III

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Cheguei à praia, que na verdade é um rio, com a barriga roncando de tanta fome, porque havia perdido o horário do café da manhã da pousada. A dor de cabeça ainda estava comigo, e o sol incomodava meus olhos, tudo resultado da noite alcoólica que já tinha se perdido em algum lugar da minha mente. Tinha certeza que comer o famoso peixe assado na folha de bananeira estaria bem acima do meu orçamento, mas o que eu não faria para estar com Ana? Não faltava muito tempo para ela viajar com as amigas para Maceió, e as chances de nos vermos novamente cairiam para quase nulas.

O que mais me incomodava em encontrar suas amigas era o fato de que não tinha como elas não saberem que Ana tinha namorado. Inclusive, era bem possível que as duas conhecessem pessoalmente o tal fulano e até tivessem um relacionamento próximo, do tipo de sair em casais e irem às mesmas festas de aniversário. Sabendo disso, como poderiam concordar que ela tivesse um caso comigo? Será que tinham raiva dele e eu estaria sendo aceito somente como forma de dar um troco em um cara escroto? Existia ainda uma explicação muito mais simples e que se encaixava perfeitamente na história: eu entendi tudo errado. O tal fulano poderia ser simplesmente um irmão ou um amigo gay. Porque é super comum, obviamente, salvar o nome dos contatos como "Amor" sem que seja o par romântico.

Voltei à estaca zero e parei de pensar na vida de amante quando encontrei as três sentadas ao redor de uma mesa de plástico, debaixo de um sombreiro imenso, fornecido pela barraca do peixe. Quando as vi na pousada, foi difícil perceber muito das suas características, mas agora parecia que meus problemas de visão estavam em estado crítico, porque me deparei com duas mulheres exóticas, totalmente diferentes do que reparei na última vez. Ana estava sentada de frente para uma mulher loira, bastante acima do peso, e do seu lado esquerdo havia um protótipo de desnutrição, como dois pólos opostos que se completavam.

— Oi, marciano — disse Ana ao perceber a minha presença, ela então pegou a minha mão e a segurou.

Sua voz foi como a música mais bela que já ouvi e, ao sentir sua pele macia tocar meus dedos ásperos, percebi o que estava acontecendo comigo. Seus olhos brilhantes fixados aos meus e seu grande sorriso se abrindo em uma saudação calorosa estavam prestes a me apresentar às suas companheiras de viagem. Tudo nela era maravilhoso e me fazia sentir como o homem mais sortudo do mundo só por ter a oportunidade de compartilhar dois dedos de prosa. Não adiantava mais mentir para mim mesmo, fingir que aquela mulher seria somente um ser passageiro na minha vida, por mais que fisicamente fosse. Finalmente me vi conectado a alguém, uma estranha que havia quebrado todas as minhas defesas e entrado na minha vida subitamente, sem pedir licença. Naquele momento, percebi que estava apaixonado por Ana Carolina, como nunca havia acontecido comigo antes.

— Essa é Paulinha — apontou para a loira à sua frente, acordando-me do transe temporário. — E essa é Rebeca.

Agora que eu sabia os nomes, pude relacionar a pessoa aos fatos. Paulinha fora a que se mijou de tanto rir na noite anterior, uma mulher de sorriso fácil que parecia realmente ser muito divertida. Estava vestida com uma saída de praia na cor preta e um grande chapéu de palha que escondia parcialmente seus óculos escuros excêntricos, mas não grandes o suficiente para evitar que eu notasse seu volumoso nariz achatado que mais parecia uma batata.

Já a tal Rebeca era muito bonita, mas só facialmente. Seu rosto parecia esculpido por um artesão, com maxilar bem definido, nariz pequeno e fino — provavelmente após uma rinoplastia — e lábios carnudos. Porém, o que ganhava de pontos positivos em seu rosto perdia em um corpo magro demais, possibilitando ver seus ossos com facilidade, principalmente na região do esterno, destacando-se sempre em qualquer movimento. Ela também estava com uma saída de praia, só que na cor branca, o que fazia com que Ana fosse a única na mesa a estar somente de biquíni. Rebeca tinha um ar superior, característico de patricinhas que nadam em dinheiro e estão acostumadas a ser bajuladas, mas essa foi só a primeira impressão que tive sobre ela.

E se for tudo um sonho?Onde histórias criam vida. Descubra agora