Dia 118 - Hey, there

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Não tenho certeza se é assim que a Hannah fala em "13 Reasons Why", mas aqui estou eu, ao vivo e em stereo.

Sobrevivi ao Natal. Surpresos? Eu também. Devo isso aos meus amigos, a quem me mostrou o quanto me ama e que me quer aqui por mais tempo, a minha irmãzinha, ao meu pai que tem lutado tanto pra que eu tenha tudo o que preciso, ao meu cachorrinho, e a mim, que fiz a decisão final. 

Foi a melhor véspera de Natal que tive na vida. Meu pai foi trabalhar e pediu pra que eu e minha irmã fôssemos comprar presentes pra minha mãe e pra ele também. Fomos no shopping que mais amo na cidade, chamamos um amigo nosso e levei o presente da minha amiga de cabelo azul. Passei na loja dela pra entregar o presente e chorei quando abracei ela, até então, eu estava certa sobre a minha morte. Eu ia sentir muita falta dela. Ela me disse pra viver pra ver ela sexta-feira, ela tinha um presente pra mim. Eu disse que iria então. Meu amigo disse pra eu escolher o que eu quisesse na loja que custasse até cem reais. Escolhi dois chaveirinhos funko da Harley Quinn e da Mulher Maravilha. Depois de algumas horas, descobri um dos chaveiros era o que a minha amiga iria me dar, então ela trocou o presente e disse pra eu ir buscar. Era uma Mulher Maravilha, tipo uma action figure, mas do tipo fofa. Linda demais, minha mãe disse que ela se parece comigo.

Como o namorado dela estava demorando pra vir buscá-la e eu já tinha comprado tudo o que eu precisava, fomos andar com ela até o parque pra ela caçar pokémons, acompanhei ela e meu amigo enquanto os dois fumavam na garagem descoberta do shopping (aí fomos expulsos) e depois fui embora. Foi divertido passar esse tempo com eles, eu os amo tanto e são pessoas que se mantiveram do meu lado o tempo todo. Por um momento, senti que uni pessoas, eu, que eu era o centro daquilo tudo, não que foi o meu ex-namorado que me uniu àquelas pessoas, eu estava lá porque os amo, porque são meus amigos e porque eles me amam também.

Fui com o meu vestido rosa novo, que me deu um ar bem praiano. Como eu não tinha nada que combinasse pra calçar, usei o meu chinelo rosa. Estava calor, então deu certo.


De última hora, minha melhor amiga me chamou pra passar o Natal com a família dela, então eu fui com a minha irmã. Foi legal, me senti feliz, bebei pouco, porque não sentia vontade de beber tanto, joguei uno com os primos dela, tiramos muitas muitas fotos.


Até a noite do dia 23 eu estava certa da minha morte. Li coisas que me machucaram profundamente, que me quiseram fazer largar tudo de verdade e ir embora. Sentia que não faria falta pra esse mundo nem pra ele. Ele não me odeia, mas também não me ama. Eu não sabia qual era o pior, dói saber que ele não consegue me ver mais como realmente sou, que só enxerga o monstro em que me tornei, o medo que deixei me tomar, toda a insegurança, tudo. Eu sei listar todos os meus problemas, mas controlá-los é outra história. Me arrependo de ter largado a psicóloga pra poder fazer estágio e ganhar dinheiro, pra ir pra um lugar onde eu não iria crescer, apesar de ter conhecido pessoas amáveis e gentis. Tudo teve um preço, eu só via o dinheiro que poderia ganhar e juntar pra ter algum futuro com o meu ex-namorado, eu trabalhava e estudava incansavelmente até me esgotar. Tudo me engoliu, tudo me esgotou e eu esgotei ele. As pessoas dizem que não é minha culpa, que ele é quem foi imaturo demais. Mas ele sozinho não poderia acabar com isso, ele sozinho não teria motivo pra isso. Eu dei todos. Eu.

Odeio ver o jeito que todos falam dele, como se fosse a pessoa mais horrível do mundo. Me magoa ver essa negatividade chegando até ele quando o que eu mais queria é que ele tivesse paz. Eu sei o quanto ele se importa com o que as pessoas pensam dele, ele sempre foi alguém incrível com os amigos, se preocupando com todos até mesmo quando não quer. Ele quer ver todo mundo bem e feliz sempre e admiro isso nele. É algo que só agora entendo e valorizo. Mas ainda assim, ele sabe quem é, sabe o que é capaz de fazer, sabe que é um ser extraordinário e que não devia se importar com o que as pessoas dizem.


Hoje aproveitei a maratona de filmes de heróis e vi um dos filmes do Homem-Aranha. Achei que fosse chorar do começo ao fim, mas fui forte. Até acho ele menos bobo agora. É um garoto tentando manter tudo em paz e ajudando os amigos e as pessoas próximas, igual ao meu ex-namorado. É, meus pensamentos ainda são sobre ele, é inevitável quando se ama muito alguém mesmo depois de tudo o que passamos. Não é uma tortura tão grande pra mim agora, é confortável amar ele de longe. Acho que tenho medo e vergonha de me aproximar.

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