Kira voltou para perto de Liza depois de cantar duas músicas com os lanceiros. A moça terminava os petiscos de carne assada que pedira, então apenas levantou-se e o esperou perto da saída. Sem dinheiro, o rapaz colocou tudo na conta de Bago e se foi.
Chegaram na Espeto Vermelho, prenderam Feroz nos fundos e entraram. Subiram as escadas laterais para a casa e encontraram o anão bebendo algo quente em uma caneca. Não parecia preocupado com eles, quis saber apenas da entrega. Soube tudo que aconteceu e voltou sua atenção para a bebida. Os jovens apressaram-se em banhar-se para descansar. Mantinham um hábito secreto de o fazerem juntos, mas Liza não permitia com frequência que os toques e beijos se tornassem algo maior.
Decidiram não arriscar daquela vez. Com baldes, limparam-se um após o outro. Foram dormir cada um em seu quarto como de costume.
No dia seguinte, Bago os deixou descansar um pouco mais. Arrumou o melhor desjejum que pôde e desceu para a forja, iniciando os trabalhos sozinho. Kira despertou primeiro, comeu parte das frutas e pão antes de descer. Encontrou o ferreiro atendendo um senhor, acertando os valores do reparo e afiação de uma tesoura de tosquio. O rapaz se ocupou com a tarefa.
Cerca de uma hora depois, uma cena na rua chamou sua atenção. Soaram gritos de espanto e algumas pessoas apertaram o passo parecendo fugir de algo. Um Frelen magrelo rosnou para algo, ou alguém, que se aproximava e correu.
Kira viu, então, pelas janelas abertas da forja, o androete do Duque parar perto do estabelecimento, trazendo com as mãos fortes a carroça. Parou ali, esperando pacientemente. O rapaz ficou repentinamente nervoso.
Bago assistiu tudo com olhos curiosos. Poucos sabiam, mas algumas peças daquela máquina viva saíram de sua forja e passaram por suas mãos.
— Deve ter vindo deixar o pagamento. — Supôs. Olhou para o rosto do medroso perto dele. Sorriu. — Deixe que falo com ele.
Calmo, o ferreiro deixou sua forja.
Do lado de fora, recebeu uma pesada bolsa de estopa fechado por um cordão, repleta de moedas douradas e prateadas; os Escudos de Valor. O androete também entregou-lhe um pergaminho. Pareceu dizer algo mais, não era possível ter certeza. Porém, a expressão que tomou o rosto do anão deixou claro que era algo preocupante.
A máquina se foi em seguida.
Bago retornou tentando disfarçar o nervosismo. Pousou a bolsa com moedas sobre uma bigorna. Kira surpreendeu-se.
— Sabia que cem espadas custariam caro, é óbvio. Mas não tanto!
— Sim, o Duque pagou um extra pelo bom trabalho.
— Então o que foi? — Estranhou. Notou algo de errado rapidamente. — Por que essa cara tendo um saco de moedas como esse na mão?
— Por causa disso. — Ergueu o documento, enrolado cuidadosamente.
— E o que é?
O ferreiro suspirou antes de dizer. Lhe estendeu o pergaminho.
— É a sua carta de convocação.
Os olhos do rapaz brilharam. Puxou o documento com vontade, o que por dentro acabou desanimando Bago ainda mais. Leu tudo em voz alta para que ele também ouvisse:
" Vossa alteza, o Duque Enrique Brags, convoca jovens saudáveis do ducado, seja qual for sua raça de origem, para lutarem por ele em Dourarado. O grupo de reforço da Legião dos Bravos partiu deixando equipamentos necessários para formação de uma segunda companhia, para benefício próprio. Portanto, aquele que ainda for saudável e puder brandir uma espada deve apresentar-se no castelo para testes diversos amanhã antes da Luz de Marraria iluminar o mundo.
Escrito em nome do Duque Enrique Brags, primeiro Brags no comando da cidadela de Carvalho Velho."
O rapaz olhou para o anão.
— E então? — Perguntou ele.
— É a minha chance, Bago. Enfim, minha chance de...
— Morrer.
— Não. Lutar.
— Por favor, Kira, vamos conversar sobre tudo com calma mais tarde. Precisamos refletir e discutir cuidadosamente essa sua decisão de uma vez por todas.
— Ah... É, tudo bem. — Concordou. Sabia que, no fim, a decisão não cabia só a ele, mas também ao ser que o criou e sua meia-Irmã.
— Vá guardar isto lá em cima.
Assentiu e subiu as escadas. Deixou o documento sobre a mesa com o desjejum, sob uma caneca. Liza ainda não ainda tinha acordado, ou simplesmente não queria sair da cama.
Desceu e voltou a trabalhar na tesoura de tosquio.
Tentou não transparecer, mas sua mente estava a mil.
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O Bastardo da Rainha
FantasyKirart foi criado e educado pelo anão Bago Blacsmal, dono da Espeto Vermelho, a famosa forja do ducado de Carvalho Velho. Conviver com armas e ouvir histórias de guerreiros viajantes a vida inteira deixou Kira fascinado pelas campanhas militares à...
