Capítulo 15

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Pamella:

Penso em pegar o celular e mandar uma mensagem para a Sam.

Não. Ela já tem coisas mais importantes com as quais se preocupar no momento., penso, ao lembrar de toda a situação com Leo e da sua mensagem dizendo que tentaria descansar um pouco.

Talvez o Scott...

Abro a janela de conversa e simplesmente a encaro.

Não. Não vou encher a paciência dele com drama. Isso seria muito ridículo e fútil da minha parte. Na verdade, falar com qualquer pessoa seria ridículo e fútil, porque eu só sei reclamar.

Então eu faço o que sempre fiz quando não tive vontade de escrever e encarar as palavras me desafiando a criticar alguma coisa, dizendo que coisas ruins acontecem a pessoas de quem a gente reclama: engulo e guardo para mim mesma.

Pode-se dizer que, por muitas vezes, eu sou 1- uma pessoa que não quer confusão ou 2- uma otária. É só uma questão de ponto de vista.

Eu cresci ouvindo que não deveria reclamar da minha vida, porque isso seria um absurdo e o Universo me castigaria; cresci ouvindo da minha mãe coisas do tipo "No dia em que eu morrer, eu não quero que você derrame uma lágrima" e "Só vai dar valor quando me vir dentro de um caixão", "Reclame à vontade; só depois não se arrependa quando eu morrer", bem como o fato de ela ser uma mãe excelente da qual eu não deveria ter reclamações e a quem eu "deveria aprender a valorizar antes de perder, porque ninguém sabe o dia de amanhã" toda a vez em que ousei fazer uma crítica – mesmo que eu ouvisse críticas a respeito de cada característica que me forma o tempo todo, e, se eu ousasse usar o argumento da morte, eu era maluca, doida, ou alguém que não sabia com quem estava falando, porque "mãe tem obrigação de educar" e "é uma situação muito diferente. Muito diferente. Êh, êh. Muito diferente. Mas muito diferente mesmo. Sem comparação", porque, aparentemente, a morte só afeta os pais, na sua visão.

Desde pequena, tenho na minha cabeça que, se eu reclamar demais sobre meus pais, eles vão morrer ou, no mínimo, ficar muito mal, e esse é o tipo de culpa com a qual eu não conseguiria viver. E, sim, eu também fui acostumada a acreditar que o estado de depressão ou alguma doença do tipo de algum parente está totalmente ligado com o percentual de atenção que eu e meu irmão dedicamos ao tal parente.

Mesmo que parte de mim tente se libertar disso e me alerte de que, só porque não sou uma criança esquelética que morre de fome e vive na miséria, não significa que eu não tenha dias ruins ou fique insatisfeita com certas coisas, não consigo evitar engolir tudo, por mais amargo que seja, com medo de alguma força maior me castigar.

Sim, eu sou grata por não morrer de fome ou viver na miséria, mas isso não quer dizer que eu tenho que gostar de quando minha própria mãe critica absolutamente tudo em mim, desde o fato de eu usar gírias – porque, assim, usar gírias aos dezoito anos é quase como um atentado terrorista à sociedade perfeita – até os esportes que eu gosto – porque "é um absurdo Deus ter me feito perfeita e eu me arriscar sem necessidade", como se a esgrima, por exemplo, fosse me matar –, passando pela carreira que eu escolhi para o meu futuro, as caras que faço em fotos, o fato de eu preferir guardar fotografias em caixas e escrever notas atrás delas do que colocá-las em álbuns, minha preferência por revelar apenas algumas fotos que gostei de alguma viagem ao invés de um monte de cada lugar por onde passei, minha aversão a ser a pessoa mais bem arrumada de algum evento, minha vontade de ser diferente, meu gosto por me sujar de tinta e lama, minha vontade de acampar e viajar sozinha, meu sonho de fazer mochilão, os livros que eu leio, os filmes que assisto, a forma como eu falo, os assuntos sobre os quais eu falo, o fato de eu usar palavrões às vezes – como se ela nunca soltasse nenhum -, minha falta de apego a uma religião específica, minhas críticas a certas crenças da Igreja e como ela cai em contradição, minha falta de interesse em relação a músicas gospel – na sua visão, isso é quase como odiar a Deus, o que não é meu caso, de modo algum –, o fato de eu preferir ir ao paintball ao combo cinema + jantar, dentre outras coisas.

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