Amanhecia.
A Luz de Marraria elevava-se lentamente sobre a linha do horizonte, ofuscando o brilho das estrelas e afastando as trevas remanescentes da madrugada.
Já a própria progenitora de tal luz, plenamente materializada em sua forma original, pousara os pés no chão do plano terreno, o mundo dos vivos, sua criação predileta.
Encontrava-se mais precisamente no centro de uma apertada clareira, numa floresta especial que deixara sob cuidados de um antigo amigo.
A Deusa de Várias Faces era uma mulher jovial, tão linda e perfeita como nenhuma outra humana ou elfo existente ou que viria a existir. Pele rosada, alta e magra, seios perfeitos, cintura estreita e quadril largo. Rosto afinado e sério, olhos de íris prateadas e cabelos lisos marrons pairando pouco acima dos ombros.
Trajava uma peça única com adornos dourados e azuis e decote extenso. Manoplas de ouro cobriam mãos e antebraços. Na frente do corpo, segurava sua espada sagrada, Ventania Cortante, de modo que a ponta tocasse o chão. A lâmina de prata media um metro de comprimento, com uma forma losangular próximo à base, onde ficava a guarda, espinhenta, com um lado curvado para proteção dos dedos. No punho curto cabia uma só mão.
A divindade observava um amontoado de pedras cinzentas cobertas de lodo já fazia algum tempo. Suas pálpebras levemente fechadas expressavam um certo desdém, como se reprovasse o que via.
— Já não sei quantos ciclos você dorme, Rasvart. — Disse, enfim, com sua bela voz pouco mais firme que o normal. — Acorde. Hoje precisarei de você.
As rochas continuaram inertes por alguns segundo em seguida, até reverberar uma voz no apertado espaço aberto.
— Às suas ordens, senhorita. — O tom era masculino, grave e rouco.
— Preciso que intercepte um grupo de viajantes. Eles pretendem entrar na floresta.
— Este tipo de pedido normalmente vem de sua outra Face. Proteger a natureza nunca foi de seu feitio, Deusa Guerreira. Isso me surpreende.
— Florvalia está ocupada guiando os Receptáculos animanos em Dourarado. Jà este grupo é de meu interesse.
— Receptáculos?! Mas o que...?
— Se não dormisse tantos séculos, entenderia. — Retrucou a deusa. Fez uma pausa. — Shardovia está despertando. Preciso reuni-los novamente antes que seja tarde.
— Shardovia? Não pode ser... Não outra vez.
— Pior que pode. — E perguntou, direta: — Vai me ajudar?
— Este grupo tem alguma ligação com seu plano?
— Sim, o Humano está entre eles. Na verdade, meu plano é muito mais complexo, porém não preciso te contar nada.
— Cruel...
— Sincera. — Rebateu.
A voz ficou em silêncio por algum tempo. Pareceu pensar.
— Ajudarei. Se o destino do mundo agora depende...
— Por favor, sem frases de efeito. — Marraria cortou. — Já estou farta desses duelos milenares. — Ergueu Ventania Cortante, pousando a lâmina no ombro direito. — Se quiser cooperar, seja rápido. Erga-se, espere, e quando sentir a presença deles, ataque-os. O restante, deixe por minha conta.
— Como desejar. — Encerrou a pilha de pedras.
— E não faça idiotice.
Tomando um impulso sutil dobrando os joelhos, a deusa disparou na velocidade de um raio rumo ao céu, gerando uma força invisível que fez as copas das árvores sacudirem violentamente e os pássaros próximos baterem asas em retirada. Sumiu entre as nuvens enegrecidas em segundos.
Estava feito.
Mostrar para Endrik uma visão falsa para que ele executasse o desvio pela floresta, e, em seguida, instruir Rasvart à atacar a comitiva do clérigo no meio do caminho. Fazendo isso, dividiria o grupo por algum tempo, dando início, assim, à segunda etapa.
Para Marraria não importava tanto assim os outros guerreiros, bastava manipular suas mentes para mantê-los à salvo, o que, porém ficava cada vez mais difícil devido àqueles tempos de instabilidade etérea; tanto seus poderes quanto os de suas outras Faces não surtiam mais os mesmos efeitos.
Apenas Kirart importava, o Receptáculo da Alma do Humano, o Guerreiro das Nove Classes,
Uma longa e antiga história que viria à tona num momento futuro.
Já Dravaris e o príncipe viajando sob ordens da Rainha, considerou um desafio. Melindrena não devia ter agido por conta própria e interferido, contrariando seu aviso. Como punição, a deusa atrapalharia seus planos.
A divindade voava em tamanha velocidade que a resistência do vento parecia não existir. Cortava o céu, tanto que quem visse do chão imaginaria uma estrela cadente no fim da noite ou algo do gênero. Em menos de dois minutos, pairava sobre Ponte, o palco da Guerra de Travessia.
Seu lugar preferido no mundo todo.
Flutuando, Marraria sentou entrelaçando as pernas e largou sua espada, que também pairou, ignorando a gravidade. Parecendo relaxar, fechou os olhos e estendeu sua visão até o solo, admirando batalhas que aconteciam à luz do sol nascente.
Após a reunião da noite anterior, Kira informou aos cavaleiros o que foi decidido. Falou sobre o desvio e como seria realizado, não demorando para alguns discordarem da ideia ou ficarem confusos. Mais algumas explicações e muita conversa depois, o líder pareceu convencer todos. Por fim, pediu para dois companheiros ajudarem na vigília e foi direto para sua barraca.
Dormiu vestindo armadura e espada nas costas. A sonolência fez com que esquecesse o desconforto e, como resultado, acordou com o corpo dolorido.
O grupo comeu pouco. Os cavaleiros alimentaram e soltaram os cavalos enquanto os guerreiros desarmaram as barracas. Estes já tinham conhecimento do que seria feito, notícia espalhada por Bastian e seus quatro ajudantes.
Enquanto os rapazes terminavam de entrar em formação para seguir viagem, Endrik foi até as carroças montado em seu garanhão preto.
— Vocês e os lanceiros de Carvalho Velho seguirão pela estrada usando esta rota. — Entregou um mapa para um dos dois senhores escultores na frente da primeira carroça, que ficou confuso no mesmo instante. — Demorada, mas, como estão em veículos, o tempo será compensado.
— Senhor? — Estranhou o idoso.
— A floresta é fechada demais para as carroças. E alguém precisará defendê-las.
— Bom... — Analisou o mapa brevemente. Deu de ombros em seguida. — Parece certo. Faremos como ordenou. — Enrolou a carta geográfica e a prendeu no cinto. — Que a deusa guie seus passos e traga boa sorte, senhor.
— Que ela vos acompanhe também. Nos veremos em breve.
O escultor assentiu e fez o par de cavalos marrons trotarem. Atrás, sem muitas opções, o outro veículo seguiu.
— Espere, vocês não vão ainda. — Pediu o loiro. A outra dupla de escultores freou os animais, assim como a da frente, curiosa. Rapidamente, o clérigo virou para Kira e o grupo de cavaleiros. — Precisamos levar provisões para a viagem. E, bom, os únicos cavalos que temos são os de vocês.
— Já entendi. — Disse o rapaz, sem conseguir evitar um meio sorriso. Olhou por cima do ombro e ninguém pareceu discordar ou ficar contrariado.
Alguns minutos depois, todas as montarias tinham bolsas e sacos nas laterais das selas e as duas carroças já tinham partido. A primeira, carregando armaduras, armas e algumas barracas, seguiu com quase toda a carga.
Resolvido o problema dos veículos e feita a transferência dos mantimentos, já estava mais que na hora de partir. Os jovens guerreiros se agruparam e Endrik tomou a frente junto à Bak. Os cascos de seu cavalo foram os primeiros à tocarem as folhas secas do solo florestal. Em seguida veio o centauro, a dupla de clérigos, os cavaleiros e o restante da companhia.
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O Bastardo da Rainha
FantasyKirart foi criado e educado pelo anão Bago Blacsmal, dono da Espeto Vermelho, a famosa forja do ducado de Carvalho Velho. Conviver com armas e ouvir histórias de guerreiros viajantes a vida inteira deixou Kira fascinado pelas campanhas militares à...
