Num instante, Kira ouvia os gritos dos centauros e o barulho de seu galope. Noutro, de repente, os sons foram calados com um estrondo seguido de um verdadeiro terremoto. O rapaz arregalou os olhos, parou de andar e encarou a mindinho flutuando ao seu lado.
— Rasvart... — Murmurou ela, preocupada.
— O quê? — Franziu a testa discretamente.
— O gigante foi derrotado. Talvez morto.
— Morto?! — Kira voltou sua atenção para frente. Quatro segundos antes, conseguia ver, mesmo que bem distante, um ou outro centauro passar à galope. Porém, não viu nada do tipo. — E aonde estão os centauros? Eles não deviam estar gritando agora?
— Sinto que não foram eles a fazê-lo.
— O quê?
— Vamos, Guerreiro. Você precisa voltar para seguir viagem. Sinto Ponta do Anzol está quase tão perto quando seu cavalo.
— Como você simplesmente sabe essas coisas?
Brisa ergueu as mãos pequeninas e deu de ombros.
— É um dom natural.
— Sei. Contanto que me explique o que houve para eu não ter morrido...
— Tudo ao seu tempo, Guerreiro. Tudo ao seu tempo.
Atônito como nunca estivera, Brank deixou cair a alabarda atrás do corpo e pousou as patas dianteiras no chão. Um clarão, um segundo e as costas de Pedralha se desfizeram em algumas centenas de cristais. O gigante tombou para frente à partir da posição que estava, esmagando meia dúzia de árvores e permanecendo no chão, imóvel.
Os centauros frearam, igualmente incrédulos, e então notaram a nova presença.
Uma humana.
O tom de sua pele quase se fundia ao manto cinza claro, os cabelos tinham a cor da neve. Montada sobre uma égua alva, abaixava o braço direito enquanto eram visíveis gravuras na pele, que emitiam uma espécie de luz branca, enfraquecendo aos poucos.
Por alguns segundos, o silêncio tomou conta do círculo de destruição criado pelo gigante.
Até a humana perguntar:
— Onde estão os cavaleiros?
Kira começou a ir mais depressa.
À cada passo que dava, ficava mais perplexo ao percorrer a distância que fora arremessado. Pior que isso, passava por um ou outro tronco caído e tocos, o que deixava claro o nível de força elevadíssimo aplicado por Pedralha.
Contudo, bastava seguir em frente que chegaria ao local da batalha.
Brisa acompanhava-o voando na altura do ombro, em total silêncio. Assim que se aproximaram dos centauros, sem que o rapaz ou qualquer outro percebesse, a mindinho se desfez em pó dourado e adentrou na braçadeira maior do rapaz.
Notado um pouco antes, alguns olhares animanos já acompanhavam Kira quando ele adentrou o círculo livre de árvores formado ao longo do confronto. Surpresa foi a primeira reação deles ao, de repente, surgir da floresta um outro humano.
O cavaleiro viu as pedras que formavam Pedralha, as costas púrpuras transformadas em cacos, lembrou da perseguição e dos instantes antes de perder a consciência, quase tudo ao mesmo tempo. Não conseguiu manter seus olhos ali por muito tempo; o grito de Ellia atraiu sua atenção.
— Kira! — Chamou a maga.
— Ellia, por que está aqui?! — Ele retrucou, surpreso ao vê-la. Erguer a voz causou um incômodo, e a estranha tontura ameaçou voltar outra vez. Esquecera de que sofria o cansaço, mas algo mais parecia estar acontecendo. Deu um passo para trás.
— Vim atrás de você, oras! Achei que precisaria de ajuda quando...
— Chega! — Brank esbravejou, calando-os, recobrando os sentidos e, enfim, assimilando tudo que acontecera. Encarou Ellia. — Você! Derrota o senhor da floresta e age com essa naturalidade?! Não passa mesmo de uma humana desprezível!
Kira arregalou os olhos imediatamente.
— Fiz, com um único movimento, o que tantos de vocês não conseguiram. Agora, abaixe o tom. — Fosse quem fosse, a moça nunca deixaria alguém erguer a voz acima da dela. Mesmo se esse alguém tivesse três metros de altura e músculos saltados.
— Eu lutei contra ele. Eu o derrotaria! — A frustração era clara em sua expressão. — Eu seria o próximo senhor da floresta!
— Senhor da floresta? Bom, então que seja, essa nunca foi minha intenção.
— "Que seja"?!
Estava esquentando. A pele de Brank ficava avermelhada e, aos poucos, sua voz transformava-se em um rugido. Já Ellia, mantinha o rosto sério, beirando a irritação, o que nada diminuiria a tensão no ambiente. Sem mencionar os trinta centauros ao redor, que não hesitariam às ordens do líder.
Kira precisava sair logo dali, voltando com a moça pálida de preferência, e seguir viagem como Brisa bem dissera.
Aquela situação se prolongava muito além do necessário, e ele vasculhou sua mente atrás de lhe dar um fim.
— Como você se chama, centauro?
Brank, ao ouvir a nova voz, olhou por cima do ombro para o rapaz.
— Brank. — Respondeu, seco. — Algo errado?
— Por quê não se tornar um guardião, ao invés de senhor?
— Guardião? — Franziu a testa e se virou. — Nunca ouvi nada desse tipo.
— Você pode tomar conta da floresta como se fosse o senhor supremo, em nome dela. — Gestuou na direção de Ellia. — Seria até melhor do que uma humana a cuidar de tudo.
— Exatamente. — Continuou a maga. — Como se você fosse o senhor, até por que não farei diferença nenhuma exercendo esse título. Entendeu?
— Claro que entendi.
— E então, aceita? — Kira perguntou.
— Bom... E se Pedralha acordar? Se desejar uma vingança?
Ellia foi quem respondeu:
— Se esteve prestes a derrotá-lo uma vez, conseguirá fazer de novo. Ou não?
— Não me desafie, humana. Você é a responsável por essa bagunça.
— Bagunça?
— Você derrubou o Primeiro Gigante. Por sua causa, consequências até mesmo divinas cairão sobre nós. Florvalia...
— Só quero sair dessa floresta maldita. Pode, por favor, concordar de uma vez?
— Brank — Kira chamou, interrompendo o reinício da discussão. — Podemos deixar assim?
— Guardião, certo? — Repetiu. — Que assim seja, então. Contanto que vocês saiam já daqui e deixem tudo em paz novamente.
— Não vai demorar nem mais um dia. — O cavaleiro assegurou. Não tinha certeza, mas, pelas palavras de Brisa, estava certo. Logo caminhou na direção de Ellia, percebendo que a mindinho não estava mais ao seu redor. Tentou disfarçar o desconforto ao montar a égua branca. Entre esses breves segundos, não viu, mas Brank trocou um último olhar com a maga, que manteve a expressão séria por toda discussão. Sem desafio ou raiva, apenas a encarou.
Ela simplesmente deu meia volta com sua égua e partiu à galope.
Por breves segundos, cavaleiro e maga se mantiveram em silêncio. De repente, veio até Kira a preocupação com suas armas. As duas espadas, seu escudo-bainha; tudo fora perdido após o impacto. Por um segundo, considerou as carroças com suprimentos, mas elas tinham partido.
— Fiquei preocupada. — Ouviu, de repente, Ellia, retirando-o de seus pensamentos.
— O que você fez foi perigoso. Se lembra o que disse o Duque sobre suas ações por impulso?
— Já tenho até decorado. Mas não vi nenhum modo de como vocês derrotariam Pedralha, então achei que poderia ajudar. E com você no comando... Enfim, quis ser útil.
— E, com certeza, veio sem a permissão de Endrik.
— Isso mesmo. Os centauros passaram por nós algum tempo depois de vocês partirem, então aproveitei a correria para me afastar e vir.
— E o que aconteceu depois?
— Quando cheguei, Brank estava lutando com Pedralha. Eu apenas disparei em suas costas, naqueles cristais roxos. Consegui destruí-los e ele caiu. Pouco depois você apareceu. Mas o que aconteceu com você e os cavaleiros?
— Bom... — Explicar tudo talvez trouxesse muitas dúvidas, cujas respostas ele não teria tempo para explicar ou simplesmente não sabia quais eram. — Atraímos ele para o mais longe que pudemos, mas ele acabou nos alcançando. Pedi que todos se afastassem e o guiei sozinho de volta, na direção dos centauros, que já estavam em nosso encalço.
— Mas e seu cavalo? — Então se deu conta. — Kira, onde está seu cavalo? Aconteceu algo com ele?
— Eu acabei caindo de Feroz. — Meio mentira, meio verdade. — Ele saiu à galope, devia estar assustado. Mas é esperto, saberá onde me achar.
— Tem certeza? Lembre daquele cavaleiro que perdeu o cavalo para aquela sisnora, que está a pé até agora.
— Confio no meu cavalo. — Encerrou.
— Confia assim nas suas armas também? Elas não vão voltar.
— Sim, isso é mesmo um problema.
— Você quer, não sei, ir procurar?
— Não, estamos quase saindo da floresta, arranjarei algo em Ponta do Anzol.
— Ainda estamos longe de Ponta do Anzol. Pelo menos eu acho que estamos.
— Sinto que não. — Disse, por fim, com um sorriso discreto no canto da boca.
Brisa. A mindinho sumira desde a discussão com Brank, a única chance de uma possível solução ao que acontecera com o cavaleiro. Contudo, teria que deixar o acontecido de lado por algum tempo, visto que precisava voltar para o grupo de guerreiros e seguir viagem o mais rápido possível, dada a promessa que fizera à Brank.
O reencontro não demorou mais que três minutos.
Os cavaleiros estavam presentes, guiando o grupo com Endrik na dianteira. O clérigo logo começou à berrar reclamações ao ver a irmã fujona. Kira sentiu um alívio esquentar o peito ao reconhecer um cavalo solitário ali por perto.
Explicar todo o ocorrido, sim, custou algum tempo, e a perda do rapaz e seu cavalo mortos por Pedralha pairou no ar por alguns minutos. A companhia continuou a viagem, passando pelo corpo caído de Pedralha em certo momento. À noite, pouco antes de dormir, Brisa deixou a braçadeira, assuntando Kira no mesmo instante; estava sozinho, então ninguém percebeu. A mindinho, porém, não revelou nada sobre o que poderia ter de fato acontecido com o rapaz.
O que duraria somente mais um dia de viagem prolongou-se por mais três, mas Brank ou mesmo nenhum outro Animano cobrou a quebra do combinado. Na manhã do décimo primeiro dia, o grupo oriundo de Carvalho Velho surgiu além da Floresta do Gigante, aos pés de Ponta do Anzol, a Cidade dos Dois Governos.
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O Bastardo da Rainha
FantasyKirart foi criado e educado pelo anão Bago Blacsmal, dono da Espeto Vermelho, a famosa forja do ducado de Carvalho Velho. Conviver com armas e ouvir histórias de guerreiros viajantes a vida inteira deixou Kira fascinado pelas campanhas militares à...
