O quarto ainda estava com um resquício gelado do ar condicionado que liguei mais cedo. Peguei o celular que tinha acabado de carregar e liguei para ver as mensagens, que eram em sua maioria vídeos engraçados em grupos, imagens de agradecimento a Deus no grupo da família e uma mensagem de minha irmã, Sabrina, perguntando como eu estava. Com certeza não melhor que ela, advogada com escritório próprio, que só trabalha com licitações do governo, casada com um cara que tenho certeza que é gay e um filho feito com fertilização in vitro – o que aumenta minhas suspeitas. Mora em um dos melhores condomínios de Salvador, mas dificilmente está em casa para dar de cara com o personal trainer ou o piscineiro fazendo uma festinha particular com seu marido. Não há como pensar de maneira diferente sobre ele, já que ano passado viajou para a Disney com o melhor amigo nas férias. Ela conta uma versão diferente para as pessoas e para si mesma, acreditando que não poderia ter ido com ele por estar muito atarefada com novos contratos, então supostamente deu a ideia de o marido convidar seu fiel escudeiro, que aceitou de bom grado. De tantos lugares que ele poderia ir e levar o filho artificial, preferiu ir com o amigo para a Disney. Até questionei por que ele não levou a criança, mas a resposta é que ele era pequeno demais para uma viagem dessas – doze anos.
Comecei então a digitar uma mensagem para respondê-la.
"As coisas estão andando por aqui. Consegui iniciar meu livro e já está bem encaminhado com o primeiro capítulo pronto", menti. "Acho que dessa vez vou conseguir sair da pendenga¹ e vender algumas cópias para fazer meu nome. Se tudo der certo, quem sabe não sai uma trilogia de dentro dessa pousada? Não se preocupe, Sassá, estou confiante de mim".
É chato ter a família sempre cobrando meus fracassos, como se fosse meu dever moral ter sucesso na vida depois de tanto dinheiro investido na minha educação e agora, aos 32 anos, não ter casa própria, emprego que pague bem, estar casado e ter filhos. Dizem que a base de qualquer relacionamento saudável se dá na confiança, algo que falta entre meus pais e minha irmã comigo. Será que é por isso que ela permanece casada com um cara que curte rapazes? A confiança nele a cegou a ponto de não enxergar o óbvio e é a falta dela que faz enxergar tão bem os meus defeitos, como se eu já não sentisse na pele todos os dias o que é ter um emprego ruim e morar de aluguel. Talvez a confiança não seja algo tão bom assim no final das contas, caso seja para viver uma fantasia e não abrir os olhos para os próprio problemas.
Larguei o celular no canto e peguei o notebook para tentar terminar o primeiro capítulo, como disse que já tinha feito. Um cena dramática é muito fácil de ser escrita quando se vive um drama diário com uma família desajustada. Parágrafos e mais parágrafos foram passando junto com os minutos até que meus olhos começaram a arder de tão secos, avisando que já chegava a hora de dar um descanso.
Peguei o celular, que estava no mudo, e vi que a sorte estava mudando para mim. O drama familiar pode muito bem dar lugar a um romance nesse meu livro, assim como na minha vida. O número era desconhecido, mas a foto de perfil era inigualável.
"Olá, marciano. Eu só estou entrando em contato pela sua aparência, não pela inteligência ou cavalheirismo. Salva meu número pra eu ver se essa foto de perfil bloqueada não é com a namorada, beijos".
Acho que essa mensagem já foi incentivo para eu escrever pelo menos uns dez capítulos do meu novo romance. Haja inspiração e saúde para esse coração que bate forte com cada palavra lida na voz dela, como se ela estivesse ali na minha frente dizendo tudo aquilo de forma irreverente e engraçada sem se esforçar, como ela já fez diversas vezes desde que nos conhecemos. Antes de checar outras mensagens, respondi "Bem lembrado. Acabei de mudar para você não ver que vivo com duas mulheres, adepto do poliamor".
A outra mensagem que chegou foi a resposta da minha irmã.
"Irmão, sei que você ainda está chateado com tudo que aconteceu e merece um tempo de descanso, mas você não tem condições financeiras de ficar aí para sempre nessa pousada. Sei que sempre gostou de escrever, mas não é isso que paga seu aluguel ou coloca comida na sua mesa. Eu tenho uma amiga que está querendo comprar um apartamento agora em Janeiro e indiquei você para ajudá-la. Descansa, mas volta, ok?"
Eu imaginei que ela não queria saber realmente como eu estava, mas apenas tentar me convencer a voltar para casa e para meu emprego cansativo e chato, contudo não a culpo. Faria o mesmo por ela em qualquer situação que eu entendesse estar certo e ela errada nas próprias decisões. O melhor seria não contrariar.
"Vou ficar só uns dias por aqui, Sassá. Pode ficar tranquila que vou voltar para casa sim. Depois entro em contato com a sua amiga, beijos."
Por mais que essas mensagens me fizessem refletir sobre minhas recentes decisões, estava confiante que dessa vez criaria uma história interessante para muitas pessoas. Larguei o celular no canto para não ver a resposta dela, caso houvesse alguma, e foquei no trabalho. Hoje seria o primeiro dia rumo ao segundo pecado capital, a avareza. Escrevi mais duas páginas até o notebook alertar bateria fraca. Nada mau para um dia corrido como hoje.
Chequei mais uma vez meu celular e não havia nenhuma nova mensagem. Imaginei que minha irmã não responderia, mas torci muito para que Ana tivesse enviado algo. Deve ter saído com as amigas para algum lugar movimentado, conhecido novas pessoas interessantes, alguém que a fizesse esquecer do russo que não se despediu da maneira que ela queria. Se bem que foi o suficiente para ela me adicionar e mandar uma mensagem divertida. Estaria ela pensando em mim como eu pensava nela? Dúvidas e mais dúvidas que só seriam respondidas no futuro, então para mim só restava esperar.
Liguei a TV e fui passando os canais até encontrar um jogo de São Paulo e Internacional reprisado na voz de Cléber Machado. Não costumo acompanhar os jogos de futebol, mas meia hora daquela voz nos meus ouvidos sempre dava um sono inexplicável e era disso que eu precisava para que chegasse logo o dia seguinte. Foi tiro e queda: antes de terminar o primeiro tempo, eu já tinha acordado assustado de um cochilo com o grito de gol do Inter. Assisti ao replay e peguei no sono novamente.
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¹Pendenga: Termo comum no Nordeste. Peleja sofrida, quase sem resultado. Tributo de quem trabalha de sol-a-sol e nunca tem o mínimo para sobreviver. (N. do A.)
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E se for tudo um sonho?
Storie d'amore"E se for tudo um sonho?" conta a história da vida de Henrique Polyakov, dividida em dois períodos de tempo distintos, um em meados de 2017 e outro no final de 2019. Aficionado em observar pessoas e seus comportamentos, o corretor de imóveis de 32...
