Sangue verde escorria do ferimento no crânio da Sisnora selvagem. Kira puxou sua espada e o corpo humanoide finalmente caiu. O rapaz se ergueu, percebendo que deixara as pernas dobradas para efetuar a estocada. Bak retornou para perto dele, surpreso.
- Senhor...
- Temos que ir. Se houver um ninho delas por aqui, estaremos em perigo maior.
- Ninho?!
- Agora, garoto!
- Entendido. - Sabendo que centauros raramente aceitavam seu uso como montarias, Kira assobiou três vezes para chamar Feroz, que rapidamente apareceu.
Ele e Bak deixaram à galope a floresta. Logo chegaram na estrada, e mais algum tempo depois, no grupo maior.
Endrik estava na frente, acompanhado por Ellia e os demais cavaleiros. O clérigo, ao ver a dupla, fez seu cavalo preto aproximar-se.
- Bak? - Parecia tão curioso quanto preocupado.
- Encontramos aquela Sisnora. Demos fim a ela.
- O quê?!
Kira se manteve em silêncio e próximo ao centauro.
- Fomos procurar algo que oferecesse riscos à nossa missão, como disse ao senhor que faríamos. Bem, encontramos, e a exterminamos.
O nobre aproximou-se do animano.
- Eu não deixei claro que não devemos atrair ainda mais a fúria dos seres da floresta?
- Ela atacou primeiro, duas vezes. Apenas nos defendemos.
O centauro mantinha-se sério, encarando seu superior.
- Então esteja pronto para retaliações. - Encerrou o clérigo. E se afastou, retornando para o interior do grupo. - Vamos seguir! Mantenham as armas preparadas, não sabemos mais o que pode acontecer daqui em diante!
Bak olhou para Kira.
- Não limpe sua espada, rapaz. Se quiser ser o líder, mostre-a para todo mundo.
- Senhor? - Ficou confuso.
- Passou no meu teste. Agora cabe à você decidir se quer ser líder ou não.
E simplesmente se foi. Indeciso e um tanto confuso, Kira embainhou a arma suja e se aproximou do grupo, que finalmente voltou a se mover.
Dravaris deixava Lançaria acompanhado de dez guerreiros da Legião dos Bravos, todos vestindo suas belas placas de metal prateado com linhas douradas decorativas. Iam todos montados em grandes cavalos de batalha.
A enorme capital era, com toda a certeza, a maior cidade do continente. A beleza e magnitude da região central, onde ficavam os edifícios mais importantes, as mansões dos nobres, os comércios mais famosos e os setores dos melhores serviços, constrastava com a simplicidade dos extensos bairros periféricos, alguns deles afundados na miséria. Predominavam humanos e gnomos, embora seres de praticamente todas as raças também fizessem parte da população.
Cerca de uma hora antes, o general estava na frente do grande palácio da capital, ouvindo as últimas instruções que Melindrena tinha para dar. Logo soube que o objetivo da excursão era resgatar o filho perdido da Rainha e trazê-lo à salvo para seus braços. O homem deveria cruzar o reino através da estrada real e interceptar o grupo de soldados ao qual o jovem Kirart, nome do rapaz, fazia parte. Dados os perigos no trajeto até o quartel general, na fronteira entre Lançarta e Ponte, precisava ser rápido.
Dravaris, no entanto, não estava tão preocupado. Se continuasse na estrada, encontrar o rapaz seria questão de tempo, pois muito provavelmente o grupo não deixaria de seguir o caminho.
Provavelmente.
Pensava apenas na atitude repentina de sua Rainha, em sua súbita vontade de rever o filho depois de tantos anos e em suas estranhas conversas com Marraria, mesmo não sendo uma sacerdotisa ou qualquer outra classe do gênero
Não queria admitir, mas duvidava de algumas coisas; ao contrário do príncipe que também o acompanhava.
Melias era o mais velho dentre os sete filhos que Melindrena tivera com o Rei Morto, com dezesseis anos de idade. Ao contrário das irmãs, não ficara totalmente contra a mãe quando o Rei fora assassinado. Deu tempo ao tempo e acabou percebendo o enorme bem que fizera ao reino.
Era o único que sabia da existência de Kirart e ajudava Melindrena da melhor maneira que podia, ficando até ansioso para conhecê-lo.
Quando a chance apareceu, agarrou-a com unhas e dentes, tanto que estava ali, no grupo de resgate.
Herdou os cabelos negros da mãe e os olhos azul-escuro do pai. Era quase uma réplica dele, o mesmo rosto belo e altruísta. Era menor que o segundo irmão, mas a altura ainda era condizente com a idade. O único sem armadura, vestia roupas nobres e leves.
Trazia ao lado esquerdo da cintura sua espada de lâmina fina e triangular, cuja guarda e botão eram de metal branco, decorados com linhas entalhadas. Mesmo sendo tão afiada, nunca cortara nada além de bonecos de palha.
- Senhor Dravaris? - Chamou.
- Diga, alteza? - Ao seu lado, o general respondeu, mantendo a atenção no caminho. Os animais seguiam à trote, e ao redor, moradores seguiam-nos com os olhos, curiosos ao verem o príncipe fora do castelo, escoltado por legionários daquela maneira.
- Esta viagem demorará muito?
- Não temos certeza. - Foi sincero. - Os perigos ao longo da estrada são incontáveis e imprevisíveis.
- Ah. Entendo.
- Gostaria de voltar, senhor? Ainda temos tempo.
- Não, não. - Sorriu, sem graça. - Apenas curiosidade.
Mesmo dizendo aquilo, em seu interior, arrependera-se um pouco. Não era tão corajoso quanto imaginava e nunca passara muito tempo fora da capital, ou até mesmo do palácio. Porém, fazia-o também por sua mãe e pela vontade de conhecer o irmão.
Continuou seguindo ao lado dos guerreiros.
Passado o ocorrido, o grupo seguiu viagem normalmente, mas, como Endrik ordenara, todos ficaram de lanças prontas e espadas desembainhadas. Até mesmo os escultores se armaram, carregando adagas. Kira optou por limpar a lâmina de sua arma, mas logo os olhares dos cavaleiros próximos caíram sobre o sangue verde e brilhante da sisnora no metal.
Quiseram saber como o jovem a matou, se o fez sozinho, com que tipo de ataque, se ela o atingiu alguma vez...
O jovem arrependeu-se um pouco, mas respondeu quase todas as perguntas.
Horas depois, o assunto já tinha sido esquecido.
Ellia, ao lado do irmão, estava inquieta e indecisa, pensativa. Distanciavam-se cada vez mais do Ducado, e a ideia de pedir auxílio dos arqueiros ainda persistia em sua mente. Tinha cabeça dura para algumas decisões.
Sem o apoio de Endrik, decidiu que agiria sozinha. Como sempre, desde quando fora largada e esquecida em Montania, tendo que aprender quase à força o uso da magia. Era agradecida pelas habilidades que tinha, mas não sentia falta alguma do que viveu durante tanto tempo naquele feudo gigantesco.
Suspirou.
Mesmo afastando-se tanto, a noite era igualmente longa e ela poderia fazer o queria muito bem naquele horário. Então decidiu: voltaria para Carvalho Velho sem que ninguém percebesse e retornaria pela manhã já acompanhada pelos arqueiros do castelo.
O plano perfeito até o momento que tudo desse errado.
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O Bastardo da Rainha
FantasyKirart foi criado e educado pelo anão Bago Blacsmal, dono da Espeto Vermelho, a famosa forja do ducado de Carvalho Velho. Conviver com armas e ouvir histórias de guerreiros viajantes a vida inteira deixou Kira fascinado pelas campanhas militares à...
