21. Inesperados

71 6 0
                                        

Chegar no castelo não demorou muito, já que Kira conhecia muito bem todas as vias e ruelas da pequena cidade. Tomando alguns atalhos, chegaram na longa estrada que levava ao portão de madeira e metal.
Ellia concentrou energia no antebraço e punho, erguendo-o para provar quem era. Sentia o corpo suado sob o manto, fraqueza nos músculos e a respiração acelerada. Nada menos que o cansaço gerado por evocar sua mágica tantas vezes.
E aquela não seria sua última carga.
As abas pesadas se abriram com um estalo e um rangido, e a dupla adentrou os muros à trote.
Uma dezena de lanceiros os recepcionou.
— Senhorita! — Disseram, surpresos.
— Meu pai. Preciso... falar com ele.
Kira parou e desceu primeiro de Feroz. Rapidamente segurou a mão da maga para ajudá-la a descer.
— Algum problema com a viagem? — O homem mais a frente perguntou.
— Ainda não. Agora, se me dão licença...
E junto ao rapaz caminhou em direção a porta do palácio, apoiada em seu braço. Suas pernas estavam mais pesadas do que imaginou que estariam.
Os lanceiros seguiram a dupla de perto.
— A senhora pode aguardar aqui, podemos...
— É urgente!
— Sabia que ficaria cansada, — Disse o jovem ao seu lado, pouco mais baixo. — Mas não que ficaria tanto.
— Vai passar logo. Sempre passa.
— Essa roupa também não te ajuda em nada, sabe disso?
— Por favor, pode ficar quieto? — Um princípio de dor de cabeça irritava a maga. Ela tocou a testa.
— Desculpe-me.
Kira, então, prestou mais atenção no interior do palácio do Duque e na bela e luxuosa decoração. Estava em um corredor largo e claro com pinturas nas paredes retratando belas áreas naturais ou retratos de pessoas.
Ellia foi quem o guiou para o grande quarto do nobre. Logo o grande grupo chegou em frente a uma porta maior, onde esperava uma figura de aparência estranhamente humana.
Uma mão fria apertou o coração de Kira, que até errou uma passada.
— Algo errado? — Questionou o androete do nobre, com sua voz distante e isenta de quaisquer emoções.
— Preciso falar com meu pai. — Ellia disse. — Saia da frente.
A máquina obedece em silêncio, afastando dois passos.
A garota abre a porta com pressa, quase invadindo o aposento. Enrique, antes relaxando em sua cama espaçosa, levantou-se com um susto ao ver sua filha, Kira e uma dezena de lanceiros entrando em seu quarto.
— Ellia!?
— Pai, precisamos de arqueiros!
— Senhor, tentamos avisá-lo, mas ela disse que era urgente! — Adiantou-se um homem.
— Esperem um pouco! — Exclamou o nobre. Afasta os lençóis e se levanta. — Vocês podem ir, obrigado. Quero uma conversa à sós com esses dois.
Assentindo, os homens armados deixam o quarto, apressados. O último fecha a grande porta.
— Pai! — Começa a jovem maga.
— Explique-se, mocinha.
— Me dei conta do erro que o senhor cometeu ao não adicionar arqueiros ao nosso grupo. Então vim buscar alguns.
O Duque fica em silêncio por três segundos.
— Veio buscar?
— Isso.
— Assim, sem mais nem menos, no meio da noite você decide dar meia volta e retornar?
— Sim, exato.
— Filha, por mais que você pense que tudo dará certo, é importante considerar os imprevistos. Extremamente importante, aliás.
— Mas eu estou aqui agora, e nada me aconteceu. E preciso dos arqueiros.
— Tudo bem, que história é essa de arqueiros? Optei por não inclui-los no grupo porque queria focar totalmente na força de infantaria, muito mais útil numa guerra de confrontos travados por grupos menores. Não foi um erro.
A maga olhou para Kira, que apenas deu de ombros. Ela então abaixou os olhos e voltou a atenção para o pai.
— Mas, pai, querendo ou não, acrescentariam muito poder à nós. Principalmente os arqueiros de Lançaria que guardam o castelo.
— Eles também não quiseram ir. — Enrique disse apenas. — Na verdade, este foi o maior motivo, e eu os entendi. A função deles é guardar, e não guerrear.
— Bom... É, também há esse obstáculo.
Kira suspirou e fechou os olhos. Tal viagem para nada.
— Está vendo, Ellia, como é importante pensar bem antes de agir?
— Certo, tudo bem, eu entendi. — Desapontada, suspirou e virou-se. — Adeus então.
— Ei, espere!
— Precisamos voltar logo antes que Endrik perceba que sumi.
— Você saiu escondida?
— Eu e ele. — Apontou para Kira. Ele abriu os olhos, arregalados, e encarou a moça.
— Eu vim atrás de você!
— Olha, você concordou. Agora vamos.
Abriu a porta e deixou o quarto.
— Kira. — Chamou Enrique. Fez sinal para que se aproximasse e ele o fez. — Já que está aqui e se propôs a acompanhá-la, por favor, fique de olho nela por mim à partir de agora. Como bem viu, Ellia tem uma forte personalidade e quando decide fazer algo, não há nada que tire a ideia de sua cabeça. Por vezes confia tanto em si mesma que não considera os fatores externos. E como nunca se deu bem com Endrik, talvez ele não possa tomar conta dela.
— Agradeço por confiar tanto em mim, senhor. — Disse, um tanto surpreso. — Se insiste, farei tudo ao meu alcance para mantê-la sã e salva, o que antes já fazia parte das minhas obrigações.
— Eu que agradeço, meu jovem. Agora vá e obrigado pela visita. — Agradeceu com um sorriso humorado.
— Adeus, senhor.
O jovem guerreiro deixou o grande quarto do Duque. Viu Ellia mais ao longe, esperando-o, e graças à Deusa o androete não estava mais por ali.
Ele juntou-se à maga cinza, deixaram o palácio, retomaram seus cavalos e partiram.
Dois minutos depois, um terceiro cavalo deixou o castelo, seguindo-os.

No caminho até o portão, Kira pensou em ir em casa. Mas já era tarde e não tinham mais tempo para gastar.
— O que meu pai lhe disse? — Quis saber a moça, retirando o rapaz de sua nuvem de pensamentos.
— O que? — Foi o que conseguiu dizer.
— Ele te chamou, você demorou... Era algo importante?
— Me fez um pedido.
— Pedido? — Esticou o lábio inferior e assentiu. — Quem diria... Posso saber o que é?
— Vai perceber algum dia.
— Que mistério. — Sabendo que mais nada sairia dali, Ellia prestou atenção no caminho, seguindo o cavaleiro.
Chegaram na estrada real à galope, e mantiveram a velocidade dos cavalos alta por um bom tempo. O som dos cascos se propagavam muito mais graças ao silêncio,
Camuflando quase totalmente o som das folhagens nas copas das árvores no momento que um ser saltou sobre as montarias.
Mesmo pulando antecipadamente, a velocidade dos animais o deixou um pouco para trás, e mesmo sem fazer um ruído, Kira sentiu a presença estranha, quase como um instinto.
Olhou por cima do ombro, e em meio a escuridão viu um grande Frelen alaranjado, de roupas pretas, provando que não era apenas um selvagem.
Não podia ser aquele Frelen.
Puxou a espada longa. Ellia, ao notá-lo, emitiu um grito agudo.
— Acelere! — Ordenou o cavaleiro, ainda de rosto virado. Puxou a rédea de Feroz para freá-lo e deixá-lo de lado, entre o Frelen e a maga, que atônita, ainda observava.
— Enfim o nosso acerto de contas, assassino! — Exclamou Endrik, imerso em fúria. Mesmo não tendo honra alguma, não avançou covardemente. Apenas endireitou-se, desejando um duelo corpo à corpo.
— Quer o mesmo destino de seus comparsas, ladrão?! — Retrucou o jovem. Ver o animano ali fez crescer uma estranha coragem em seu interior, e montar um cavalo, vestir armadura e portar uma arma apenas aumentou o sentimento. E, na frente de Ellia, não poderia hesitar, tendo que protegê-la.
Desceu de Feroz mantendo os olhos fixos no ladrão.
Endrik curvou-se e agachou-se, escancarando os dentes.
Kira apertou o punho da espada longa.
E então o animano saltou, rugindo, de boca aberta e garras de fora.
— Kira! — Ellia gritou, pulando de sua égua

O Bastardo da RainhaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora