5. Discussão Quente

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A noite chegou e um clima estranho caiu sobre Espeto Vermelho. Bago fechou a forja, Kira subiu para tomar um banho. Liza passou a manhã dormindo e a tarde ocupada com livros sobre encantamentos de objetos. Ficou sabendo da chegada da carta bem depois dela ter sido entregue.
O jovem retornou para o jantar, encontrando pai e filha sentados à mesa parecendo preocupados. Um tanto desconfortável, puxou uma cadeira e sentou-se.
A comida não fora servida e talvez ninguém tivesse apetite para comer em seguida.
— Vamos começar logo. — Bago disse, sério, quebrando o breve silêncio. — Kira, hoje de manhã o androete deixou uma carta de convocação obviamente enviada para você. O que sentiu?
— Bem... — Pensou por um segundo. — Eu fiquei feliz, confesso. Sabem o quanto espero por isso.
— E como sei. Mas você deve entender que isto não é uma coisa boa.
— Meus objetivos são bons. Estou pensando no futuro.
— É irônico ir lutar em uma guerra pensando no seu futuro.
— A guerra está praticamente ganha, todo mundo sabe disso. O que acontece em Dourarado não vai muito além de saques.
— Ganha? Que "todo mundo" é esse? Há vinte ciclos a Rainha tenta dominar aquelas malditas terras. Já foram seis campanhas e quase nada aconteceu. E a maioria que vai não volta, e quando volta, vem pior do que antes. — O rapaz foi pego. O anão ergueu uma sobrancelha. — Quem diz que Dourarado é uma terra maravilhosa de riquezas infinitas nunca colocou o pé para fora da cidadela. É mais um matadouro do qualquer outra coisa.
— A maioria dos Duques recebeu tal título quando retornaram da guerra, ricos como reis.
— São casos totalmente isolados, Kira, por favor, não se baseie nisso.
— Honestamente, Bago, o que quer que eu faça? Passe minha vida toda aqui martelando metal? — Retrucou, farto. Ofendeu o anão profundamente, que realmente cresceu "martelando metal", forjando armas como ajudante de seu finado pai. Explosivo como era, não conseguiu evitar que o sangue esquentasse. — Prefiro partir, lutar e ter algum suce...
— Um trabalho digno ao invés de viver matando até ser morto! Mas se é isso que prefere, ótimo! — Exclamou, batendo no tampo da mesa com força, que, por um milagre da Deusa, não se espatifou. Liza, que só ouvia a discussão preocupada, levou um susto e deixou escapar um grito. — Se quer tanto assim, vá e morra, a escolha é sua!
— Bago, eu...!
— Calado! Já estou farto disso!
E se foi, bufando, virando o rosto com pressa para ocultar os olhos marejados. Entrou em seu quarto e bateu a porta, dando fim à tal conversa calma.
Kira suspirou. Olhou para Liz.
— Não vai gritar comigo e ir embora também?
— Vem cá. — Pediu, estendendo-lhe a mão. Um pouco surpreso, segurou seus dedos e obedeceu
Foram para o quarto da jovem.
Ele entrou, ela parou na porta e a fechou atrás de si. Passou a tranca. Kira se virou.
— Liz...?
— Fique quieto. — Seu rosto estava avermelhado. — Não vai tão ser fácil como das outras vezes.
— O quê?
A moça puxou e abaixou os ombros da blusa grande e folgada que vestia. O tecido foi escorregando por seu corpo até cair em seus tornozelos. Mesmo morrendo de vergonha, segurou as mãos para não esconder os seios.
— Liz... — Kira tentou.
— Por que está fazendo essa cara de bobo? Você já me viu assim antes.
— É diferente. Nos banhos não conta.
Liza se aproximou dele.
— Claro que conta, idiota. — Retrucou. Quente, pousou a mão na nuca do amante e o beijou.


Os dois jovens satisfizeram alguns desejos. Não chegaram ao ato sexual, mas os beijos e toques bastaram para inflamar seus corpos. Tentaram não fazer barulho para Bago não desconfiar, mas era quase impossível não deixar escapar ruídos ou abafar um gemido vez ou outra.
Pararam somente quando cansaram, deitando abraçados, ofegantes e mornos.
Kira se sentiu um pouco mal em seguida. A investida serviu para fazê-lo hesitar, ou pelo menos ter medo de dizer para Liza que não desistiria de seu futuro. Se sentia um idiota por fazer aquilo com ela, magoá-la depois de tudo que fizeram. Não só naqueles minutos, mas naqueles últimos anos.
— Você sabe que... geralmente, nunca me dei bem com outros garotos. — Disse ela de repente, passando o dedo indicador levemente no abdômen forte do rapaz.
— Sei muito bem. Quantos pobres apaixonados não sofreram na sua mão? — Respondeu com a retórica.
— Isso prova o que sinto por você. Se faço isso, não é para passar o tempo ou só manter uma relação escondida de meu pai. — Fez uma pausa como se estivesse tomando coragem. — Eu realmente gosto de você. Eu amo você.
Kira fechou os olhos. Em um outro momento, era o que mais desejava ouvir em cerca de meia década. Mas naquele em especial, sentiu-se pior ainda.
— Eu também amo você. — Se permitiu dizer. — Amo muito, e há muito tempo.
Liza passou o braço por cima dele e o abraçou. Não disse nada por algum tempo, com receio de perguntar sobre a convocação.
— Não vai mais me deixar, não é?
— Não faça isso comigo, Liza.
Ela se ergueu, olhou em seus olhos.
— Não acredito.
— Eu sei que não vai me entender e que nunca entenderá. Mas é só o que quero fazer: lutar. Eu sou bom com a espada, não vou contando com a sorte para morrer.
A moça suspirou.
— Não vou entender mesmo. — Disse, mas sem demonstrar raiva, e sim desapontamento.
— E eu posso não passar nos testes do Duque, você não está pensando nisso.
— Você vai passar.
— Não tenho tanta certeza, eles podem ser rigorosos demais.
— Você vai se esforçar ao máximo e, como disse, é habilidoso. Vai passar.
— Olha, estou tentando te dar alguma esperança. Pode se ajudar também?
Ela deu um meio sorriso.
Passou a perna por cima dele em seguida.
— Por que não esquecemos isso um pouco e ...
— Ei, é melhor se controlar ou vamos fazer besteira. — Repreendeu Kira, responsável. — Vou para o meu quarto, se Bago nos pegar estamos mortos.
— Ah, está bem... — Grunhiu, virando-se. O rapaz se levantou. — Só tente esconder esse volume na sua roupa no caminho
— Que...? Ah. — Sorriu.
— E que volume.
— Liz! — Ela riu baixinho. — Até amanhã.
O rapaz deixou o quarto e foi até o seu.
Bago não deu as caras, enfiado no quarto desde a discussão.

O Bastardo da RainhaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora