2 - Uma empregada

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Tommy Powell é um homem na casa dos cinquenta, uma postura dura que faz transparecer alguém duro, mesmo sentado na sua cadeira de couro por trás da secretária em mogno. Havia livros por todo o lado e fotos de família em molduras espalhadas nas estantes, objetos de luxo vindos de todo o mundo e charutos, cheira a charuto por todo o espaço...

- Sente-se.

- Obrigado, mas estou bem de pé. - Mantenho-me quieta e ele analisa-me.

- Como queira, Sasha a Betty contou-me a sua história, amnésia é isso?

- Exato, senhor Powell.

- Estou em branco, preciso de mais informações. - Ele bate com a caneta na mesa de forma curiosa.

- Também eu, senhor, Sasha nem sequer é o meu verdadeiro nome, mas estou aqui para trabalhar.

- Gosto da sua postura, aviso apenas uma coisa, estou cansado de despedir empregada, umas porque não sabem manter-se no seu devido lugar, outras porque acabam da cama do meu filho Brandon. - Então há um Powell Júnior por aí, o meu olhar vai para a foto  atrás dele onde uma família sorria, o senhor Tommy estava lá e os outros devem ser a mulher, o filho e a jovem será filha ou nora.

- Pode ficar tranquilo, não acontecerá nenhuma dessas situações comigo. - Não comigo.

- Bom ficamos assim, Betty vai explicar-lhe tudo, pode ir.

- Obrigado Senhor Powell.

Dou meia volta e saio do escritório, Betty esperava por mim tal como Olívia, ela tinha um sorriso caloroso sempre estampado no rosto. Sigo-a pela sala, cozinha e depois a lavandaria onde havia a porta de acesso aos nossos quartos, haviam quatro e uma, enorme casa de banho. Ela informa-me que o primeiro quarto é dela, o segundo de Rosa, uma jovem que também trabalha na casa, em frente ao dela era o meu e sobrava um que estava livre. Ela abre a porta, em cima da cama, para além da minha mala há três fardas que se restringem a calças pretas, camisas brancas e um par de ténis brancos também. O quarto era simples composto por cama com mesa de cabeceira, uma cadeira e um roupeiro...

- Vou deixar-te sozinha para mudares de roupa, podes usar a casa de banho a vontade e depois vais ter comigo a cozinha.

- Claro, preciso somente de dez minutos Betty.

- Claro querida. - Ela pisca o olho e sai do quarto.

Troco de roupa, ato o cabelo e vou ter com Betty, deixo as arrumações do quarto para depois. Passo na casa de banho e vejo que há uma gaveta e uma porta do armário com o nome de cada uma, faltava o meu claro e na bancada um copo com as respetivas escovas de dentes num copo. Numa prateleira havia alguns perfumes, vernizes e uma caixa de maquilhagem,  talvez deva ser da tal Rosa...

- Aqui estou!

- Otimo, a farda fica-te muito bem, bom a Rosa está neste momento a servir o pequeno-almoço, a família está na sala de jantar, tu vais aproveitar para abrir cada armário da cozinha, quero que saibas o lugar de tudo caso eu fique doente ou assim. Sei que sabes cozinhar bem ao contrário de Rosa que é um desastre na cozinha.

Faço o que ela me pede e ouço passos de alguém a aproximar-se, olho para a porta e vejo Rosa, deve ter a minha idade, morena, estilo hispânica com cabelo bem escuro atado num coque perfeito...

- Bom dia, sou Rosa!  - Ela estende a mão e eu aceito o seu cumprimento.

- Sasha!

- Desculpa, mas tenho de levar o açúcar, volto já. - Ela faz uma careta a Betty.

- Claro.

Ela volta a sair com um açucareiro, dá para ver que é do tipo elétrica, extrovertida, mas muito distraída ou o açucareiro estaria na mesa antes de o café ser servido...

- Sasha, quando todos saírem vais dar uma volta com Rosa, ela explicará o teu trabalho.

- Quantas pessoas vivem aqui? - Pergunto ao ler a lista de compras.

- O Sr Tommy, a esposa Alice e os dois filhos, Brandon e Maya.

- Posso ajudar em alguma coisa?

- Não menina, a cozinha é minha responsabilidade tal como a lavandaria, tu e Rosa vão tratar de manter a casa limpa. Normal mente a casa fica vazia durante o dia, exceto terças e quintas que a Sra Alice faz tratamentos e por vezes fica em casa, ela tem uma saúde muito frágil. Brandon trabalha e Maya está na faculdade. Existe também um jardineiro que faz o serviço de motorista da Sra Alice.

- Bom a família está servida, parece que Maya aprontou alguma e o pai não está satisfeito. - Rosa também parece ser do tipo que não tem travão nas palavras.

- Não é da nossa conta Rosa, agora aproveita para subir e mostrar o primeiro andar à Sasha, levantam a mesa quando a família sair.

- Claro, vamos? - Ela pergunta-me.

- Sim!

Vamos até à sala para subir a escadaria que dá acesso ao primeiro andar e dá para ouvir a voz alterada do Sr Powell. Chegada ao primeiro andar debato-me com um corredor repleto de portas, abrimos quatro delas, abrimos as janelas e fizemos as camas. O primeiro quarto era dos donos da casa, um imenso quarto com suíte, eu fiquei atenta a tudo o que Rosa dizia. Descobri que Sr Powell era um juiz famoso e Brandon advogado, os dois faziam uma dupla temida por todo o tipo de marginais e muitas vezes a equipa de seguranças tinha de ser reforçada devido a ameaças. A Sra Powell geria um orfanato e Maya era a jovem festeira sempre a aprontar, a joia dos jornalistas que adoram um bom escândalo...

- Lembra-te Sasha não podemos falar sobre nada de que vemos ou ouvimos nesta casa.

- Não terei problemas com isso e tu tens família?

- Tenho e muita, quer dizer o meu pai já morreu a muitos anos, mas tenho um namorado que adoro e com quem passo os fins de semana. - Agora entendo porque ela continua aqui, tem namorado e deve ter rejeitado o tal Brandon.

Continuamos a arrumar tudo e a manhã passa num piscar de olhos, entre fazer cama, limpar pó e casa de banho agora faltava o andar de baixo...

- Meninas vamos almoçar depois continuam. - Betty chama por nós no fundo das escadas.

- É melhor irmos, estou faminta. - Descemos as escadas com cesto de roupa suja.

- Como sempre Rose. - As duas riem e eu como sempre mantenho o ar sério, sou assim sem muito sentido de humor.

Oblívio - A EscolhidaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora