida que a alma deixa a carcaça de carne e se joga no limbo. Mas também existia o outro lado, a concepção de que, na verdade, morrer era pacífico, quieto e silencioso. Era como pegar no sono em uma cama quentinha depois de um dia cansativo.
Por alguns instantes, ela se pegou desejando que morrer fosse como a segunda opção. Os gritos dos seus amigos, aos poucos, diminuíam de volume, dando lugar ao som do silêncio; as rajadas rápidas dentro do lago também pareciam ter cessado. Ainda de olhos fechados, ela ouviu o mundo ao seu redor silenciar, gelar, paralisar. Soltando o ar dos pulmões, imaginou que aquilo significava que Ward havia disparado o gatilho.
Foi somente quando as sirenes da polícia soaram ao fundo, que ela percebeu que não estava morta. Ou sequer estava perto disso. Aos poucos, os gritos de seus amigos; o barulho de passos pesados correndo pelo lamaçal; o bater de asas das garças; as rajadas inquietas dentro da água, retornou aos seus ouvidos, arrancando-a do torpor causado pelo medo.
A mão de Ward, que agarrava sua nuca com uma força brutal, afrouxou o suficiente para permitir com que Summer se desvencilhasse dele. Ele olhava para longe, os olhos arregalados e a boca entreaberta, surpreso. Summer aproveitou o momento, e sem hesitar, puxou a mão que segurava a arma a lançou dentro do lago. Ward caiu no chão, sem forças ou vontade de lutar.
Com habilidade, Summer subiu em cima de seu tronco, em uma tentativa de mantê-lo preso ao chão até que a polícia chegasse. Luzes vermelhas e azuis iluminavam os arbustos do pântano, anunciando que a polícia estava mais perto do que eles imaginavam.
Quando os carros chegaram às margens, os capangas de Ward tentaram fugir atravessando o lago. Antes que chegassem ao fundo, crocodilos surgiram das profundezas da água escura, lançando suas bocarras e dentes em direção aos homens, que rapidamente retornaram ao lugar em que estavam. Summer sorriu, confirmando que as suas suspeitas sobre os movimentos na água eram os crocodilos.
— Criaturas fascinantes, não acha? — Summer perguntou, direcionando seu olhar à Ward — Eles ficam quietos, escondidos, onde ninguém pode encontrá-los, até que algum desavisado tente invadir o seu espaço.
Ward tentou lutar para se soltar, mas Summer rapidamente pegou um punhado de lama com a palma das mãos e espalhou sobre o rosto do homem, de modo a sufoca-lo e deixá-lo confuso. Ward, como era de se esperar, era mais forte e mais habilidoso em auto defesa do que Summer, e com um movimento rápido, suas duas mãos agarram o pescoço da garota, que tossiu e gemeu em surpresa. Ela usou as unhas alta arranhar a pele dos braços e mãos, mas aquilo parecia não surtir efeito nenhum, porque o homem começava a apertar com mais força.
Quando Summer estava perto de perder o fôlego, Ward a empurrou para o lado, jogando-a com força contra a lama e, dessa vez, subindo em cima dos quadris da garota para dar mais força ao agarre de suas mãos. Os olhos dele pareciam vidro, a coloração da íris tornava-se fosca e a pele embaixo dos olhos e pálpebras tomavam um tom de vermelho profundo; as veias nas suas têmporas estavam saltitando diante da força com a qual ele apertava o pescoço de Summer; seus dentes estavam entre cerrados com força, de forma a marcar seu maxilar. Ward parecia ter perdido a cabeça de vez.
— Polícia! — era uma voz feminina — Larga a garota.
Susan Peterkin, xerife da cidade, estava de pé atrás de Ward. Com os joelhos levemente flexionados e uma expressão cautelosa, ela apontava a arma diretamente para a nuca dele. Summer respirou ofegante quando Ward afrouxou as mãos que estavam enlaçadas ao seu pescoço. A expressão dele começava a suavizar, como se, aos poucos e de forma relutante, ele recobrasse a consciência do que estava fazendo.
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Kook Prince
Hayran KurguApós ser expulso de casa pelo próprio pai, Rafe Cameron passa a viver no gueto com o seu melhor amigo, Barry. O que Rafe não esperava, era que ele iria dividir a mesma casa com a irmã mais nova de Barry, Summer. E definitivamente não esperava se apa...
