— Estranho — enfim consegui descobrir como meu irmão havia chegado até ali. Mas isso não explicava a placa de venda e mais uma dúvida surgiu: quem deixou meu irmão no bangalô?
— É — Sky retornou — Não achei.
— Eu disse.
— Qualquer hora ele aparece — Sky pegou Nolan do meu colo — Alias, você sabe algo sobre a residência deste garoto? Ele disse que alguém colocou uma placa de venda na frente da casa dele e na placa estava o nosso número.
— Que estranho.
— Foi o que eu disse.
— Tem certeza que era o número daqui?
— Tenho. Eu liguei — respondi sem hesitar.
— Quem colocaria nosso número numa placa de venda? A pessoa pode ter errado algum número ou decidiu fazer uma pegadinha. Um cliente insatisfeito, talvez — argumentou Mell e por mais que aquele ideia fosse superficial demais, podiam haver grandes chances de estar certa.
Sky parecia bastante apegada a Nolan e isso significava que ela não o entregaria para mim caso eu dissesse que ele era o meu irmão. Ela pediria a presença dos meus pais e nem mesmo eu sabia onde eles estavam, e mesmo se estivessem poderiam ser acusados de abandono. A unica maneira de tira-lo dali seria o sequestrando e eu já sabia exatamente como fazer isso.
— Preciso ir, vou dizer aos meus pais que tudo não passou de um grande mal entendido — me levantei — obrigado e desculpe o incômodo.
— Volte sempre, Ethan. Duda gostou bastante de você — disse Sky.
— Pode deixar, em breve voltaremos a vender nossos produtos — dei as costas, mas não sem antes olhar Nolan mais uma vez. Ele estava mesmo maior. Após sair do Bangalô, voltei rápido para casa e encontrei Julian e Vanda na cozinha. Ambos com as mãos sujas de farinha branca.
— Oi Ethan, que bom que voltou — disse Julian me recebendo.
— Falso — em seguida foi a vez de Vanda falar.
— Que diabos estão fazendo? — perguntei enquanto adentrava mais ainda na cozinha, analisando cada bagunça presente.
— Estamos fazendo uma torta de maçãs — respondeu Julian.
— Mas não temos maçãs.
— Verdade, mas agora nem precisa mais.
— O idiota do Julian não verificou se tínhamos maçãs antes de preparar a massa.
— E você sabe fazer torta de maçãs? — o questionei.
— Obvio. Você só precisa de farinha, ovos, manteiga, açúcar e leite - respondeu sem balbuciar.
— E as maçãs idiota — acrescentou Vanda.
— Não, elas podem ser inteligentes — ele riu.
— Que?
— Que?
— Me esperam sair pra terem a chance de destruir a casa. Incrível.
— Falando em sair, conseguiu o que queria? — Julian demonstrou um alto nível de curiosidade.
— Não muito, mas encontrei o meu irmão mais novo. Ele está sob a posse das irmãs, ou pelo menos uma delas. Elas disseram não saber nada sobre o número na placa.
— Seu irmão mais novo está com elas e você não acha isso nem um pouco suspeito? — Vanda atraiu nossa atenção.
— Claro que acho. Apesar delas realmente aparentarem não saber nada sobre a placa, o fato de estarem com o meu irmão as colocam numa posição altamente suspeita.
— O quê elas disseram?
— Nada útil, elas nem sabem que ele é o meu irmão. Descobri que alguém o deixou no bangalô delas e agora eu preciso traze-lo para cá.
— A polícia seria de grande ajuda — disse Vanda.
— A polícia iria querer saber onde estão os pais da criança. Sem contar que nos mandariam para outro orfanato.
— Ethan está certo, a polícia só atrapalharia — Julian concordou comigo.
— Então o que vai fazer?
– Eu tenho uma ideia, mas pra isso vou precisar da ajuda de um homem adulto — expliquei.
— Pra quê exatamente?
— O plano é simples, Julian e eu iremos até a cidade e encontraremos um homem qualquer para subornar. Vamos lhe oferecer dinheiro para que ele faça sexo com as irmãs, com as duas ao mesmo tempo. E é aí que o Julian entra no plano novamente, ele vai se esgueirar pelo bangalô, encontrar meu irmão e trazer para mim, que estarei esperando do lado de fora.
— Por que sou eu que tenho que entrar?
— Você é o mais sorrateiro — respondi, cruzando os braços.
— E tem todo um perfil de ladrãozinho — Vanda sentia prazer em provocar Julian e isso ficava estampado em seu rosto.
— E você tem todo um perfil de futura gerente do bangalô.
— Eu explico o meu plano e vocês ficam aí brigando igual idiotas? Não podem ser civilizados nem uma vez?
— Ah claro — Julian me encarou — É fácil falar de civilização quando se cria um plano onde não precisa fazer nada pois o seu amigo já vai estar fazendo tudo.
— Não vai ser bem assim não. Eu vou ter um papel muito importante do lado de fora do bangalô.
— Qual exatamente?
— Me certificar de que não chegue nenhum cliente para atrapalhar.
— É um bom plano — Vanda enfim demonstrou estar do meu lado — tem algo que eu possa fazer?
— Você vai ficar aqui cuidando da casa — a respondi, por mais que quisesse a implantar no meu plano, eu não conseguia pensar em nada que a fizesse ser importante naquilo. Eu e Julian eramos o suficiente para tudo dar certo.
— Ou seja, sou inútil nisso tudo?
— Eu não diria inútil, mas é que são necessários apenas três pessoas para tudo dar certo. O homem, Julian e eu.
— Está vendo, essa é a grande diferente entre nossas utilidades — Julian a provocou.
— E também não quero que corra nenhum risco caso algo saía do controle — continuei explicando.
— Então quer dizer que eu posso sofrer riscos e ela não?
— Claro, você já está acostumado com esse tipo de situação. Esse é seu ponto forte, lidar com situações de alto risco — apelei para o seu ego numa tentativa desesperada de apaziguar tudo e isso funcionou.
— Faz sentido — ele colocou a mão no queixo — mas e o terceiro indivíduo?
— Esse é o mais fácil, só precisamos ir até a cidade. A metade daqueles homens vivem a base de bebidas e prostitutas, não teremos dificuldades em encontrar alguém disposto a ajudar em troca de dinheiro.
— Isso é verdade, até porque eles vão estar ganhando dinheiro e uma prostituta de bônus — Vanda prosseguiu com minha explicação.
— Duas, na verdade. Ele precisa ficar com as duas para que o bangalô fique a mercê do Julian — a corrigi.
— Mas então, quando pretende por ele plano em ação? — Julian esfrefou as mãos.
— Ainda hoje, antes do entardecer.
— Não quer esperar até amanhã?
— Já esperei demais, tenho a chance de recuperar um dos membros da minha família e não vou desperdiçar. Agora terminem logo essa torta pois estou cagado de fome — dei as costas para eles.
— Oh putinha, essa frase é minha — Julian reclamou enquanto eu deixava a cozinha.
Algum tempo se passou desde a tentativa fracassada de Vanda e Julian de fazer uma torta de maçãs. O resultado final foi uma espécie de borracha meio branca, meio acinzentada e marrom. Mole de um lado e áspera do outro, grudenta e escorregadia. Era simplesmente algo sem explicação.
— Do que está rindo? — reclamou Julian, ele estava revoltado com as piadinhas de Vanda.
— Você fez a réplica exata da buceta da sua mãe — Vanda precisou se encostar no armário pois perdeu o equilíbrio de tanto rir e devo admitir que aquilo estava muito engraçado.
— Sua vaca — Julian enfiou a mão dentro da massa bizarra e ameaçou jogar em Vanda, esta correu em minha direção, me colocando automaticamente no fogo cruzado.
— Ethan, fale para ele não fazer isso — pediu, parando bem na minha frente.
— Fiquem quietos vocês dois — Julian estava furioso e decidiu ignorar a minha ordem, com um movimento preciso ele arremessou a massa grotesca na direção de Vanda, que ligeiramente se abaixou, desviando da bomba e me deixando na linha de frente. A torta deformada acertou em cheio o meu rosto.
Ambos ficaram imóveis me encarando, esperando a minha reação explosiva diante da baderna desnecessária.
— Eita — disse Julian.
— Eu não acredito nisso, que caralho — reclamei enquanto me limpava — vocês são o que? Animais idiotas? Tanta coisa séria pra resolver e vocês decidem me acertar com a massa embucetada da mãe do Julian.
— Oh seu merdinha — Julian voltou a reclamar após perceber que eu havia me deixado levar pela zoeira. Nem preciso dizer que depois daquilo uma grande guerra de massa se iniciou. Eramos como soldados numa fronteira inimiga, desviando de balas, escondendo-se atrás de barricadas e planejando os próximos ataques em uma casamata. O resultado de tudo aquilo nada mais foi que uma cozinha suja e revirada.
***
— Eu nunca vou me esquecer desses pequenos momentos — disse Ethan finalmente tomando coragem para olhar para o rosto de Elizabeth — Estamos sempre reclamando da vida ruim, dos momentos difíceis e das dificuldades. Ignorando o fato de que são eles quem nos fazem entrar em êxtase ao recordar das pequenas alegrias momentâneas.
VOCÊ ESTÁ LENDO
A Garota Em Coma
RomanceEthan, um ex-soldado que sofre de esquizofrenia começa a trabalhar em um hospital e lá conhece Elizabeth, uma paciente que está em coma e terá seus aparelhos desligados em cinco meses.
