A melhor parte depois de uma longa viagem é sair do carro e esticar as pernas. Já ia chegando no ponto em que os pés adormecem e o corpo se torna parte do carro, mas enfim cheguei ao meu destino, Barra do Jacuípe. Casinhas pequenas, poucas pessoas andando pelas ruas, um garoto cavalgando sem camisa e o cavalo sem cela, mercadinho vazio, bar com dois senhores de idade conversando e bebendo cerveja. Ótimo lugar para quem procura tranquilidade, ou seja, eu.
Entrei para fazer o check-in na pousada com minha mochila velha e meu boné de dez reais. A única coisa de valor que estava comigo era o notebook na mochila, mas era só dele mesmo que eu precisava.
— Bom dia, reserva no nome de Henrique Polyakov.
— Senhor, o check-in é a partir das 14h — respondeu a recepcionista baixinha de cara redonda que abaixou os olhos e começou a preencher algo em um caderno, sem esperar muito minha reação.
Olhei no relógio e vi que ainda não era nem onze horas. Eu jurava que a entrada era a partir de meio-dia e que me deixariam entrar antes, mas, pela cara da recepcionista, que parecia não ter recebido seu décimo terceiro, eu teria mesmo que aguardar.
— Bom, vou passear e volto logo mais para fazer o check-in — falei olhando para a cara de bolacha que não se deu o trabalho de me olhar de volta.
Perto da recepção, descansavam algumas mesas que provavelmente servem para o café da manhã dos hóspedes, mas que, naquele horário, já não tinha mais nenhuma alma viva. Cheguei mais perto e peguei um copo plástico para tomar água do bebedouro. Dava para ver uma cozinha ao fundo com uma senhora lavando a louça. Voltei pela recepção e saí da pousada para voltar à rua.
Já estive nesse vilarejo umas duas ou três vezes na minha vida, e nada mudou muito desde a primeira vez, então conheço quase tudo. Pensei em parar no bar para conversar um pouco com os dois idosos, ouvir algumas histórias para agregar aos personagens, mas achei melhor ir à praia. Coloquei mochila, camisa, celular e chinelo dentro do carro e fui andando pelas ruas de paralelepípedo por menos de dez minutos até chegar à orla da vila. O sol estava quente, mas não a ponto de queimar meus pés.
Passei por uma igrejinha de portas fechadas, alguns moradores indo e vindo. Nenhum deles estranhou aquele branquelo passando descalço e sem camisa indo em direção à praia. É um povoado que recebe muitos turistas de Salvador e fora da Bahia também, então eu era supostamente só mais um burguês que ia gastar dinheiro no peixe frito caro, dito o melhor da região, mas isso só na mente deles mesmo.
A praia é separada do povoado por um murinho de concreto onde é possível ficar sentado olhando o pôr do sol, ou somente descansando mesmo. Andei mais à direita até uma escada de pedras que dá na praia. Embaixo, algumas barracas e pessoas sentadas conversando, em sua maioria turistas. Esse lugar é bom porque posso decidir se sigo reto e tomo um banho nas águas violentas ou se vou para a direita até o rio que encontra o mar, para saborear a água doce e calma.
Preferi ir para a direita tomar um banho de rio, passando por algumas crianças pulando e chutando água involuntariamente nos outros que passavam, inclusive em mim. Normalmente, eu ficaria estressado com essas crianças, que gritam e molham os outros, mas vim em paz, procurar um lugar calmo para escrever. Todos os problemas foram deixados na cidade, e daqui só sairia quando tivesse escrito pelo menos cinco grandes capítulos.
Chegando ao rio, encontrei mais barracas e muito mais gente. Alguns sentados nas cadeiras das barracas e outros na areia em cima de suas cangas. Passei com cuidado para não chutar areia na cara de ninguém até achar um bom lugar para colocar as chaves do carro, onde eu pudesse ver se não passava nenhum retardado para pegá-las ou pisar nelas. Finalmente pude entrar no rio, que não estava frio e nem quente, temperatura ideal.
VOCÊ ESTÁ LENDO
E se for tudo um sonho?
Romance"E se for tudo um sonho?" conta a história da vida de Henrique Polyakov, dividida em dois períodos de tempo distintos, um em meados de 2017 e outro no final de 2019. Aficionado em observar pessoas e seus comportamentos, o corretor de imóveis de 32...
