Tudo estava escuro.
Escuro e vazio.
O que havia acontecido? Cléo não se lembrava, então começou a repassar os acontecimentos na sua mente.
Balam foi atingido pela Serpente de ossos, sendo esmagado contra a madeira das escadas, e ficou inconsciente. Cléo, na tentativa de prever o próximo ataque da serpente, foi para o final da sala e se preparou para quando ela avançasse.
A Serpente avançou, mas nada poderia a preparar para o que aconteceria.
Como um relâmpago rasgando o céu em dia de tempestade a criatura disparou na sua direção, e, antes que pudesse reagir, sua mandíbula se fechou contra seu peito... Mas não mordeu.
Ela atravessou seu corpo — adentrando-o como quem mergulha na superfície de um lago.
Então tudo ficou escuro. Vazio. Frio.
Seu corpo já não estava mais ali. Não como deveria estar. Ela caiu, mas não no chão, para dentro de si mesma. Engolida por uma força maior do que ela, por algo que não apenas físico, mas um conceito.
A Vida e a Morte.
Então veio a dor. Não era física, não era algo que pudesse ser gritado ou aliviado ao toque. Era a dor de se perder. A dor de sentir os limites da sua identidade se dissolvendo como cinzas ao vento.
Ela tentou se mover. Nada.
Tentou gritar. Nada.
Tentou pensar... E então percebeu que até seus pensamentos não eram mais seus.
O Core azul da serpente envolvia seu corpo, o engoliu, e nele, Cléo viu o que ninguém deveria ver. Viu o que nenhum ser vivo deveria presenciar.
Ela enxergou o início, quando não havia nada além de um pulsar silencioso no vazio. Viu o primeiro sopro de existência, quando a vida rastejou para fora da escuridão, frágil e reluzente. Viu o primeiro grito, o primeiro medo, a primeira morte.
E então viu o que vinha depois.
A morte não era um fim. Era uma curva. Um movimento perpétuo. A energia que sustentava o mundo nunca se perdia – apenas se transformava. Aqueles que caíam voltavam de outra forma, talvez em um vento, talvez em um rio, talvez na pulsação de um coração que ainda não havia nascido.
O mundo era uma roda infinita, um ciclo perfeito de nascimento e destruição.
E agora... ela era parte disso.
O Core queimava dentro dela, pulsando como um segundo coração, moldando-se a sua carne. Seus músculos não mais lhe pertenciam, seus olhos não mais enxergavam o que desejavam ver. Ela sentiu suas mãos se erguerem, dedos rígidos como se fossem os da própria serpente. Sua boca se abriu, mas a voz que saiu não era a sua.
— Vida... e Morte...
Os lábios se moviam contra sua vontade. Os músculos se contraiam sem que ela comandasse. Cléo ainda estava ali, ainda existia em algum lugar dentro de si mesma, mas era como estar afogada sob um mar de gelo, observando o próprio corpo ser manipulado como um fantoche.
Ela tentou lutar. Mas como se luta contra o próprio destino?
O Core a consumia, a moldava, a reescrevia.
Por um instante, sentiu-se maior do que tudo que já fora. Como se sua existência individual não importasse mais, como se fizesse parte de algo imenso, eterno. O peso da mortalidade desaparecia, o medo do fim não existia mais.
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Enchanted World Online
FantasiaMike Rodrigues, de 29 anos, jogava um jogo mundialmente conhecido, o "Enchanted World Online", um jogo VRMMORPG, o mais famoso jogo de realidade virtual, com imersão completa. Na noite em que EWO iria fechar o servidor e ser fechado, Mike resolve jo...
