II

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Um barulho de porta batendo bem perto de mim cortou um belo sonho em que eu navegava em alto mar na minha lancha recém-comprada. Olhei para o lado, e o quarto de Priscila parecia estar exatamente igual como no dia anterior, sem nenhuma indicação de que ela já havia voltado da academia. Uma fisgada nas costas me forçou a levantar da cama antes do momento ideal de descanso, devido provavelmente à posição torta que dormi ao estranhar a cama desconhecida. Na verdade, posso dizer que tive uma boa noite de sono, se comparada com as experiências que já tive ao dormir em camas alheias. O meu problema psicológico deve ter se cansado bastante após tanto álcool e sexo antes de dormir, que resolveu simplesmente parar de funcionar por um dia.

Descalço e sem camisa, vestido apenas com minha cueca branca comprada na C&A, abri a porta do quarto para pegar alguma coisa na cozinha antes que Priscila me visse. Ao entrar na cozinha, percebi que havia chegado tarde demais, mas a baixinha de cabelos pretos foi substituída por um baixinho bombado de cabelo curto estilo militar, que preparava algo no liquidificador. Não é possível que ela tinha um namorado e não havia nem me avisado para fugir antes que ele chegasse. Quem será que ganharia em uma luta até a morte? O altão que só sabe de luta o que aprendeu nos filmes de Rocky Balboa ou o pequeno ser vivo que preparava um shake de Whey Protein?

— Mas que porra é essa? — perguntou o cidadão que deve ter reconhecido a ameaça pelos passos no corredor após anos de treinamento na selva amazônica. Seus olhos percorreram o meu corpo e pararam nas minhas partes íntimas, que logo murcharam de pânico.

— Quem é você? — respondi com a primeira coisa que passou pela minha cabeça, então, em um movimento involuntário, cobri minha cueca com as mãos.

— Quem sou eu? Você está na minha casa! — falou em tom agressivo, começando a andar para cima de mim com sangue nos olhos. — Você transou com minha mulher?! Vou quebrar você no meio! — gritou em minha direção, o que fez minha cavidade retal se fechar totalmente e a espinha gelar.

— Calma, doido! — dei um pulo para trás, pronto para sair correndo e pular pela varanda mesmo. Uma queda do segundo andar não seria tão ruim assim.

A fera então parou e começou a rir feito uma hiena com cócegas, soltando gritinhos agudos em meio aos risos. Não entendi porra nenhuma do que estava acontecendo.

— Espera... não consigo — disse ele com dificuldades enquanto continuava rindo sem previsão de parar nem para respirar. — Você devia ter visto sua cara.

Continuei parado tentando decifrar a situação. Se passei vergonha de medo, agora passava por não compreender o que acontecia. Será que transar com minha psicóloga valia a humilhação? Valia sim.

— Você deve ser Henrique — disse após conseguir controlar a crise. — Priscila me ligou dizendo que, provavelmente, eu me daria de cara com você, mas esperei pelo menos que fosse alguém vestido.

— Se eu soubesse... Quem é você?

— Irmão dela, Marcelo — estendeu a mão para mim.

— Quase enfartei, escroto — apertei de volta, agora mais confiante de que não seria triturado em socos.

— Um cara do seu tamanho e frouxo, onde já se viu? — respondeu rindo e voltou para pegar seu shake proteico no liquidificador.

Abri a geladeira ainda abalado pelo susto e peguei uma garrafa de iogurte aberta para tomar. Quando ela chegasse, diria que seu irmão comeu tudo antes que eu acordasse, só de vingança.

— Sério mesmo que você vai tomar café da manhã sem se vestir? — perguntou enquanto colocava sua bebida em um grande copo de mais ou menos um litro.

E se for tudo um sonho?Onde histórias criam vida. Descubra agora