22. Arqueiro Cinzento

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Erik foi acordado por gritos de duas pessoas na estrada, o som de cascos de cavalo e explosões mágicas. Reconhecendo a voz masculina, não perdeu tempo.
Aliás, nunca esqueceria o tom da voz daquele que matou seu bando, muito menos seu rosto.
Seguiu apressadamente até uma árvore mais próxima da estrada, subiu até seu topo e esperou horas pacientemente. Quando viu a mesma dupla retornando,  efetuou um salto certeiro no momento exato. Mal lembrou-se da maga e de suas habilidades poderosas, importava-se apenas com o guerreiro e sua vingança.
Segundos depois, estava quase sobre Kira, de garras à mostra e dentes prontos para esmigalhar seu rosto.
O rapaz ergueu sua espada numa estocada, de modo que a ponta penetrasse o estômago do Frelen. Este, porém, naturalmente mais ágil, moveu a lateral do corpo para trás no último segundo e a lâmina apenas raspou a roupa de couro. Caiu sobre o rapaz, de guarda aberta, combate à dentro no escuro noturno.
O cavaleiro deixou sua arma escapar com o choque do encontro. Teve de agarrar o pescoço do felino, grande e pesado, usando toda a sua força para estrangulá-lo e manter as presas longe da face. Erik tentou fazer o mesmo, mas, ao engasgar primeiro e sentir o fôlego esvair, afundou as garras no pulso do rapaz, persistindo para afastar suas mãos, perfurando as braçadeiras de metal.
Por pouco, não atingira a carne.
Os dedos do humano quase escapavam quando um impacto os acertou, iluminando tudo por um segundo. O barulho fez os tímpanos de ambos doerem por alguns segundos, e o Frelen, de audição mais sensível, afastou-se e levantou, desnorteado.
Kira olhou para Ellia de relance, atrás dele. Ela, exaurida pelo último disparo, desmaiou em seguida.
O rapaz virou-se para o animano, erguendo-se já puxando da bainha nas costas a espada longa, segurando o punho com as duas mãos.
— Vamos, bichano. — A raiva subira sua cabeça, a adrenalina do combate espalhava-se pelo corpo todo. — Vamos!
Erik, mesmo parcialmente surdo, sacou sua adaga, segurando-a estranhamente pela ponta da lâmina.
— Se não fosse sua amiga, você estaria morto. — Disse, tonto, mas ainda furioso. — Sorte sua. Azar o dela.
E arremessou a adaga na direção da maga.


O coração de Kira congelou e o mundo pareceu desacelerar. Seu único instinto foi mover a espada na diagonal, de baixo para cima, da esquerda para a direita. Canhoto, efetuou o corte na rapidez de um raio, acertando a adaga atirada sem sequer saber como. O objeto voou longe, perdendo-se na floresta.
Erik surpreendeu-se. Era sua única arma.
— Desgraçado! — Kira exclamou, surpreso e furioso. Correu à passos contra o Frelen, saltou e preparou a espada acima da cabeça. O animano esquivou facilmente, parando nas costas do rapaz, e a arma cortou o vazio.
Ao tocar o chão, o guerreiro virou-se repentinamente, acertando o queixo do Frelen com no cabo da espada. Ele cambaleou para trás e o rapaz investiu com outra estocada. O animano conseguiu esquivar com certa dificuldade, tendo uma brecha para reagir. Viu-se perto da espada menor, agachou, pegou-a e brandiu-a. Segurando o cabo também com as duas mãos, girou nos calcanhares e acertou Kira no peito, abrindo um talho na armadura. Com o golpe, recuou dois passos.
Seu escudo lhe fez imensa falta.
Agitando a arma sem ter habilidade alguma com ela, Erik realizou o movimento contrário com certa dificuldade, sendo desarmado por seu inimigo rapidamente com um pesado ataque contrário.
Logo em seguida, o jovem atacou aplicando mais força e raiva, para, por fim, atingir o Frelen inicialmente onde ficaria seu umbigo, abrindo um corte profundo, rasgando couro e carne até o ombro. Atônito, o Frelen caiu sentado. Apalpou o ferimento extenso, sentindo seu sangue quente escorrer, talvez meio litro.
O cavaleiro preparou-se para o último movimento, o olhando de cima.
— Mate. — Erik conseguiu murmurar. E amaldiçoou: — Me mate e morrerá de um jeito muito pior.
— Desejo isso desde o dia que invadiu minha casa e fugiu, ladrão. — Retrucou o rapaz. — Que Marraria lhe dê a sentença que merece.
Com um único golpe, afundou a grande espada em seu peito, espetando o coração, trespassando seu corpo. Dois segundos depois retirou a arma, de lâmina rubra.
Erik caiu para frente, imóvel. Kira afastou-se e respirou fundo. Só então percebeu o quanto estava cansado e nervoso, porém algo era mais importante.
Embainhou a espada e correu até Ellia. Tocou seu rosto, verificou sua respiração. Estava desmaiada e esgotada, porém nada mais grave.
— Foi um belo duelo. — Elogiou uma voz atrás dele.
O rapaz virou-se de repente. Não podia ser o Frelen que acertara o coração. Simplesmente não podia.
Olhou para onde estava o corpo.
E não era mesmo.
Avistou em seguida a silhueta de um homem montado em um cavalo marrom. Aparentava ser alto e magro, mas vestia um longo manto cinzento com capuz que escondia roupas, outras características físicas e parte do rosto, mas Kira conseguiu discernir traços tão belos que admirou-se, mesmo na luz quase inexistente.
O forasteiro trazia um arco recurvo atravessado no corpo.
— Quem é você? — Perguntou o rapaz. A adaga presa na braçadeira maior quase gritava para ser sacada.
— Me chamo Isteilon. — Retirou o capuz, revelando olhos azul-claros, cujas íris brilhavam estranhamente, e cabelos pretos e longos, presos, mas com mechas soltas nas laterais do rosto.
O que realmente chamou a atenção de Kira foram suas orelhas pontudas e alongadas, além a pele cinza como grafite quase mesclada às sombras. — Sou um arqueiro de Carvalho Velho. Talvez o melhor, diga-se de passagem.
— Um elfo... — Sussurrou o cavaleiro. Mal se lembrava da última vez que vira um; Eram raríssimos em seu ducado, pouco mais distante da fronteira Sul que as demais cidadelas, portanto, afastado da sulista Herbas, os territórios élficos.
— Vocês visitaram o castelo atrás de arqueiros. E aqui estou eu. — Sua voz era amigavelmente formal.
— Enrique nos disse que vocês se recusaram à vir, que não era a função de vocês. — Kira retrucou, desconfiado. Tocou a braçadeira maior.
— Ele deve ter esquecido de me mencionar. Quando nos fez tal pedido algum tempo atrás, fui o único entre todos que se propôs à vir. Sempre sonhei com uma viagem desse nível, conhecer o Norte, o mundo além de Herbas e os ducados.
— Então fugiu.
— Isso. — O elfo sorriu, simpático até demais.
— Bom... Então seja bem-vindo, eu acho. Agora pode me ajuda com ela?
— Senhorita Ellia. — Desceu rapidamente do cavalo e se aproximou. — Está magicamente esgotada. O que houve?
— Tivemos uma pequena discussão no caminho de ida.
— Discussão?
— Já resolvemos.
— Ah. Pensei que o motivo fosse esse Frelen. — Pensou um pouco e franziu a testa sutilmente. — Por que o matou?
— Ele fazia parte de um bando de ladrões que assaltaram Espeto Vermelho faz algum tempo, era o líder. Acabei com a uns, Bago com o restante, e pelo visto, estava me seguindo esse tempo todo.
— Este ladrão...! Você é Kira? — Surpreendeu-se. — Kirart Blacsmal?!
— Sou...
— É um prazer falar com você. Virou assunto no castelo por um bom tempo.
— Muito obrigado, mas agora — Agradeceu rapidamente. Estava preocupado demais para corar. — Temos que levá-la de volta ao acampamento antes que apareça outro animano.
— Tem razão. Fica muito longe?
— Mais ou menos. Ajude-me.
E juntos ergueram a moça, que apenas emitiu um gemido cansado, sinal de que estava despertando. Kira montou em Feroz colocando-a à sua frente com certa dificuldade e o tal Isteilon foi até seu cavalo marrom. A égua alva, esperta, os seguiu.
Um pouco mais lentos do que na viagem de ida, demoraram horas à mais, e então Kira percebeu a distância que percorreram e quanto correram rápido, afinal foram dois dias de viagem.
Enfim o trio chegou no acampamento, ainda antes do nascer do sol, e o cavaleiro não conseguiu não franzir o nariz ao ver toda a movimentação no lugar.

O Bastardo da RainhaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora