Capítulo 33

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                                               Pamella:

Eu sabia que era ridículo.

Você não é mais criança, digo a mim mesma. Mas assim que cada um vai para seu quarto, tudo ecoa na minha cabeça:

Você me irrita!, meu irmão berra em um looping infinito dentro de mim, com a mesma raiva com que verbalizou a frase pessoalmente, há poucas horas.

Você é muito desorganizada!, a voz da minha mãe o acompanha, É muito difícil de conviver com gente assim; relaxada! Gente que não se cuida, não tem cuidado com aparência, sai com sandália de dedo, deixa as coisas fora do lugar! Você tem que aprender a conviver; as coisas não podem ser só do seu jeito, não! Não sei que tipo de psicóloga você quer ser, tendo tão pouca empatia pelos outros.

Os pacientes dela vão sair do consultório piores do que entraram, do jeito que ela é grossa e egoísta. Não sei como a Sam ainda aguenta; se fosse eu, já tinha procurado outro lugar pra morar., ele adiciona.

Ouvi tudo quieta, porque gastei toda a minha força para rebater nos anos que vivi até agora. Cheguei a pensar que finalmente chegou a hora em que eu começo a aguentar a barra.

Mas, assim que estou sozinha, me enrosco no cobertor e começo a chorar. Porque eu sou um lixo de ser humano – e não tenho mais energia para tentar me convencer do contrário.

***

- Como foi o fim de semana em casa? – uma Samantha de pijamas pergunta, depois de me abraçar e sentar no sofá.

A resposta curta é que eu passei toda a viagem de volta listando razões para acreditar que ainda valho o lugar que ocupo no mundo e o ar que respiro.

- Normal. – respondo – Eu tô bem cansada, e minha aula amanhã começa cedo. Vou tomar uma ducha e dormir; amanhã a gente conversa.

Durante o banho, uma palavra ecoa na minha cabeça:

Egoísta.

Assim que visto meus pijamas, volto para a sala, onde minha melhor amiga continua sentada, mexendo no celular e com a TV ligada.

- Sam?

Não a chamo pelo nome, porque sei que não gosta e estou tentando não pensar só nos meus gostos.

- Hum? – diz, virando a cabeça para mim.

- Desculpa o mau humor. Como foi seu fim de semana?

Ela me oferece um sorriso bondoso.

- Você não tá de mau humor; tá cansada. Meu fim de semana foi produtivo. Agora vai dormir; a gente conversa amanhã.

A Samantha sempre sabe o que, como e quando dizer.

E eu tenho pavor de ser insuportável para ela.

***

Alice e eu matamos nossa segunda aula.

Sentamos no gramado e ela puxa um cigarro e um isqueiro do bolso da jaqueta jeans que usa.

- Quer? – oferece, assim que acende – Esse tem gosto de canela.

- Você já sabe minha resposta.

São raríssimos os fumantes na minha família – e a gente raramente convive –, então, no outono passado, quando nós duas começamos a andar juntas, a fumaça de cigarro ainda me incomodava bastante. Agora acho que já me habituei – desde que ela não venha direto para cima de mim.

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⏰ Última atualização: Oct 01, 2016 ⏰

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