•Yan.
Já se foram alguns dias desde que a Rainha Íris me falou sobre o colar de Safira. Minha maior irresponsabilidade foi deixar isso ir mais longe do que deveria, a conexão que eu tenho deveria ter sido apenas um segredo, guardado e protegido, mas o egoísmo e a vontade de fugir desse lugar é muito maior.
Duzentos e trinta e nove anos, alguns podem chamar a imortalidade de dádiva, eu costumo chamar de maldição. E o que chamam de maldição, eu considero uma consequência. Minha vida já não é mais a mesma, e ao invés de viver eu tenho sobrevivido de migalhas da pouca esperança que tenho de sair daqui.
A floresta das sombras, mundo do desespero e desprazer, faz juz ao nome. Estar vivendo aqui, preso, imortal, são os motivos pelos quais eu gostaria de estar morto. Alguns julgariam fraqueza, talvez estejam certos, minha mente virou um labirinto desde que ela se foi. Um pesadelo seguido do outro, isso quando consigo dormir sem ter que matar demônios das sombras durante a noite assustadoramente escura.
O meu egoísmo me fez pensar em mim novamente, e nessa estrada confusa que tem sido minha vida, eu só espero que valha a pena. Íris me propôs liberdade dessa floresta, imagino que ela queira tanto quanto eu, já que assim como todos nesse lugar sujo e imundo. Apesar dessa proposta me parecer bem convincente, me pergunto como Íris fará para trazer o colar até a floresta, já que sair daqui não é uma opção e comunicação com qualquer um dos outros quatro mundos é impossível.
Mais um dia se inicia. Me levanto da cama, já usando sapatos, e caminhei até o corredor. Parando na frente da porta mais importante dessa casa, é uma pena que a pessoa mais importante, não durma mais onde deveria dormir. Com um suspiro, apenas pego arco e flecha e abro a porta me preparando para a rotina.
Na floresta, as copas das árvores crescem mais a cada dia, mais uma maldição desse lugar. Os céus são quase inexistentes para nós, dias escuros e noites em breu, nossa sorte é que os seres das sombras só atacam em escuro total, pois podem se mover mais rapidamente e, dessa forma, se sentem seguros. Alguns gostam de brincar com suas presas, se mexendo nas árvores como macacos, fazendo isso como forma de piada, se alimentando do medo. Não é atoa que a floresta tenha nomes tão ruins.
Contornei o lago próximo a minha casa, e fui andando pela floresta até me encontrar no castelo destruído e invadido pelas plantas, Íris estava calmamente sentada em seu trono. Utilizando sua coroa de espinhos, amedrontadora como seus olhos e cabelos negros, unhas grandes e um vestido longo em tons de vinho. Acho engraçado a forma como ela se preocupa com a aparência mesmo estando presa aqui.
Íris: Olá meu bem.- Levantou-se ao me ver entrar.
Yan: Oi.
Íris: É um prazer te ver.
Yan: Íris, vai direto ao ponto.- Suspirei.- Como pretende trazer o colar até aqui?
Íris: Você sempre foi tão estraga prazeres.
Disse se virando e se sentando novamente em seu trono. Ao estender sua mão a mim, utilizando da força de sua coroa, fez-me curvar contra minha vontade. Egocentrismo sempre foi o forte de Íris, diz que mesmo que não tenha súditos, ela ainda deseja o respeito de uma rainha, claramente eu não me importo, e para me comportar como ela quer, Íris utiliza da força da coroa de espinhos.
Íris: Deverias ter sido mais bonzinho meu amor.
Yan: Não espere um pedido de desculpas.
Íris: Como eu disse, sempre fostes o estraga prazeres. Mas não viestes para falarmos de seu desempenho como súdito.
Yan: Você finalmente percebeu?
Íris: Calado meu anjo. Veja bem, o colar está com uma garotinha bastarda.- Deu ombros.- Ela vem logo logo.
Yan: O que espera que eu faça?
Íris: Simples, dê um jeito e tome dela o que é meu por direito.
Yan: O colar não pertence a você. Sabe disso.
Em momentos como esse, eu desejaria não ter dito essa frase. Íris novamente esticou sua mão, e com a expressão completamente diferente da qual antes estava, Íris me fitou como se quisesse me matar. Apenas com o poder de sua coroa, me envolveu com uma corda invisível, e apertou tão forte que era como se estivesse quebrando todos os meus ossos.
Íris: Nunca repita isso, caso contrário...
Fechou a mão. Isso intensificava minha dor, e aumentava o olhar fulminante em seu rosto. Até que, ao abrir sua mão e olhar suas unhas, a dor se esvaiu.
Yan: Certo.- Tossi.- Eu entendi que não gosta de ser contrariada.
Íris: Sua sorte é que eu te amo meu bem.- Se aproximou.- Use meu amor em teu benefício, traga o colar até mim no momento em que ele atravessar as árvores dessa floresta maldita. E tua liberdade será teu maior presente.
Yan: Amor...- Sorri ao cruzar os braços.- você tem uma visão meio distorcida do que isso significa.
Íris: Tens razão, eu amo de um jeito diferente. Não desfaça de meu amor Yan, e terá tudo.
Enquanto falava, caminhava em circulos em minha volta, dizendo cada palavra de forma arrastada e baixa, próximo ao meu ouvido. Era ameaçador e era o jeito de Íris, sempre foi assim.
Íris: Mas meu bem, se desfizer de meu amor, sofrerás as consequências.- Sorriu e se sentou.- Pode ir, e volte até mim no momento em que estiveres com o que me pertence.
Existem criaturas nessa floresta, além de mim que temem Íris e temos razões para isso. Nosso império já foi um lugar normal como os outros reinos, mas desde que Íris se sentou no trono, as coisas tem estado diferentes. Ela busca o colar de Safira a todo custo e eu entendo o seu desejo, essa jóia tem um poder incrível.
Dizem que há mil anos, os céus presentearam três irmãos com as jóias da Sombra, Luz e Tristeza. Claro que a história inteira é repetitiva e quando os irmãos morriam, as jóias eram repassadas aos escolhidos por elas ou por seus antigos donos. Eis o impasse de Íris, por ser a sobrinha de Safira, a última dona do colar, se acha no direito de ter a jóia para si.
Eu sei o perigo que seria Íris com todo esse poder, mas sinceramente, meu maior desejo é fugir desse lugar, mesmo que para isso me custe viver escondido. E essa minha conexão com o colar vai me ajudar nessa. Só espero acabar o serviço rapidamente, antes mesmo do sol se pôr.
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Stella
FantasiaSer um nada em meio a própria vida pode parecer estranho apesar de normal. Stella, uma garota de poucos anos, descobre em menos de um mês, que tudo pode se resumir em sombras e tristeza, rainhas más, estrelas, uma floresta escura e amigos de raças d...
