Aaaaatchim
Já é a quinta vez que espirro desde que me acordei, há quinze minutos atrás. Eu estava tendo um belo sonho, no qual estranhamente eu estava beijando uma boneca de plástico, que logo se transformou em Mayra, e não foi tão ruim. É comum para mim ter sonhos estranhos, então para Stella é pior ainda, porque ela é uma banshee. A vida é boa para um vampiro. E já está na hora de caçar um pouquinho para me alimentar. O gato peludo deitado sobre meus pés não me parece uma boa opção.
Até ás seis horas da manhã, a senhora Strange apareceu no meu quarto várias vezes para checar minha febre, a pedido meu, é claro. Sempre pensei que vampiros não adoeciam, mas hoje vi que estava errado. Não é possível que algum vírus tenha me infectado. As únicas coisas que podem fazer um vampiro adoecer são uma boa planta contra vampiros e um bom feitiço de uma bruxa experiente. Isso foi o que eu ouvi nos filmes, mas não sei se é realmente verdade. Preciso perguntar para os gêmeos idiotas.
Depois das seis horas da manhã, a minha fome aumentou, e nada poderia pará-la. Então, saí da cama, e agora estou no meio de uma floresta, com Erik Noak e sua turminha: uma garota de 14 anos com feições orientais chamada Gwen Peters, uma menina punk e raivosa chamada Petra Elliott que tem um sotaque levemente alemão, e um cara alto demais e esnobe demais, chamado Garrett Pyke. Não são a melhor companhia, confesso, mas eles são o que eu posso chamar de amigos nessas horas.
– Erik, quando você apareceu no meu hotel dizendo "venha, eu sei um lugar para caçar", eu pensei que fosse um lugar que realmente tinha algo para caçar – falo, espiando o grupo de vampiros, que está escondido atrás de várias rochas.
– Por que você não se abaixa e fica quieto? – Petra me puxa para baixo, irritada e com os cabelos escuros no rosto. Ignoro-a.
– Do que vocês estão se escondendo? – pergunto. Gwen faz sinal de silêncio com as mãos e olha para Garrett, que me observa, parecendo me julgar apenas com os olhos.
– Estamos em uma floresta... Não há nada aqui perto. Nem polícia, nem hospital. Mas, se aparecessem pessoas, acampando, ninguém ouviria seus gritos de dor – diz Garrett, como se fosse óbvio.
Mas não há nada aqui. Estou procurando, e vejo apenas árvores. Pessoas na floresta? Só se são espiões, treinados para não fazer barulho algum.
– É isso que fazemos, cara – sussurra Erik. – É o único jeito de sobreviver.
Concordo com a cabeça, e de repente consigo ouvir alguns murmúrios por entre as árvores. Gwen cobre suas mãos com um par de luvas cor-de-rosa para esconder sua marca e atravessa a floresta. Eu e os outros vampiros observamos, ainda escondidos. Mesmo não sentindo frio algum, por ser um vampiro, reconheço que hoje é um dos dias mais frios de Stormswood desde que cheguei para cuidar do Hotel.
– Socorro! Socorro! – grita Gwen, e lágrimas falsas escorrem por suas bochechas. Um homem, não muito velho, aparece.
– Olá, eu sou Rafael. – Ele se abaixa, para ficar na altura de Gwen, que continua sem perder a pose de menina perdida. Até eu acreditaria, se estivesse no lugar do homem. – Você está com medo, frio, perdida...?
– Perdida. – Gwen assente freneticamente com a cabeça, e o homem suspira.
– É fácil de se perder por aqui.
– Sim, sim. Eu... Eu vim daquele lado. – A garota aponta para nossa diagonal. Por sorte, o homem não consegue enxergar nenhum de nós. – Você me ajuda a encontrar meus amigos?
– Ajudo. – Ele se levanta. – Vamos.
Garrett faz um sinal com a cabeça para Erik. E, em um segundo, usando a super velocidade que todos os vampiros possuem, Erik sai de seu esconderijo atrás das rochas e arranca a cabeça do pobre homem. O cheiro do sangue invade minhas narinas e não consigo resistir, assim como Petra, Garrett e Gwen, e quando finalmente abro os olhos depois de saborear o sangue fresco que acabei de provar, já são 7:00 horas. Pois é, chegou a hora de enfrentar mais um dia de escola.
***
Quando chego na escola, vejo que por qualquer lugar que passo existe cerca de dez cartazes de desaparecimento. Com o rosto da Melanie. Não posso me culpar pelo o que aconteceu, porque foram os gêmeos que a mataram. Mas, pensando por outro lado, eu a desejei morta, e me alimentei dela. Talvez eu tenha sido culpado por sua morte.
A escola é o pior lugar do mundo, principalmente agora.
Vou até o meu armário e tento abrir, mas não lembro da senha. Vou ter que abri-lo a força, mas isso não é normal para um humano. Um humano normal iria até a secretaria e informaria que esqueceu sua senha. Não vou fazer isso. Vou abrir á força mesmo.
– Aaaaaaaaai! – grita uma garota loira e baixinha, ao meu lado, quando consigo abrir meu armário. Ela me encara furiosa e sai correndo para a enfermaria, sem me dar a chance de me desculpar. Ótimo, Aiden. Você vai fica batendo nas pessoas com a porta do seu armário agora? Você quer ser um valentão idiota, quer?
Guardo minhas coisas e minha primeira aula é história. Sento em uma das cadeiras mais ao fundo, e meus olhos percorrem toda a sala. Todos os estereótipos de alunos estão aqui.
Algumas garotas sorriem para mim, e sorrio para elas. Não pretendo fazer alguma namorada ou algo do tipo, mas diversão com garotas bonitas é comigo mesmo.
Meus olhos param em uma menina, que parece não me notar. Mayra. Ela está conversando com a garota baixinha que eu machuquei sem querer. Mayra é muito bonita, e tem uma atitude impressionável, mesmo sendo quase uma zumbi as vezes. Eu não tenho amigos aqui, nem mesmo um falso, depois da morte de Melanie. Mayra pode ser uma grande candidata a ser minha amiguinha, ou até mais que isso.
O primeiro período de aulas acaba e vejo Mayra saindo de uma das salas.
– Mayra, oi... – falo com um sorriso torto.
– Aiden? Você por aqui? – diz Mayra, surpresa, mas com um sorrisinho no rosto.
– Me encontre na frente da escola depois da última aula, hoje. – Pisco para ela.
– Tudo bem, te vejo lá. – Mayra abana para mim e sai em busca de sua amiga.
Eu nem acredito no que estou prestes a fazer.
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The Walls Of The City - As paredes da Cidade
Novela JuvenilAs paredes da cidade ampliam o medo espalhado pelas ruas de Stormswood, um pequeno município da Pensilvânia com características únicas. Quando Mayra, uma caçadora de nascença, redescobre seus ideais, uma nova visão de um mundo diferente se abre para...