Pamella:
Odeio ir ao mercado.
Nos livros e nos filmes, quando os jovens saem de casa para a faculdade, nenhum deles nunca precisa ir ao mercado, ninguém nunca compra uma vela, mas elas magicamente aparecem quando falta luz, nenhuma garota nunca fica menstruada, os pais praticamente nem dão sinal de vida (quando dão) e estão sempre apoiando a independência dos filhos.
A vida real costuma ser um pouco diferente: você precisa ir ao mercado, fazer faxina e colocar as roupas e louças para lavar; as velas não surgem magicamente, as garotas ficam menstruadas e a cólica dói mais que o inferno; os pais nem sempre apoiam você ter saído de casa e às vezes reclamam sobre como você deveria fazer visitas mais frequentes, como você não dá atenção a eles e coisas do gênero todas as vezes em que ligam – o que, no meu caso, acaba sendo quase todos os dias. Uma merda, já que odeio atender telefone. Mesmo que falar com os meus pais não seja uma merda. Pelo menos não o tempo todo.
Por mais que eu tente burlar o acordo que a Samantha e eu fizemos, ela é esperta demais para perceber que é minha vez de ir ao mercado, por mais que eu insista em dizer que é a dela – a cretina fez uma tabela para me desmascarar e não aceita suborno para ir no meu lugar, embora ela sofra menos, porque leva, em média, dois terços do tempo que eu levo.
Quase dá vontade de comprar iogurte dietético com gosto de remédio ao invés do que ela gosta. Quase.
***
- Samaaaaantha! – eu falo, abrindo a porta – Vem me ajudar! Eu já fiz a...
Paro de falar ao olhar para o sofá e ver Scott e a Samantha sentados nele, bem descontraídos.
- Ahm... Eu tô interrompendo alguma coisa? – pergunto, sem graça e tentando me bloquear sobre isso – Se vocês quiserem, eu... sei lá, dou uma volta.
Eles riem.
- Não. – ela diz, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, o que, vou admitir, me faz sentir um pouco idiota.
O Scott nos ajuda com as compras e depois vai embora.
Não, eu não vou perguntar sobre o que eles conversavam. E pelo visto a Samantha não vai falar, porque ela já está sentada no sofá e mudou o assunto de aquela pergunta implícita que deve ser respondida porque a ruiva aqui é muito curiosa para a questão polêmica de onde o controle remoto foi parar.
- Cuidado pro Leo não ficar com ciúmes. – falo, quando me sento ao seu lado no sofá. Ela me olha com a maior interrogação estampada no rosto. Até eu reconheço que foi idiota retornar ao assunto. Ou pelo menos retornar assim.
- Ai, cara, claro que não! O Leonard é tipo meu irmão. – talvez alguém que não a conhecesse não notasse a defensiva. Talvez alguém que não estivesse com essa pontadinha de ciúmes e essa necessidade que eu estou de achar mais alguém na minha situação também não – Por que ele ficaria com ciúmes?
- Ahhh, qual é? Dois melhores amigos de infância, separados pelo Destino e que se reencontram na faculdade. – falo, adicionando um certo drama, para dar um efeito – É praticamente sinopse de livro de romance.
A Samantha ri, mas parece de nervoso ou vergonha. Ou talvez eu esteja viajando, mesmo.
- Você tá lendo muita história na internet.
- Eu apenas observo.
- Ah, claro. Aliás, e você? Ficou com ciúmes?
- Pffff, claro. Morrendo. – Samantha faz uma cara de HMMMMM – Só pra deixar explícito o que já estava mais claro que água filtrada: foi ironia.
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Palavras e "Riscos"
RomanceDe diferentes cantos da Inglaterra, vêm duas garotas. Pamella é sempre feliz. Alexia é sempre o que se espera que uma adolescente seja. Ambas camuflando todo o resto de todo mundo, cada uma com sua forma de lidar com seus sentimentos. As duas...
