Kira retornou, cansado, para perto de Bago. No meio deles jaziam os corpos dos ladrões, e as pedras do calçamento estavam banhadas com sangue.
— Pela Deusa, o que aconteceu aqui? — Perguntou um ferreiro ajudante.
— Esses malditos ladrões tentaram invadir a forja, destruíram a droga da minha porta! — Berrou o anão para quem pudesse ouvir. — Por sorte, Kira e eu já esperávamos por eles!
— Esperavam?
— Um Frelen nervosinho veio aqui mais cedo, suspeitamos dele e ficamos de olho. Deu no que você está vendo aqui!
— Parem em nome do Duque! — Terceiros exclamaram mais atrás. Da multidão surgiram os quatro guardas, um dupla com lanças e os outros dois armados com espada e escudo.
— Ainda bem que chegaram, pena que já fizemos o trabalho de vocês! — Bago debochou.
— Com calma, senhor, pode dizer o que houve exatamente?
— Um assalto, foi o que quase aconteceu!
— Deveriam ter nos esperado à agir por...
— Meu filho e eu estaríamos mortos! O que estavam fazendo, procurando alguma vagabundo no bordel?
— Melhor se acalmar ou levaremos o senhor para o calabouço!
— Eu não sou o criminoso aqui, senhores! Eles eram!
— Kira! — Gritou Liza. Aos prantos, a moça saiu pelo espaça da porta. Freou e gritou ao ver os mortos.
— Filha, volte para dentro já, não há o que ver aqui!
Ela não lhe deu ouvidos, vasculhou os arredores com os olhos e foi apressada até o irmão ao encontrá-lo.
— Você está bem?!
— Sim, não se preocupe.
O abraçou com força.
— Deusa, e todo esse sangue? — Murmurou.
— Tudo bem. — O rapaz estava cansado e o abraço o reconfortou totalmente. — Não é todo meu.
— Eu fiquei com tanto medo... — Sentia a moça tremer em seus braços. Sua voz estava embargada. Apertou-a. — Eu achei mesmo que eles não viriam, mas quando ouvi a porta ser destruída, os gritos, os disparos...
— Bago e eu estamos bem, deve se importar apenas com isso.
— Eu... poderia ter perdido vocês.
— Mas não aconteceu. Não precisa pensar nisso. — E murmurou: — Eu te amo, ouviu?
— Eu também te amo...
Ela o apertou mais, como se quisesse certificar-se de que ele realmente estava ali, e afastou-se lentamente em seguida. Acabou sujando-se um pouco.
— E o senhor, nunca mais faça isso comigo! — Gritou, encarando o pai. Ele pareceu surpreso, mas compreendeu. Liza foi até ele e os dois abraçaram-se demoradamente.
Pouco depois, os guardas conversaram com Bago sobre o ocorrido pedindo informações mais precisas, o que deixou a jovem informada de tudo que acontecera. Em seguida, os homens investigaram os corpos e encontraram adagas longas, reconhecidas pelos ferreiros como as armas roubadas dos caçadores. Bago ficou com elas já que tinham feito outras novas para serem entregues. Ele e Kira não foram levados como prisioneiros; oz que os guardas consideraram suas ações apenas autopreservação e o anão tinha certo crédito com o Duque.
Para retirar os cadáveres de lá, pediram ajuda de moradores. Carregaram os corpos dizendo apenas que dariam um fim neles. A multidão foi se dispersando comentando o ocorrido.
Liza e Kira voltaram para a forja, Bago entrou depois de despedir-se dos dois ferreiros. A moça ficou junto ao pai.
— Melhor cuidar dessas costas, Kira. — Advertiu ele. — Está horrível.
— Não é grave, só arde um pouco.
— Mesmo assim, não dá para saber o que tinha nas garras daquele Frelen.
— Tudo bem, verei isso. — Falou mais para acabar com o assunto.
— Ajude-o com os unguentos. — Disse para a filha. — Use aqueles que ardem mais, são os mais eficazes.
Ela sorriu.
— Pode deixar comigo. E o senhor?
— Terei de ficar, esqueceu que agora estamos sem porta? — Parou e virou-se para o portal retangular, vendo os pedaços de madeira e a rua ensanguentada. — Não faço ideia de como conseguiram esfarelar uma porta com mais de dois dedos de espessura, devia estar mesmo podre... De qualquer forma, vou ficar de vigia. Amanhã falarei com um serralheiro.
— Por favor, tome cuidado. — Kira pediu, já nos degraus. — Não vou estar aqui para te proteger de novo.
— Terror dos Ladrões e eu daremos conta, não vamos precisar de você.
— Quem? — Parou de andar e o encarou, de testa franzida. Liza fez o mesmo, já atrás dele.
Bago deu tapinhas no bacamarte com um sorriso orgulhoso.
— Meu velho parceiro.
— Original como sempre... — Debochou Liza. Kira apenas sorriu e a cara de Bago fechou-se completamente. Realmente achou que fosse um bom nome.
Os jovens chegaram ao primeiro andar da forja e a primeira coisa que Kira fez foi puxar a meia-irmã e roubar-lhe um beijo quente. Ela se assustou, mas entregou-se. O irmão deixou-a na parede.
— Suas... costas prim... eiro. — Tentava dizer.
— Não me importo com elas. — Retrucou. Avançou pela segunda vez mas a garota o parou com o dedo indicador sobre os lábios.
— Vamos cuidar desses arranhões antes, e aí terá o que quiser.
— O que quiser? — Ergueu uma sobrancelha. Mordendo o lábio inferior, Liza fez que sim com a cabeça. Ele arrancou sua camisa rasgada. — Onde estão os malditos curativos?! — Perguntou, fingindo pressa.
A garota apenas riu e o puxou pela mão.
O casal aproveitou-se da vigília de Bago.
Não havia nada de especial nos arranhões nas costas do meio-irmão, porém Liza o banhou mesmo assim, mais para deixá-lo sem roupas. Sem timidez perto dela, ele não se importou. Beijaram-se e tocaram-se, mas nada como na noite anterior, muito mais intensa e quente.
Ela ficou algum tempo no quarto do rapaz jogando conversa fora ou falando de seus estudos sobre encantamentos e alquimia. Eram as áreas de sua finada mãe, uma Maga Laranja humana formada nas academias mágicas do enorme feudo Montania, que conquistara um certo anão rude com o jeito sereno e ao mesmo tempo irredutível.
A jovem poderia segui-las apenas como uma forma de homenagem, mas, além disso, realmente gostava dos assuntos que lia. Kira sempre prestava atenção no que ela lhe dizia, achava até interessante, mas nunca pegou algum de seus vários livros. Sempre preferiu a ação e as armas do que as teorias e a complicada magia do corpo, estudou apenas os assuntos comuns que Bago, com dedicação e esforço, o ensinou.
Mais algum tempo e a garota despediu-se, já que ele precisava acordar cedo para os treinos que viriam. Beijaram-se calorosamente, tanto que deixou cômodo hesitante e com o rosto corado. Kira suspirou e deitou-se.
Dormiu com um sorriso discreto nos lábios. E dormiu muito.
Ao abrir os olhos e ver onde o sol já estava, saltou da cama e fez tudo o mais rápido que conseguiu. Sua pressa assustou até Feroz, que foi desamarrado às pressas e obrigado a pular do trote para o galope de repente.
Chegou ao castelo quando seu portão era fechado por alguns guardas. Conseguiu atravessá-lo no último instante, deparando-se com Bak falando aos outros quarenta e um rapazes. Os olhares caíram sobre o jovem e, mais à frente, o centauro o encarou.
— Atrasado, rapaz?
— Perdoe-me, senhor, não se repetirá. — Garantiu, saltando de Feroz com ele ainda reduzindo a velocidade das passadas. O animal bufava de cansaço. — Tive uma noite longa.
— Você é o filho de Bago?
— Bem... sim, senhor.
— Então tenho certeza que teve.
— Como?
— Alguns guardas me informaram dos seus feitos esta madrugada. Não acreditei até ver os corpos. — Alguns, surpresos, viraram-se para Kira.
A notícia sobre a tentativa de assalto ainda não se espalhara, tanto que aqueles que moravam do centro da cidadela até o lado oeste não faziam ideia do que acontecera à Espeto Vermelho.
— Obrigado... eu acho.
— Foi um ato bravo, sem dúvidas. O Duque gostaria de trocar algumas palavras com você.
— O-O Duque?!
— Venham, rapazes. — Bak olhou para o grande grupo a sua frente. — Hoje começarão seus treinos, e todo o pouco tempo que temos será precioso!
Deu-lhes as costas e foi seguido. Kira demorou um pouco para andar, ficando subitamente nervoso por ter de falar com o tão honrado Enrique Brags.
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O Bastardo da Rainha
FantasyKirart foi criado e educado pelo anão Bago Blacsmal, dono da Espeto Vermelho, a famosa forja do ducado de Carvalho Velho. Conviver com armas e ouvir histórias de guerreiros viajantes a vida inteira deixou Kira fascinado pelas campanhas militares à...
