A manhã cansativa deu alguns resultados. Kira fez sua parte, não errou nenhum movimento que o Duque ditou. Outros se atrapalharam um pouco, mas o nobre fingiu não perceber.
Basicamente, ordenou que seus novos alunos atacassem o ar com cortes de espada ditados por ele, que oscilavam entre movimentos complexos e básicos, observando, assim, as performances dos rapazes. Em um determinado momento, o mestre de armas voltou com outros jovens e mostrou a eles tudo que precisavam saber de princípio.
Enrique deu-se por satisfeito ao ver todos de braços cansados e ofegantes, então ordenou que parassem. Deu algumas dicas, mas já tinha visto o que queria. Chamou para frente, ao seu ver, os mais habilidosos, treze ao todo. Kira foi o quinto, mas ficou tão feliz quanto o primeiro.
Estes, por sua vez, foram chamados de um em um para responder perguntas sobre cuidados com cavalos. Todos passaram, e o rapaz, que cuidava de Feroz desde quando este era apenas um potro assustado, respondeu tudo corretamente.
Os que não passaram foram mandados para onde Bak realizava seus testes. Em seguida, os restantes voltaram para os exercícios de esgrima.
Horas depois, com o sol à pino, todos foram reunidos no campo de terra. Estavam sujos, cansados e suados, acompanhados por Bak e o mestre de armas. Os três instrutores reuniram-se próximo à tenda coberta de panos para deliberar sobre o que seria feito a seguir.
Seis minutos depois, retornaram aparentando satisfação.
— Tivemos bons resultados no fim das contas. A maioria é realmente habilidosa, não esperava ver tantos jovens assim na cidadela. — O Duque iniciou. — De qualquer modo, teremos que dispensar aqueles que não se provaram bons o bastante. Harm e Back, podem começar.
Ambos assentiram e avançaram. Kira, mesmo confiante e tecnicamente salvo, ficou subitamente nervoso. Contudo, os dois tutores nem olharam para ele, tocando ombros de jovens dizendo-lhes palavras gentis e agradecimentos. No fim quase trinta foram dispensados, restando quarenta e dois rapazes.
Sorridente, o Duque pediu para que o androete acompanhasse os dispensados para fora do castelo. A máquina obedeceu e partiu, guiando-os.
Por fim, os selecionados foram parabenizados e informados de que deveriam retornar no dia seguinte para iniciarem os treinamentos verdadeiros.
Kira deixou o castelo com um sorriso permanente no rosto. Sentia o corpo leve como uma pluma, era seu sonho que, enfim, tornara-se realidade. Fez Feroz correr como nunca para sentir a velocidade dispersar um pouco da euforia.
O rapaz amarrou sua montaria nos fundos da forja e entrou tentando manter a expressão neutra. Bago e outro ferreiro martelavam lâminas menores, aparentemente de adagas longas. Ao notá-lo, o anão ergueu os olhos para ver o rapaz.
— Antes você avisava quando saía.
— Desculpe, mas vocês estavam dormindo e o senhor, de cabeça quente. Não quis incomodar.
O anão grunhiu em resposta.
— E como foi com o Duque?
— Ah. Nada de demais
— Kira. Como foi?
— Eu... — Pensou um pouco. Inspirou. — Passei nos testes. Vou ser um cavaleiro.
O anão errou uma martelada, acertando a superfície plana da bigorna. Tossiu e pigarreou. O ferreiro olhou para o chefe, surpreso, mas manteve-se trabalhando.
— Entendo. — Recuperou-se. — Vá falar com sua irmã, ela estava preocupada.
— Certo. Ahn, quer ajuda com...
— Não precisa. — Respondeu, curto e grosso, de olhos fixos no metal incandescente.
O rapaz subiu os degraus até o primeiro andar. Foi até a mesa, onde Liza mordia um pão novo, recheado com geleia de frutas cítricas. Olhou para o meio-irmão por alguns segundos, séria.
— Você passou. — Não foi uma pergunta.
— O que...
— Eu ouvi. Cavaleiro, é?
— Sim. O Duque acha que sou bom tanto com espadas quanto cavalos.
— Isso é bom. Para você.
— Liz...
— Ainda bem que eu já estava esperando por isso. Se eu tivesse me iludido...
Perto o bastante, calou-a com um beijo. Ela entregou-se por apenas um segundo e o afastou.
— Aqui não. — Disse apenas.
— Sua boca está com gosto de geleia. — Retrucou. — Eu gostei.
— Vá se banhar. — Cortou. — Depois conversamos melhor.
— Só conversar?
— O que deu em você?
O rapaz sorriu e se afastou. No cômodo mais reservado, tomou um banho revigorante derramando baldes cheios no alto da cabeça. Retornou vestido para a sala e aliviou a fome com o mesmo pão e geleia. Ao contrário do combinado, não trocou nenhuma palavra com Liz.
Estranhamente, não estava tão cansado. Porém, para fazer passar o tempo e esperar o clima tenso abrandar um pouco, foi tirar um cochilo em seu quarto.
Já a moça decidiu estudar, em seu quarto, seus livros sobre magias e encantamentos para tentar esquecer o irmão pelo menos por uma ou duas horas. Não conseguiu.
Contrário à Bago, à tarde Kira desceu para a forja afim de auxiliá-lo. Encontrou-o arrumando os cabos das adagas com dificuldade, enquanto o outro ferreiro aguardava mais peças no forno.
— Pela Deusa, quantas adagas pediram? — O rapaz perguntou, mais para puxar assunto do que por espanto. O anão o olhou com o canto dos olhos.
— Mais de três mãos! — O ferreiro respondeu. Sem saber contar direito, ilustrou com os dedos para expressar a quantidade. — São para o grupo de caçadores. Dentre várias outras coisas coisas, as armas deles foram roubadas esta manhã.
— Roubadas? — Realmente estranhou daquela vez. — Há muito tempo que não ouço sobre ladrões em Carvalho Velho.
— Devem ser viajantes. Os caçadores disseram que um Frelen parecia liderá-los.
— O pior tipo de ladrão. — Bago se permitiu comentar. — Rápidos e sorrateiros, literalmente gatunos.
— Alguém já avisou ao Duque ou aos guardas?
— Alguns vigias estão investigando, mas até agora, nada foi descoberto.
— Espero que sejam pegos logo. Quer ajuda com esses cabos?
— Não.
— Claro que quer, veja com as tiras estão tortas. — Retrucou, aproximando-se e tomando os objetos das mãos rudes. Parecia um jeito desrespeitoso de tratar alguém, mas, para Bago, era um bom modo de tentar a reconciliação. Ele não esbravejou, recuou um passo para dar espaço para o jovem alto. Ambos trocaram olhares e um sorriso discreto.
Kira arrumou o mal serviço nas adagas.
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O Bastardo da Rainha
FantasíaKirart foi criado e educado pelo anão Bago Blacsmal, dono da Espeto Vermelho, a famosa forja do ducado de Carvalho Velho. Conviver com armas e ouvir histórias de guerreiros viajantes a vida inteira deixou Kira fascinado pelas campanhas militares à...
