30 DE DEZEMBRO DE 2019 - I

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Corri por um corredor escuro interminável até encontrar uma porta. Meu coração batia acelerado, e gotas de suor escorriam pelo meu rosto. O medo finalmente aparentava ter vontade de me abandonar assim que coloquei os pés dentro daquele quarto. A porta se fechou atrás de mim sem que eu a tocasse, como se uma corrente de ar a tivesse empurrado. Foi só um engano meu, o medo ainda me acompanharia por mais algum tempo. Olhei para baixo e enxerguei com dificuldade o sangue que escorria das minhas mãos, não sei se meu ou de outra pessoa. Procurei pelo meu corpo por feridas abertas e finalmente achei o corte entre uma das minhas costelas. Um espaço considerável aberto no meu peito derramando sangue e trazendo um sentimento de pavor para dentro de mim. Eu precisava fugir daquele quarto escuro de alguma forma, sem voltar para o imenso corredor e os perigos que lá me aguardavam. Avistei uma janela de madeira à minha frente, que poderia ser uma saída. Velha e emperrada, forcei-a com todas as minhas forças até que ela abriu de uma só vez, trazendo consigo um clarão de luz que encobriu todo o ambiente.

Os raios de sol entraram pela janela que permaneceu a noite inteira com a cortina aberta. Meu corpo suado e cansado pedia um banho gelado matinal. Os meus batimentos cardíacos permaneciam acelerados, mas agora eu estava seguro, fora só um pesadelo. Achei que era umas sete da manhã, mas ao olhar o relógio vi que tinha dormido bastante e que marcava 8:35. Deve ter sido o cansaço de dirigir na estrada e tomar tanto sol sem protetor.

A primeira coisa que fiz foi pegar o celular e procurar mensagens dela, o que me levou novamente ao vazio emocional de não encontrar nada. Provavelmente ontem foi um dia diferente, em que Ana preferiu não beber com as amigas, acordou cedo e foi para a praia. Hoje acordaria ao meio-dia junto com elas e fariam coisas de turistas juntas. O melhor seria não me iludir, não criar expectativas e aproveitar outras oportunidades, como aquela garota de atitudes à frente do meu tempo que surgiu no meu quarto.

Desci para tomar o café-da-manhã da pousada. Aquele horário a piscina ainda estava vazia, limpa e chamativa para um banho com o sol já forte desde cedo. Seria uma ótima ideia para relaxar se eu não comesse como um animal faminto e me sentisse mal após isso. As opções eram vastas: diversos tipos de frutas cortadas, ovo mexido, calabresa frita, pão de forma, bolos e outras coisas. Era um cardápio que agradava aqueles que queriam se manter fit e os que queriam morrer com entupimento de artéria aos cinquenta anos. Faço parte do segundo grupo, então peguei dois pães e fiz um sanduíche com calabresa, ovo mexido, presunto e queijo. Para dar uma equilibrada no colesterol, finalizei com um copo de iogurte de morango.

O lugar estava cheio por causa do horário, então me levantei para dar lugar a um casal que olhava as cadeiras ocupadas ao redor do salão, como se estivessem perdidos e precisassem de orientação turística. Eles me agradeceram, o que achei desnecessário. Ninguém além de mim pareceu se preocupar com o casal, continuando conversando em suas mesas após terem terminado de comer, batendo papo e rindo alto. Olhei ao meu redor antes de sair, em busca de alguma vítima indefesa e, principalmente, solteira dessa vez. O que eu menos queria era encontrar aquele casal que vi no dia anterior e ser pego em flagrante encarando um par de peitos. Sou muito bonito para ter o rosto aberto de socos por algum lutador de MMA.

No caminho de volta ao meu quarto, passei pela piscina, e ela me olhou de volta com um olhar carente, como quem diz "pula em mim, está calor". As chances de eu passar mal depois de ingerir 200g de colesterol LDL eram altas, mas eu não precisava necessariamente obedecê-la e pular de barriga, somente relaxar um pouco naquela água geladinha. Fui para o quarto e peguei os óculos escuros e uma toalha, voltando para a piscina que agora já não estava mais vazia. Duas crianças brincavam na parte rasa, jogando água uma na outra e sem nenhum adulto ao redor as observando. Desci pela borda e fiquei relaxando de olhos fechados por alguns minutos até que uma coisa bateu no meu ombro. Olhei e vi uma das crianças me olhando de volta com um olhar assustado e uma bola de plástico boiando ao meu lado. Incrivelmente não fiquei com vontade de estourar a bola e a joguei de volta para as crianças brincarem.

E se for tudo um sonho?Histórias para pegar e não largar. Descubra agora