23. Escudo-Bainha

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Rapazes iam de um lado para o outro, os cavaleiros nem ali estavam. As fogueiras foram reavivadas e as sombras dos jovens passavam de um lado para o outro ainda mais inquietas e ligeiras.
Endrik e Bak, no centro, davam ordens sobre como todos deveriam agir durante as próximas buscas.
Buscas. Ao ouvir tal palavra, Kira entendeu exatamente o que estava acontecendo.
- Ellia... - Cutucou a moça nas costelas. Ela apenas se afastou e grunhiu. Estava dormindo, não exatamente desmaiada. - Ellia!
Mesma reação.
Então respirou fundo e olhou para Isteilon, logo atrás, que assentiu em incentivo.
O líder dos cavaleiros surgiu dentre as árvores e todos os olhares caíram sobre ele, Ellia praticamente em seu colo muito bem acomodada e no belo elfo cujo tom de pele, devido às fogueiras, passava discretamente do cinza para o alaranjado.
- O que...? - Bak tentou.
- Na minha tenda. Os três. - Retrucou Endrik, passado seu espanto rapidamente. - Agora.
O arqueiro adiantou-se, desceu de seu cavalo e tomou sua senhorita nos braços para que o Kira pudesse desmontar. Seguiram o clérigo até a maior barraca, carregando, juntos, a maga.
Bak pediu para que todos voltassem à descansar ou montar a vigília enquanto iria atrás dos cavaleiros.
Dentro da barraca, Isteilon foi instruído à deitar a moça sobre os lençóis onde normalmente dormia, enquanto Kira enfrentava o chefe da comitiva.
- Apenas explique-se, Kira. - Ordenou o clérigo, cansado, e o rapaz o fez.
Falou sobre o momento que saiu do acampamento atrás de Ellia e do pequeno desentendimento entre eles, da chegada em Carvalho Velho e a conversa com Enrique, além do encontro com Isteilon.
Não citou o sangrento duelo com Erik, o que foi inútil, pois Endrik notou os furos na braçadeira e, obviamente, o extenso talho no peitoral de metal.
- E isso aí? - Apontou com o queixo. Kira tocou a placa, mas antes que dissesse algo, o arqueiro élfico tomou a frente, aproximando-se.
- Uma emboscada. - Disse rapidamente. - Um ladrão Frelen emboscou os dois, senhor. Kira não fez nada além de defender-se e defender senhorita Ellia.
- Ah. Entendo. - O clérigo parecia desconfiado, mantendo os olhos no rapaz por mais alguns segundos. - Agradeço por ter vindo, Isteilon, mas sua decisão foi extremamente imprudente. Espero que, futuramente, a culpa não recaia sobre mim.
- Quanto à isso, senhor, não se preocupe. Eu a assumirei. Estou aqui por conta própria.
- Ótimo. - Suspirou. - Aliás, imprudência é a palavra que definiu bem esta noite. Bom, agora vão. Farei uma prece pelo bem-estar de Ellia e pelo meu, depois deste nervosismo todo...
- Com licença. - Pediu Isteilon, retirando-se. Kira apenas assentiu e o seguiu.

A maioria perdeu o sono naquele fim de madrugada. Isteilon ganhou a atenção de todos, tanto por ser um arqueiro lançariano quanto um elfo nascido e crescido na longínqua Herbas. Ficou visivelmente incomodado com tantas perguntas sobre suas características raciais, suas habilidades com o arco ou até mesmo a peculiaridade na pele, que mudava de acordo com certas condições do ambiente.
Kira foi direto para uma barraca vazia e desabou.
De armadura e tudo, dormiu inerte como uma pedra.
Pela manhã, todo o grupo estava cansado por causa da falta de sono. Comeram o bastante para enganar a fome, desfizeram o acampamento, guardaram tudo nas carroças e marcharam seguindo o único caminho.
Junto aos cavaleiros, Kira decidiu ir à frente de todos, ficando ao lado de Bak. Alguns companheiros olhavam torto para ele, que causara tamanho tumulto horas antes, tendo o grupo inteiro que procurá-lo no perigo e escuridão da floresta. Outros, porém, o fizeram de boa vontade.
Quando notou o rapaz, o centauro o observou com o canto dos olhos.
- Algum problema? - Perguntou.
- Nenhum, mas preciso agir como líder para ser escolhido como um, certo?
- Então decidiu.
- Sim. Pensei um pouco, e por que não? Agora só depende do restante.
- Acho que isso não será problema. - Inclinou o corpo humanoide, aproximando-se um pouco do rapaz. - Quando eu ordenar que façam o reconhecimento da área, tome a frente e coordene todos. Mas faça direito.
- Sim, senhor. - Concordou com um meio sorriso.
Afastou-se do centauro.
- Aliás, esse corte no peitoral e deu um toque... heroico.
- Ah. Acho que só marteladas não vão resolver dessa vez.
Bak sorriu.
- Cavaleiros! - Chamou em seguida. Puxou sua espada longa. - Cavalguem e procurem algo que possa atrapalhar ou atrasar nossa viagem. Acabem com qualquer perigo!
E partiu à galope. Atrás dele, todos puxaram suas espadas ou prepararam suas lanças. Kira sacou sua arma mais alongada e fez Feroz acelerar.
Indo já mais afastado, inevitavelmente tomou a dianteira, atrás apenas do grande centauro.
- Saiam da estrada! Esquerda e direita, entre as árvores! - Exclamou, no tom mais confiante que conseguiu. Atrás, alguns rapazes se entreolharam. Decidiu exagerar: - Darei meu almoço para aquele que me trouxer a cabeça de algum animano!
E mergulhou para a esquerda. Outros cinco cavaleiros, de certa forma incentivados, seguiram-no, e os demais foram para a outra direção.
Cavalgaram pouco mais de trezentos metros à frente sem encontrar nenhum animano, apenas animais menores e covardes que fugiam ao menor dos ruídos, tornando-se caça. Resultado disso, os cavaleiros retornaram para o grupo maior com menos pressa, e quatro ou cinco rapazes traziam, orgulhosos, roedores escuros e gordinhos.
Kira então viu Ellia, ao lado do irmão, com Isteilon pouco mais atrás. A pele do elfo, à luz do dia, tomara o tom rosado pálido comum.
O rapaz acenou para os três com a cabeça e um sorriso sutil nos lábios. Endrik repetiu o movimento, bem como o arqueiro. A moça foi um pouco mais simpática, e o jovem guerreiro ficou subitamente mais alegre.
Mais tarde, quando fizeram a primeira pausa, na metade do dia, comeu rapidamente sua porção de comida e foi até uma carroça, onde aguardava um escultor de idade já avançada, magrelo e calvo, que mordiscava algum tipo de fruta.
- Com licença, senhor.
- Oh, o que deseja, cavaleiro?
- Estou precisando de um escudo. O meu antigo foi, bem... Sabe se há algum disponível?
- Sim, jovem, mas não nesta carroça. Aqui ficam as barracas, as provisões e o tesouro. - O transporte estava coberto por um pano grande e pesado, Kira não tinha como saber. - As armas e ferramentas estão naquele ali.
O velho apontou para o veículo seguinte. Kira apenas assentiu e foi até ele. Puxou o grande lençol que o cobria e deparou-se com espadas e adagas embainhadas, lanças unidas em dezenas por cordas e escudos de tamanhos e formas variados. Além de martelos como o que usara, serrotes, lampiões e outros utensílios.
O rapaz olhou para os objetos. À exceção dos escudos, tudo vinha da Espeto Vermelho, talvez passaram até por suas mãos.
Contudo, um escudo chamou sua atenção completamente.
Seu estilo chegava à emanar nobreza. Trazia o emblema real da lança dupla estampada no centro da fronte metálica, indo quase de uma extremidade à outra. Apresentava um discreto relevo, como se fosse uma segunda chapa colocada acima da primeira. A frente também não era exatamente curvada, e sim com uma quina no centro, dividindo ambas as metades. Era todo de metal claro como prata, novo como se tivesse acabado de ser feito.
Tinha o formato lanceolado, cujo lado mais largo afinava-se em direção à outra extremidade; as laterais eram metade retas, metade curvadas, formando ao mesmo tempo um corpo retangular e uma ponta curvada. A parte de cima, próxima ao rosto, tinha o formato de um V invertido e esticado.
Media pouco mais de um metro de altura e sessenta centímetros de largura.
Haviam outros três escudos idênticos ali.
Kira, fascinado e atraído, pegou um deles segurando pelas laterais. Não era tão pesado quanto parecia, tanto que até estranhou.
Logo passou o antebraço em apertadas tiras de couro e segurou sua empunhadura, de modo que o escudo ficasse perpendicular ao membro. Assim que fechou os dedos, notou uma estreita entrada na superfície do objeto, pouco mais espesso visto daquele ângulo. Logo entendeu sua serventia, ficando ainda mais empolgado e subitamente curioso.
Voltou apressado até o senhor escultor.
- Este aqui. Sabe de onde é?
- Oh! - Ficou realmente surpreso. - Isto devia pertencer ao arsenal particular do Duque! É um escudo-bainha antigo, do tempo que a Rainha das Lanças renomeou o reino. Dizem que foi fabricado com um metal secreto e resistente, que não amassa com qualquer impacto. E, como diz o próprio nome, serve como bainha também. É bem raro, pouquíssimos foram criados, muito disputados na época.
- Como algo desse nível veio parar aqui?
- Não tenho certeza, mas como disse, é antigo. Talvez senhor Enrique quisesse apenas dar algum uso para ele.
-E eu farei, com toda certeza. Obrigado.
- Uma ótima escolha, jovem.
Kira sorriu e afastou-se do senhor, indo até Feroz quase correndo, agitando o grande achado, atraindo olhares curiosos. Seu semblante lembrava o de uma criança.
Pegou rapidamente sua espada mediana e encaixou-a no espaço. A lâmina entrou perfeitamente, como se tivesse sido feita sob medida,
O escudo ficou um pouco mais pesado.
Esteticamente, era perfeito, Kira via isso. Ficou louco para testar aquele tal metal misterioso, usá-lo na prática. Conteve-se usando boa parte de todo o tempo livre que tivera ao longo da viagem refletindo como lutaria combinado as duas armas, treinando, escolhendo e adaptando movimentos.

O Bastardo da RainhaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora