É o último dia do ano, talvez eu devesse recordar tudo aquilo que foi importante, bom ou ruim, refletir sobre e tentar melhorar. É algo que faço todos os dias, na verdade, mas é bom escrever e deixar registrado.
Comecei o ano emburrada porque não passei o Ano Novo com o meu ex-namorado, já que tínhamos passado o Natal juntos.
No meu aniversário, ele veio aqui em casa e depois fomos pra casa dele, o único lugar em que podemos ficar sozinhos. Foi o melhor aniversário da minha vida. A noite, fui comer pizza com os meus pais.
Me lembro de ter escrito alguma carta pros meus pais sobre as coisas que deveriam melhorar na nossa família. Meus pais vêem isso como uma forma de ingratidão minha. Levei uma bela bronca e as coisas pioraram mais ainda.
Até então, ainda estava passando na psicóloga, então ela me acalmava bastante, me dizia pra não investir mais em algo que eu não posso mudar, não ficar tentando, porque meus pais serão sempre assim.
Em fevereiro, fui contratada no estágio. Tive alta da psicóloga, ela julgou que eu estava bem e eu me sentia bem. Tudo o que tinha acontecido até então me ensinou muita coisa e até me senti pronta pra ter alta mesmo. Meu começo na escola foi difícil, os alunos eram bem hostis comigo. Achei que não seria tão feliz ali.
Posso estar errada, mas acho que foi em março que meu ex-namorado pediu um tempo. Foi fofo e doloroso, porque eu sabia que de certa forma ele não estava feliz, mas ele dizia que não queria me deixar. Ficamos chorando na porta do shopping e em um banco lá dentro. Senti que meu mundo estava acabando naquele dia. Mal sabia eu que o pior estava por vir.
Em junho, meu amigo morreu. Foi tudo muito rápido, inesperado e revoltante. O jeito que ele morreu foi revoltante, atropelado e largado na rua por horas porque já o julgaram como morto. Injusto. As pessoas se acharam Deus naquele momento e decidiram ali a vida dele. Se tivessem sido menos idiotas, talvez o João estivesse vivo hoje, teria passado o Natal, Ano Novo e o aniversário da irmãzinha dele junto com a família. Eu penso nessa garota todos os dias, mas sei que ele está com ela. Eles eram dois chicletinhos, eu sei que nem a morte vai desgrudar eles dois.
Depois que o João se foi, tudo começou a desandar pra mim. Eu chorava todos os dias, ir pra casa era horrível, pois morávamos muito perto um do outro. Até hoje sinto um peso quando passo na frente da casa dele. Estar sem a psicóloga pra me ajudar a passar por isso foi difícil, meu ex-namorado não podia fazer nada e essa impotência o machucava bastante. Minha família não me ajudou tanto assim, meus amigos não queriam falar muito sobre o assunto. Eu me vi meio sozinha nisso tudo, nunca havia perdido alguém próximo, com quem convivi por alguns anos junto. Prometi pro João que continuaria vivendo por ele e por mim, mas eu não sabia que seria tão difícil. Tudo era doloroso, minha família me colocava muito pra baixo, meus amigos foram se afastando de mim, eu fiquei sozinha.
Em agosto, as coisas ficaram bem estranhas entre eu e o meu ex-namorado. Mal tínhamos tempo um pro outro e toda a minha tristeza acabou desgastando ele. Ele decidiu ir embora. Teria sido um término tranquilo se eu não tivesse discordado de tudo e tornado aquilo um caos completo. Eu não conseguia entender nada, o motivo daquilo ter acontecido, o porquê deixei meus problemas serem maiores que eu e me dominar e acabar com aquilo que me fazia feliz. Depois, ainda arranjei uma briga que eu não queria por implicância e ciúmes do amigo dele. Quase perdi uma amiga nisso. Só espero que ela perceba que ele tem umas atitudes estranhas ocasionalmente e tome uma atitude sobre isso, ela sabe o que acontece, esse garoto acha que a namorada dele é boba. Coitado.
No final desse mês, tive a minha primeira tentativa de suicídio. Eu estava morta por dentro naquele dia. Sem família que dá apoio, sem o meu porto seguro, sozinha. Naquele dia, só me faltou força física pra morrer.
Em setembro, os mortos saíram de seus túmulos. O pior dos meus ex-namorados apareceu, o que me deixou doente, e ainda teve a audácia de pedir pra voltar comigo. Um imbecil completo que acha que estou desesperada ao ponto de aceitar voltar pra merda. O pior foi ter amigos que ainda me incentivaram a voltar com ele, dizendo que ele havia mudado bastante e que podia ser que valesse a pena dar uma segunda chance. Jamais, entederam? Jamais. Não o odeio, mas não significa que vou amar ele outra vez. Eu perdoei meu passado e isso me ajudou a olhar pra frente, mas não quero viver isso outra vez.
Outro cara que eu tinha ficado uns dois anos atrás também surgiu das cinzas. Odeio a arrogância dele, toda vez que dizia que ia me conquistar outra vez me dava vontade de meter um soco na cara dele. Eu não consigo perdoar ele por ter mexido com a minha família. Meus vácuos fizeram ele sumir.
Nesse tempo todo, fiquei mais amiga de uma das amigas do meu ex-namorado. Ela me salvou por muitos dias e espero ter salvo ela também. Ela é border igual a mim, teve depressão e até hoje sai do controle às vezes. Me dói ver as cicatrizes que ela tem e ver novos cortes também. Espero que ela seja muito feliz nesse ano que está por vir e que nunca mais precise sangrar assim.
Em outubro, eu o vi, acho que pela última vez. Mal dormi a noite, passei a manhã inteira tremendo, bebendo litros de água e querendo vomitar. Nunca estive tão ansiosa e com tanto medo. Foi horrível.
Ver ele fez o meu coração acelerar. Tinha pedido a quem eu mal acredito pra fazer ele voltar pra mim. Mas acho que ele nunca voltará. Sei que ele sente muito remorso por tudo o que aconteceu, raiva, talvez ódio. Ele não me vê mais como eu realmente sou. Eu não sou má, a Titania e a Meiko não são más, tentamos nos proteger de nós mesmas, dos problemas que moram em nossas mentes, tentamos ser fortes, proteger quem amamos. Mas nosso medo de machucar os outros se torna tão grande que perdemos o controle de tudo e o que mais tememos vira realidade. Tentei proteger ele de mim por meses e meu medo foi crescendo e crescendo, ficou tão enorme que eu não podia mais fazer nada...
Nesse mês, planejei meu suicídio umas três vezes, no mínimo. Eu nunca quis tanto morrer até então. O vôlei me deixava triste, o estágio não me ajudava tanto e a faculdade me cansava. Nada estava me salvando.
Em novembro, comecei a planejar minha morte de verdade. Fiz amigos novos, conheci alguns deles pessoalmente, outros vieram e sumiram, ai voltaram e eu não soube ser tão amigável. Tentei me apaixonar, gostar de outra pessoa pra apagar meu ex-namorado de mim, mas nada funciona.
Fiz passeios legais, conheci lugares novos. Eu fiquei feliz, mas não o suficiente pra enxergar algum sentido na vida, coisa que se extinguia mais e mais a cada dia que passava.
Dezembro tinha chegado, minha morte também estava vindo. Senti medo, senti peso quando comprei meus remédios, mas era o que eu queria. Mas todo mundo apareceu e mostrou o quanto me amavam e isso me fez desistir. Eu fiquei feliz no Natal, foi o melhor da minha vida até então. Só que aí, todo mundo sumiu. Todo o amor deles se foi. Eu fiquei sozinha e pensando "me queriam viva pra sentir esse desgosto, é?".
Sinto uma constante necessidade de me sentir amada, de sentir que sou o mundo de alguém e que preciso de carinho. Carência é uma coisa terrível. Não aguento mais me sentir insignificante pra esse mundo.
Eu mudei muito durante o ano, amadureci de certa forma, vejo que não faria certas coisas, que fiz besteira, que acertei e errei ao longo de 2019, que não sou a mesma do começo do ano. As pessoas são moldadas por suas experiências, um fato inegável que não pode ser apagado. Não fui falsa, apenas mostrei como estou bagunçada, perdida, sofrendo, infeliz. Fui verdadeira com todos o tempo todo, e isso machuca. Odeio que vejam como sou quebrada e preciso de ajuda, não gosto de demonstrar fraqueza, mas é assim que estou.
Assim como eu mudei e mostrei um lado ruim meu, ele também mostrou. Ele me mostrou um lado que eu nunca iria querer ver nessa vida ou em outras, um lado que eu não amaria, tenho certeza. Porém, sinto que ele vai crescer e amadurecer mais ainda, e espero que escolha melhor as amizades também e que ouça o que alguns amigos tem pra dizer, pois são pessoas racionais e que tem medo de magoa-lo de alguma forma. Eu os amo muito.
Acho que esse foi o meu ano. Foi bom e ruim, eu não sei qual parte pesa mais pra mim, qual foi mais importante. Mesmo tendo sido feliz no começo, não fui no final e isso me deixa confusa.
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Diário da Miki
RandomLugarzinho pra eu escrever tudo o que essa vida de border infernal me traz, mas eu também tenho meus momentos livre disso e esses são os mais importantes.
