Nathalia
Pedi para o Marcelo me levar de volta pra casa, e ele me levou.
Assim que cheguei, tomei remédio para dormir e deitei com a Mavi, já estava seca por dentro de tanto chorar, só queria desligar minhas emoções assim como os vampiros.
Diego perdeu o pai, entendo a dor e a crise forte que ele teve. Mas não achei que ele fosse desse tipo de pessoa que lida com o luto se drogando, se embebedando e ficando no meio de mulheres. Ele tinha a tia, a irmã que não poderia ficar sozinha, os amigos, tinha a mim... poderia recorrer a nós para conforta-lo, para o apoiarmos nesse momento tão difícil. Mas não, ele quis o mais fácil, quis se distrair numa festa com gente que já estragou nossa relação antes. Eu estava devastada de verdade, quando algo dava certo, logo outra coisa passava por cima de mim.
Os meninos falaram que ele usou muita droga e bebeu igual louco, estava completamente fora de si, e era realmente triste isso ter acontecido. Eu sabia que agora não teria mais volta, eu não queria mais sofrer por alguém que eu amo e só me machuca, alguém que eu achei que me amava também mas só está me destruindo. Era o fim da gente.
Diego
Assim que eu atendi a ligação da minha tia e ouvi que meu pai havia falecido, meu mundo acabou por completo, e me senti culpado pra caralho por estar longe dele, ainda que a última vez que fui lá com a Nathi eu e ele brigamos. Eu nem sabia o que fazer, não sabia mais como respirava, como andava, como pensava, como iria superar isso, fazia tempo que eu não tinha uma crise forte assim.
Assim que eu soube peguei rapidamente minha moto e fui em direção a BC, de qualquer jeito e com a cabeça a milhão, mas fui.
Minha irmã ainda não entendia muito bem, enquanto minha tia chorava o que podia. Meu pai teve mais um infarto, mas dessa vez tinha sido o último.
— Mano, porque vocês estão chorando? O papai foi pro médico? — me abaixei na altura dela, não conseguia parar de chorar mas respirei fundo pra conversarmos — Por que a gente veio pra titia?
— Valen, as vezes os adultos tem uns problemas de saúde, que deixam eles muito mal... o papai acabou tendo um problema hoje, e vai ficar bastante tempo fora.
— Muito tempo? — sua reação tristinha me deixava mais triste ainda. Concordei com a cabeça e a abracei.
— O mano vai ficar com você, tá? — beijei sua testa e levantei — Preciso sair um pouco — falei pra minha tia.
— Como sair, Diego?
— Cuida dela, eu já volto. — na verdade eu nem queria voltar, queria sumir, queria morrer, queria estar com meu pai. Sai chutando tudo que eu via na frente na rua, minha cabeça doía de tanto que eu chorava.
Liguei pra um amigo que tinha umas paradas fortes, eu precisava esquecer um pouco, aliviar a cabeça, se não iria fazer uma merda maior. Na minha adolescência eu tinha problemas com drogas, lidava com ansiedade avançada e tinha me curado disso, mas hoje eu precisava.
Em alguns minutos eu já estava na casa de sabe se lá quem, bebendo e me drogando, estava só meu corpo ali, a cabeça estava longe, estava totalmente fora de mim. E não lembro de mais nada.
Acordei no outro dia e reconheci meu quarto na casa do meu pai, virei pro lado e vomitei no chão.
— Isso, queridão, se droga igual louco — Léo falou. Olhei pro outro lado e estavam ele, Marcelo e Henrique me observando.
— Que isso? — me apoiei nos cotovelos. Estava sem camisa e com muita sede, mas sem força até pra mexer as pernas.
— Me diz você, o que é isso mano? — Henrique se aproximou com o celular e eu semicerrei os olhos por conta da luz. Era um vídeo da Isadora me agarrando enquanto virava whisky no meu corpo e lambia.
— Não — falei e empurrei o celular — Não fiz isso.
— Fez — Marcelo disse — E pior, a Nathi viu tudo, ela veio atrás de você.
— Parem de falar, por favor — apertei as laterais da minha cabeça.
— Cara, vai tomar um banho, tomar uma água. Você tem velório hoje — ele disse isso e eu pensei rapidamente no meu pai — Sentimos muito por você, irmão — passou a mão no meu ombro, e eu fechei os olhos sem querer abrir mais.
— Cadê a Valentina? — levantei devagar.
— Ta com sua tia ainda, to falando com ela aqui — Leo disse e fui direto pro banheiro tomar um banho demorado. Enquanto sentia a água escorrendo pelo meu corpo tentava lembrar de tudo que fiz ontem, como sou babaca, infantil, escroto, um bosta. Fiquei pensando como eu lidei com a morte do meu pai do pior jeito possível, deixando a Valentina de lado, e cagando na cabeça da Nathalia. Eu era um egoista que só pensava em mim, na real. A tristeza já tinha virado raiva, muita raiva de mim.
Bati forte a cabeça na parede, umas três vezes, até Marcelo entrar no banheiro.
— Ta louco, Diego? — veio e desligou o chuveiro — Bora, se seca. Não se machuca assim, cara — ele me puxou pra fora e enrolou a toalha em mim.
Ele me ajudou a vestir o calção e me levou até o sofá da sala, sentei e desmoronei nas minhas mãos. Chorei mais, me culpei mais, me odiei mais.
— O que eu tô fazendo? — falei baixo.
— Respira cara, precisa descansar e cuidar da sua cabeça pra cuidar da sua irmã — Léo falava — Ela precisa de você agora, e você também precisa dela. Estamos aqui com você também, jamais vai estar sozinho.
— Cadê a Nathi? — levantei e eles me sentaram novamente — Em? — falei em meio ao choro.
— Ta em casa, deixa ela na dela um pouco — Henrique disse visivelmente puto comigo, mas dava pra ver que ele queria me ajudar também.
— Eu não acredito que fiz isso com ela, não acredito que fiz isso comigo, com a Valentina... voltei pro fundo do poço como anos atrás — parecia que eu ia vomitar de tão mal que estava.
Léo veio com uma água pra mim e disse que iria fazer algo pra eu comer. Tentei me acalmar pra ligar pra minha tia, pedindo que ela trouxesse a Valentina aqui.
Ouvi a campainha e o Henrique abriu a porta, ela entrou de mão dada com a Valen com a pior expressão possível.
Levantei e ela veio até mim me dar um abraço.
— Você passou dos limites, amor — ela segurou meu rosto e disse me olhando — Fiquei sabendo de ontem, mas espero que você fique bem agora. Não quero brigar com você nesse momento, só quero que se cuide — acariciou meu rosto enquanto eu assentia com a cabeça. Henrique e Marcelo brincavam com a Valen enquanto Léo trazia uma torrada pra mim — Bom que os meninos estão com você. Vou ir falar com a tia Lúcia, mais tarde temos o velório, não esquece ok? — deu um beijo no meu rosto e eu concordei.
— Posso ir tomar sorvete com o Marcelo, mano? — a Valen me perguntou e eu dei um sorrisinho.
— Claro princesa — dei um beijo no rosto dela.
— Não fica triste, eu já volto! — disse e saiu puxando a mão do Marcelo. Assenti com a cabeça pra ele e eles foram.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Era pra ser
FanfictionSeria uma viagem de réveillon normal como as outras, ou pelo menos Nathalia e Diego pensavam que seria até se conectarem um ao outro. Como se não bastasse ser encontro, foi amor.
