Capítulo 29

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Aprendi que existe uma diferença grande entre sobreviver aos dias e escolher vivê-los. Demorei tempo demais para entender isso.

Algumas semanas se passaram desde a última vez em que senti aquele cansaço esmagador que parecia morar em mim. Não sumiu completamente, claro. Mas agora ele não define mais quem eu sou quando chego em casa.

Porque agora existe um "chegar em casa" que importa.

O trânsito estava surpreendentemente tranquilo quando cheguei ao prédio de S/n. Já faz algumas semanas desde a última vez que algo realmente pesado aconteceu entre nós. Não porque os problemas sumiram (eles nunca somem), mas porque aprendemos a não deixar que eles ocupem todos os espaços.

Aprendemos a existir no meio deles.

Subo as escadas dois degraus por vez, mais por hábito do que pressa e bato na porta duas vezes, como sempre. Ela abre quase imediatamente, usando uma camiseta larga demais e aquele sorriso que parece dizer "você chegou, então está tudo bem agora".

— Você demorou - ela diz tentando parecer séria.

— Eu trouxe vinho - respondo erguendo a garrafa como um troféu.

— Perdão oficialmente concedido.

Entro e o cheiro do apartamento dela me envolve de imediato. É engraçado como lugares começam a cheirar como pessoas. 

— Você parece menos cansada hoje - ela comenta fechando a porta atrás de mim.

— Não se empolgue - aviso. — Isso é só maquiagem estratégica e café demais.

Ela ri e me puxa pela mão até a cozinha.

— Hoje você cozinha comigo - anuncia. — Sem fugir e sem desculpas dessa vez.

— Eu não fugi da última vez.

— Você fingiu que precisava "verificar uma coisa urgente"... no sofá.

— Aquilo era uma coisa urgente.

— Era uma série - ela rebate.

— Pesquisa cultural - insisto.

Ela revira os olhos, mas sorri. Sempre sorri.

As funções foram divididas assim que entramos na cozinha.

No momento estou com uma colher de madeira na mão e uma expressão de concentração exagerada no rosto, como se eu estivesse desarmando uma bomba e não apenas tentando refogar alho sem queimar.

— Você sabe que isso não é uma missão do FBI, né? - ela comenta apoiada na bancada, segurando uma taça de vinho.

— Você claramente nunca viu o que acontece quando alguém subestima o alho - respondo séria demais para a situação.

Ela ri. Aquela risada solta e fácil, que começa baixa e cresce gradualmente. O tipo de som que me desarma mais rápido do que qualquer coisa.

— Nat, você está mexendo isso há cinco minutos - ela diz. — Vai virar carvão emocional.

— Eu só estou garantindo uniformidade.

— Isso é molho, não estratégia militar.

Olho para ela de lado.

— Você está questionando meus métodos?

— Estou questionando sua sanidade culinária.

Respiro fundo teatralmente e então faço o que qualquer pessoa sensata faria: viro o molho na frigideira rápido demais.

Another LoveOnde histórias criam vida. Descubra agora