— De que diabos está falando? — Kathy o empurrou.
— Você me faz lembrar de uma garota que conheci na infância.
— Que bonitinho, eu poderia ser essa garota? Não seria incrível essa coincidência. Ou digamos, ironia do destino?
— Impossível — Julian deu as costas e andou até o sofá.
— Por que? — Kathy o seguiu.
— A pessoa de quem estou falando já morreu à muito tempo. Bem na minha frente — Ele sentou-se e jogou o corpo para trás.
— Eu sinto muito — ela se sentou ao seu lado.
— Relaxa, foi a muito tempo.
— Mas parece que isso ainda te afeta, ou estou enganada?
— Está enganada.
— Não parece, seu semblante mudou.
— Não é nada.
— Então você é do tipo sentimental que tenta esconder os sentimentos e disfarçar com piadinhas e gestos idiotas? — Kathy o deu uma cotovelada no ombro.
— Não é bem assim, eu apenas tento trazer alegria para as pessoas que eu gosto. Sem que elas partam sem saber o quão importantes são para mim — Julian suspirou.
— Isso tem algo haver com essa garota?
— Vanda? Eu não sei. Ela se foi sem que eu pudesse a dizer o quão importante ela era para mim, para o Ethan. Estávamos sempre brigando, mas no fim acabavamos fazendo as pazes e rindo de alguma besteira.
— Como ela morreu?
— Isso não importa mais. Demorei muito tempo para convencer o Ethan de que não havia sido sua culpa.
— E porque a morte dela seria culpa dele?
Hospital
Ethan parou de falar e por alguns momentos se deixou levar pela monotonia do silêncio e pelo desespero dos gritos em sua mente.
— As coisas estavam correndo muito bem. Por alguns dias pensávamos ter superado tudo, a dor, a perda das pessoas que amávamos e a solidão. Mas a verdade era que iríamos perder ainda mais, iríamos chorar ainda mais...
***
— Qual corte vão querer que eu faça nele? — O barbeiro nos perguntou enquanto Peter sentava-se numa das cadeiras de uma maneira bem desengonçada.
— Primeiro queremos que corte toda essa barba ridícula — disse Julian e aquilo chamou a atenção de Peter.
— Ei, toda não. Minha barba é meu tesouro.
— Peter, você morava na rua. Seu tesouro parece não valer nada. Vida nova, cara nova.
— E o cabelo, como vai ser?
— Deixe só três dedos. O resto pode rapelar. E não deixe nenhum bigodinho escroto ou eu vou arranca-lo no soco – Julian deu as últimas instruções, da sua maneira e ambos decidimos esperar do lado de fora da barbearia.
— Acha que vai dar certo? — perguntei, sentando no degrau da calçada.
— É tiro e queda, se o paspalho não arregar na hora. É claro.
— E se elas forem atrás da gente?
— Não seja idiota, é impossível elas saberem que fomos nós. E o irmão é seu, você tem todo o direito de quere-lo por perto.
— Você tem razão.
— Eu sempre tenho.
Ficamos cerca de uma hora e meia esperando o barbeiro terminar com Peter, mas no fim valeu a pena pois ele saiu do estabelecimento completamente mudado. Era como se nunca tivéssemos o conhecido, estava com o cabelo arrumado e sem barba, revelando seu rosto de uma maneira que nunca havíamos visto antes.
— Agora sim está perto de se parecer com um humano — disse Julian levantando-se e eu fiz o mesmo.
— Eu gostei — Falou Peter olhando seu proprio reflexo na vidraça da padaria que ficava ao lado da barbearia.
— Agora vamos para o plano final — Julian ficou animado, estava ansioso para meter em problemas. Ele gostava daquilo, era como se dependesse de uma boa confusão o envolvendo.
— E qual é? — Peter quis saber.
— Você vai pagar um programa com duas prostitutas ao mesmo tempo — Ele foi direto ao ponto.
— O QUE?
— O quê o caralho, você ouviu bem. Esse é o plano final e nada de terminar o serviço em trinta segundos hein. Vamos precisar de no máximo dez minutos — explicou Julian.
— Eu não vou fazer sexo com ninguém, porque deveria? Ainda mais com prostitutas — Peter discordou.
— Olha aqui seu saco de pano, sua tarefa é nos ajudar em tudo, se esqueceu?
— Precisamos que faça isso — falei, iniciando minha explicação — você terá que pagar para ter as duas ao mesmo tempo. Isso vai deixar o local livre para que o Julian entre e pegue uma coisa lá dentro.
— Que coisa? Estão querendo roubar?
— Não precisamos roubar, temos dinheiro suficiente para comprar qualquer coisa — Julian respondeu no meu lugar.
— Elas estão com algo que nos pertence e queremos de volta. Para isso precisamos distrai-las para só aí poder pegar o que é nosso. É isso — terminei a explicação e apesar de não estar nada satisfeito com aquilo, Peter aceitou a tarefa.
— Isso é tão imoral — reclamou, enquanto andávamos pela rua.
— Você não tem direito de falar sobre moralidade — Julian logo o atacou.
— Só porque moro na rua não significa que não tenho senso de moralidade.
— Se fosse só por is... — cutuquei Julian antes que ele falasse além da conta. Qualquer pequeno detalhe poderia servir de gatilho para que as lembranças de Peter voltassem.
— Então devo distrai-las até que o baixinho entre e pegue o que é de vocês, mas e se algo der errado?
— Só vai dar errado se você errar.
— Esse é o problema, não sei se sou capaz de realizar uma tarefa tão complicada.
— Ah me poupe, o que têm de tão complicado em transar? Eu mesmo podia fazer isso, mas infelizmente fui encarregado do mais importante — Julian se vangloriou.
— Julian, você nem pinto tem — não consegui resistir a vontade de provoca-lo.
— Ethan, o que acha que eu usei para desentopir a garganta da sua mãe?
— Sério, vocês são bem perturbados — comentou Peter e por algum motivo ele tossil.
— Está engasgado Peter? Precisa de uma ajudinha aí? — Julian estava estragando a serenidade do momento.
***
— Julian sempre teve essa incrível habilidade para transformar momentos tensos em piadas descontraídas. Talvez seja por esse motivo que eu goste tanto de tê-lo por perto. A positividade que falta em mim sobra em dobro nele — Ethan olhou para a porta aberta do quarto, talvez fosse preciso fazer uma nova ronda para ver se havia algo sujo a ser limpo — preciso checar algumas coisas, volto daqui a pouco — Ele se levantou, verificou se Elizabeth estava confortável e em seguida deixou o quarto, seguindo para o corredor da direita.
Já na casa de Julian, ele explicava algumas coisas para Kathy. Coisas que envolviam a pesada culpa que Ethan carregava em relação a morte de Vanda.
— Mas enfim, que fotos são essas? — Ele voltou a se focar no assunto anterior.
— Veja por si mesmo — ela o entregou.
— Caramba, que linda — disse Julian ao ver a foto de uma grande residência que ficava em um bairro prestigiado.
— Sim, essa é a casa onde Nolan está ficando nesses dias. Ela fica próximo ao bairro onde a avó de Elizabeth morava e tudo indica que ele se mudou para esse bairro a pouco tempo.
— Isso não faz muito sentido, porque se mudou agora e não antes? Quando ambos estavam juntos.
— Eles moravam na casa principal dele que fica em outra cidade. Por algum motivo Elizabeth estava a caminho da casa de sua avó quando sofreu o acidente que a colocou em coma.
— Como pode afirmar isso?
— O trajeto que ela estava fazendo indica isso e eu vi no histórico de chamadas dela que naquele dia ela fez apenas duas ligações. Uma para a avó e a outra para Nolan. Na verdade essa segunda ligação não foi feita e sim recebida, Nolan ligou para ela dois minutos antes do carro bater.
— E como essas informações chegaram até você?
— Eu já disse, tenho minhas fontes e meus segredos. Vamos nos focar nas fotos. Ok?
— Filho da puta — Julian não se controlou ao ver a próxima foto e Kathy começou a rir enquanto batia palmas. Na foto, Nolan estava próximo a uma loja beijando uma linda mulher — essa era a minha namorada.
— Eu sei. Não é demais? Eu não precisava te mostrar isso mas achei que seria divertido que você soubesse quem roubou sua mulher.
— Vai se ferrar — Julian jogou a foto no chão.
— Não faz isso — Kathy a pegou — eu vou mandar fazer um quadro pra você.
— Infeliz — Ele tentou roubar a foto mas não conseguiu.
— Não mesmo. O Ethan tem que ver isso.
— E você tem tem que ver isso — Julian enfiou a a mão entre as mechas do cabelo de Kathy, a puxou para si e lhe deu um beijo.
Enquanto isso...
— Está satisfeito? — perguntou Ethan observando Beto tomar até a última gota de água existente no copo.
— Eu estou, mas e você?
— Não entendi.
— Você está diferente. Não é o Ethan de antes, parece insatisfeito com algo.
— Não é nada.
— Não minta pra mim, eu não sou um velho caduco. Bem, não completamente.
— Eu não consegui salva-la.
— Uma afirmação direta?
— Uma visão afirmativa.
— Uma visão afirmativa baseada na realidade em si? Ou baseada na realidade que você criou?
— É a mesma coisa.
— Não mesmo. Se quer salva-la então salve.
— Eu tentei.
— E por causa disso não pôde tentar outra vez?
— Eu não posso fazer nada, vão desligar os aparelhos dela e a única coisa que posso fazer é ficar parado contando a droga da minha vida pra ela sem nem ao menos saber se ela está escutando. Eu falhei com nossa promessa.
— Então tem uma promessa?
— Não é bem uma promessa, eu acho.
— Comte-me mais — Beto colocou o copo sobre uma mesinha que ficava ao lado de sua cama.
— Eu disse a Elizabeth que quando eu terminasse de contar a minha história ela teria que acordar. Fiz ela prometer... não, quase isso. Não teria como ela prometer por estar em coma en...
— Eu entendi, não precisa explicar. Ela prometeu acordar após ouvirsua historia. Conciente ou nao, ela prometeu. Acredite nisso.
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A Garota Em Coma
RomanceEthan, um ex-soldado que sofre de esquizofrenia começa a trabalhar em um hospital e lá conhece Elizabeth, uma paciente que está em coma e terá seus aparelhos desligados em cinco meses.
