VII

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As palavras fluíram pelos meus dedos minutos após Ana ter saído do quarto vestindo a minha camisa Led Zeppelin. Dessa vez, ela insistiu em ir sozinha e disse que a devolveria lavada e perfumada. Respondi que por mim não precisava lavar nada, e que até preferia ter seu cheiro pela minha camisa favorita, mesmo não sendo uma das bandas que mais ouço. Na verdade, não existe uma banda que escuto mais, porque acabo ouvindo de tudo um pouco.

Consegui escrever duas páginas em menos de uma hora, o que era um progresso incrível comparado com o que eu tinha feito nos outros dias. Nesse ritmo, conseguiria ultrapassar a meta de cinco capítulos escritos no meu retiro literário e assim poderia mostrar alguma coisa para o meu futuro novo agente — que ainda não sabe que é — André, o namorado de Marquito. Com sorte, teria sinal verde para escrever os outros capítulos e lançar em alguma boa editora até o meio do ano, ainda mais agora que já tenho em mente a história completa.

A fome apertou, e dei uma pausa na escrita. Troquei de roupa e saí rumo ao bar onde escutei a conversa dos idosos no outro dia. Assim que tranquei a porta para me dirigir às escadas, avistei novamente Daniella, a jovem de cabelos tingidos de loiro. Hoje estava sem livro nas mãos, somente aproveitando os últimos raios de sol do final da tarde. O receio de me deparar com ela novamente e incitar mais pensamentos sexuais foi tão grande que tive que procurar um caminho alternativo para não ser visto, passando por um corredor que levaria até a lavanderia. Por fim, consegui alcançar a rua sem ter que passar pela piscina.

Ao chegar ao bar, encontrei novamente os três idosos que gostavam de conversar sobre a vida dos outros enquanto tomavam cerveja. Uma placa riscada de giz mostrava os pratos do dia por quinze reais. As opções eram bife acebolado, frango empanado ou escondidinho de carne do sol. O garçom chegou para anotar meu pedido assim que sentei na cadeira, ele não parecia muito triste em ter que trabalhar em pleno feriado após o réveillon.

— Boa tarde. Esse bife acebolado vem com o quê?

— Feijão de caldo, arroz e salada.

— Pronto, vou querer esse.

Ele anotou o pedido e voltou em direção ao balcão em que uma mulher de feição irritadiça aguardava, provavelmente a dona do bar. Ela sim parecia incrivelmente revoltada de ter que trabalhar no dia mundial da paz, após passar a noite à base de álcool e música alta e acordar com uma ressaca terrível. Talvez fosse alguma exigência do sindicato, quem sabe. Ou então era só a cara dela de sempre mesmo.

Dessa vez, a conversa dos senhores de idade era sobre o pai de um deles que tinha participado da 2ª Guerra Mundial pela FEB — Força Expedicionária Brasileira. Enquanto esperava o meu bife acebolado, ouvi atentamente o assunto que era interessante e até curioso para mim. Poderia ser uma daquelas histórias de pescador, mas, pela riqueza de detalhes, era difícil que fosse inventada.

— Foi em Abril de 1945, se me lembro bem. Ele participou da batalha de Montese na Itália, expulsando os Nazistas filhos da puta daquela região.

— Lá vem você de novo com essa história inventada — retrucou um senhor rebugento na mesa.

— Deixa ele contar a história, Zé — interrompeu o terceiro.

— É verdade, Zé. Até hoje eles comemoram a ajuda do exército com bandeiras do Brasil. Têm até umas placas colocadas pela prefeitura da cidade espalhadas pela cidade lá.

— Se fosse aqui, roubariam a placa. Soube que roubaram aquela de bronze que o prefeito colocou na pracinha reformada.

— Você não sabe de nada, Carlinhos. Hoje em dia até placa de acrílico os vagabundos estão roubando.

A conversa mudava de rumo com facilidade e acabou chegando em um ponto que começaram a chamar o prefeito de ladrão. Parei de prestar atenção assim que a comida chegou, começando a focar nas notícias que passavam na TV. As mesmas bobagens de sempre, nada muito útil. A comida até que estava boa, melhor ainda depois que pinguei umas gotinhas de limão no feijão.

E se for tudo um sonho?Onde histórias criam vida. Descubra agora