5 DE JULHO DE 2017

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Enquanto aguardava na recepção, ainda pensava no que Priscila tinha me dito semana passada. Foram exatos sete dias para pôr em prática tudo aquilo de "pensamento positivo", deixar claro o que me incomodava no meu relacionamento, sem guardar para mim e ficar remoendo os aspectos negativos. Uma semana não foi suficiente para ter significativo progresso, e aquilo me deixava relutante. Será que esse tratamento realmente tinha alguma eficácia? Sempre achei baboseira, mas ali estava eu, pronto para mais uma sessão.

As palavras da psicóloga ainda remoíam na minha cabeça. Fazia sentido que eu estivesse lidando com minhas namoradas de maneira errada, afinal, é estranho que todo relacionamento meu, até o momento, não tenha durado mais que um semestre. Agora, com Fernanda, as coisas começavam a ficar mais difíceis, e parecia que não chegaríamos aos fatídicos seis meses.

Na TV passava um filme sobre cachorros falantes, e a recepcionista parecia estar lixando as unhas, já que eu era o único paciente, porém a bancada era tão alta que não dava para ter certeza sobre o que ela realmente fazia. A única câmera da sala estava virada para os assentos dos pacientes e não conseguia filmar a moça ociosa. Deu vontade de levantar e pedir alguma informação só para confirmar minhas dúvidas, mas preferi ir para o lado oposto e pegar um copinho de café preto com açúcar.

Engraçado que, na minha vez, a sessão durou exatos cinquenta minutos, só faltava colocar um despertador para tocar e avisar que tinha chegado ao fim e não podia passar mais nenhum minuto. Já hoje ela estava dez minutos atrasada ainda com a paciente do horário anterior. Tomei mais um copinho de café, e finalmente uma senhora de uns sessenta anos saiu da sala 5. Quais serão os problemas psicológicos de uma aposentada? "Meu neto é gay, e não aceito isso"; ou, quem sabe, "minha neta é maconheira e raspou a cabeça, como lidar?". Se for para lidar com a morte do marido após 40 anos de casados, é quase certeza que irei para o inferno.

— Boa tarde, Henrique — disse Priscila ao se sentar na cadeira logo à frente da minha, já dentro da sua sala. — Como foi a semana?

Lá estava ela novamente com seu rabo de cavalo, pele morena e seus óculos retangulares observando os meus movimentos. Desta vez estava vestida com uma blusa social branca, saia cinza escura e sapato preto reluzente. O colar grande de artesanato havia sido substituído por um fino cordão dourado. Comparado com a semana passada, estava mais bem vestida e elegante.

— Boa tarde, doutora. Quanto aos problemas que te contei semana passada, não houve muito progresso, mas foi por que não encontrei mais com Fernanda esses dias. Até nos falamos por mensagem, de forma bem curta em dias diferentes, e nesse tempo tentei pôr em prática o que você falou, só que ela ainda permanece distante por causa da última briga, mas não por falta de tentativas de aproximação.

— Como ela é para você? Conte um pouco sobre Fernanda, como você a vê, suas qualidades, seus defeitos. Pode falar o que vier na sua cabeça.

— Eu conheci Fernanda no aniversário de um amigo meu, em Novembro do ano passado, na casa de praia dele lá em Barra do Jacuípe. Até hoje não sei direito, mas ela era basicamente amiga do amigo de um amigo que foi convidado para a festa. Tinha tanta gente naquela casa que acho que a metade era penetra que viu a festa rolando e foi entrando.

Pausei um pouco antes de continuar a história, hesitante de "falar o que viesse na minha cabeça", como ela havia pedido. Como há confidencialidade de paciente então eu poderia realmente falar quase tudo para ela. Resolvi ser franco e contar tudo a Priscila, mas não para buscar o melhor tratamento possível, e sim para provocar alguma reação nela e observar o que ela faria, ou seus olhares de reprovação. Um hábito muito comum, porém indiscreto, da minha parte, tentar obter reações inesperadas de pessoas sem pensar muito nas consequências.

— Um grupo de pessoas que eu não conhecia — continuei — estava sentado na grama, fumando maconha, perto da piscina. Naquele dia todos eram amigos, e a vibe estava muito boa, então fui na cara de pau e me sentei na roda. Quem se encontrava à minha esquerda era Fernanda, que não demorou muito a me passar o baseado que estava na sua mão. Ela estava com um vestido curto com detalhes estranhos e coloridos na ponta, bem hippie. A primeira coisa que olhei quando sentei foram suas pernas de garota praiana de fora, bastante queimadas de sol. O seu rosto me lembrava uma índia de filmes, e depois descobri que ela realmente tinha descendência. Ao me passar o baseado, notei seu piercing no septo do nariz e um belo sorriso cativante. Havia uma tensão sexual tão forte que não notei o seu cabelo raspado do lado esquerdo da cabeça, o que sempre achei super esquisito em outras mulheres. Não me enturmei muito bem com o grupo, porém com ela a coisa foi diferente. Alguns minutos depois as nossas línguas já estavam se entrelaçando, enquanto o resto da roda falava sobre política, óvnis e a morte suspeita de Michael Jackson. Não fizemos sexo naquele dia, mas peguei seu número, e mantivemos contato por mensagem por uma ou duas semanas até que marcamos de nos ver mais algumas vezes, e, por fim, a pedi em namoro.

Priscila não mostrou nenhuma reação diferente do comum enquanto eu contava a história. Tantos fatos novos e ela não fazia menção de anotar nada, da mesma forma que não o fez na semana anterior.

— Nas duas primeiras semanas foi só alegria, mas logo depois ela começou a dar ataques de ciúme sem motivo nenhum. Cismava que eu estava escondendo algo dela, que ela tinha que ter a senha do meu celular e das redes sociais, coisa que eu não quis dar. Não tinha nem um mês de namoro ainda e ela já queria tomar conta da minha vida toda, mas aquilo não parecia um problema para mim. Toda briga era resolvida com uma noite de sexo maravilhosa, e, no dia seguinte, as coisas já estavam bem de novo. Os meses passaram, e as brigas continuaram, mas fui levando tudo com a barriga. Nunca fomos de conversar muito sobre a vida ou os problemas individuais de cada um. Ela, por exemplo, nunca perguntou sobre meus pais, nunca sequer mencionou querer conhecê-los. Nossas mensagens eram basicamente um chamando o outro para sair, marcando os lugares que iríamos nos finais de semana e, ao chegar lá, era, resumidamente, álcool garganta abaixo e sexo para fechar as noites. O que gosto muito em Fernanda é que ela consegue me acompanhar em tudo. Não era difícil em uma noite dividirmos uma grade de cerveja em que os dois bebiam de forma igualitária. A sorte dela era ter cabelo curto e não precisar que alguém segurasse seu cabelo para vomitar, porque eu também estava sempre passando mal de forma solidária com ela.

— E foi por esse motivo que vocês ainda não estão se falando direito? Ciúme?

— Sim. As causas são sempre idiotas, mas uma discussão leva à outra e sempre termina em xingamentos mútuos. Aconteceu isso nos meus outros dois relacionamentos anteriores também, mas não de forma tão intensa quanto é agora. Talvez eu esteja vendo as coisas de forma errada, colocando a culpa em quem não merece e cobrando muito de mim mesmo para conseguir melhorar de vida, ou melhor, era isso que eu queria que você me ajudasse a decifrar.

— E como é a relação com seus pais?

— O que isso tem a ver com o que eu acabei de falar? — respondi instintivamente, sem saber se aquilo tinha soado de forma ofensiva ou não. Ela certamente diria que o meus problemas nos relacionamentos são por causa da minha relação com meus pais, puta clichê do caralho. É só uma forma de comer o meu dinheiro, tenho certeza. Sabia que isso não ia dar em nada, e agora vem essa doida usar seus conhecimentos, que aprendeu nas aulas sobre Freud, em mim.

— Henrique, é importante que eu entenda mais sobre você para poder te ajudar. Essa é a nossa segunda sessão, ainda há muito para conversarmos.

— Então... tá bom. Vou te contar tudo que você quiser saber, até mesmo se precisar que seja desde a minha infância.

É claro, tudo que o tempo permitir, sua mercenária. Sabia que já tinha passado uma boa parte da consulta com as histórias que contei sobre Fernanda, então havia pouco o que se falar até que seu despertador mental marcasse o fim da sessão. 

E se for tudo um sonho?Onde histórias criam vida. Descubra agora