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- Foi algo bem divertido, para nós, é claro - Ethan apoiou as mãos sobre a cama - Peter ficou lá, no meio do chiqueiro enquanto eu e o restante preparavamos para o início do que seria um grande limpeza. Julian posicionou-se próximo ao registro, Vanda segurou a mangueira a alguns metros de Peter, como um fuzileiro apontando para o seu alvo desprotegido e eu fiquei alguns passos atrás dela apenas esperando para ver no que tudo aquilo iria dar.
Em algum lugar da cidade...
Nolan estava de pé, parado no centro de uma enorme sala olhando para o carpete vermelho abaixo de seus pés. Estava pensativo e decidido a fazer o que fosse preciso para resolver seus assuntos pendentes envolvendo Elizabeth.
Ele levou a mão em um dos bolsos de sua calça jeans e sacou seu celular, percorreu a extensa lista de contatos e clicou naquele cujo o nome era "Franklin". Em seguida levou o aparelho até a orelha e ficou impaciente com as frações de segundos que o contato levou para o atender.
- Sem papo furado - falou após ser atendido - mudança de planos, resolva tudo isso em três dias... - Ele começou a andar para todos os cantos possíveis da sala, sem um destino fixo, deixando bem claro sua impaciência ao telefone - Eu não quero saber, tenho dinheiro para comprar todo aquele maldito hospital então faça acontecer. Eu quero aqueles aparelhos desligados em três dias e a sua obrigação é fazer acontecer. Não vou permitir falhas.
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- Liga logo isso! - Vanda estava ansiosa para fazer aquilo e por precaução eu dei mais alguns passos para trás.
- Calma aí, esse registro está muito duro - Julian articulava enquanto tentava girar o registro enferrujado.
- Julian - o chamei.
- Calma aí, Ethan.
- Julian - voltei a chama-lo.
- Espera cacete, estou quase...
- Julian! - dessa vez elevei o tom de voz.
- O quê foi, infeliz?
- Você está girando para o lado errado.
- Ah eu não acredito - Vanda fechou a cara, naquele momento sua vontade era bater com a mangueira nas costas de Julian.
- Ao invés de abrir, você está fechando ainda mais - expliquei.
- E por que não disse antes? Porra. Porque não disse que esse registro era diferente dos outros?
- Mas ele não é diferente, você que é burro mesmo.
- É diferente sim - Ele insistiu.
- Abre logo isso ai, o único diferente aqui é você, seboso - Vanda claramente estava impaciente, ela queria de qualquer maneira jogar água em Peter, que permanecia parado no mesmo lugar, sem entender nada.
- Isso é mesmo necessário? - enfim ele se pronunciou, atraindo a nossa atenção - Eu poderia, sei lá, tomar banho como tomo mundo?
- Mas você não é todo mundo, você é todo imundo - Julian respondeu, conseguindo finalmente girar o registro usando toda a força possível, o que acarretou em sua queda no chão.
- Agora são dois porcos sujos - Vanda não perdeu a oportunidade de rir daquilo. Mas sua atenção logo se voltou para a pressão da água fazendo a mangueira vibrar em suas mãos.
E então aconteceu, como a rajada de um foguete cruzando os céus. Assim foi o primeiro jato de água indo em direção ao peito de Peter que em resposta deu alguns passos para trás, ele levou a mão até o rosto para proteger-se. Vanda não estava conseguindo controlar a mangueira então Julian correu até ela é ambos conseguiram conter os coices causados pela água.
- Toma isso, miserável - Julian ergueu um pouco mais a boca da mangueira, mirando no rosto de Peter.
- Sofra as consequências - Vanda o ajudou.
Eles não perceberam, mas Peter não estava demonstrando dor ou insatisfação com a situação. Do contrário, ele estava sorrindo, eu pude ver nitidamente, era um sorriso. Talvez o jato de água não o afastasse tanto como a nós, pequenas crianças.
- Parem, por favor - pediu ele enquanto toda a sujeira deixava o seu corpo.
- Não mesmo, ainda sinto seu cheiro de cu peidado - respondeu Julian e por algum motivo aquilo fez Vanda perder todo o controle e cair numa risada profunda.
- Cu peidado? Que merda é isso? - Ela perguntou em meio a gargalhada e por conta disso ambos perderam o controle da mangueira, fazendo a boca se voltar contra ambos. Mas o azar foi todo de Vanda, que recebeu um forte jato no peito e esse a fez cair para trás.
- Viu só idiota, você não segurou direito - reclamou Julian vendo a mangueira dançar no chão, recoxeteando de um lado para o outro como uma serpente dando botes.
- Cu peidado - Foi só o que ela conseguiu dizer, ainda presa em sua crise de risos. A água molhou todo o chão, mas o lado bom era que Peter finalmente encontrava-se apto para a próxima etapa do plano.
- Vocês são uma vergonha - andei até Vanda e a ajudei a se levantar, sua blusa alaranjada estava com a gola um pouco abaixada, revelando algo que me chamou atenção. Um Pequeno detalhe abaixo de sua clavícula.
- O quê está olhando - ela reclamou, ajeitando a blusa.
- É um coração, que legal esse desenho.
- Não é um desenho - ela puxou a gola novamente, revelando a pequena mancha avermelhada que possuía a forma de um coração. Julian correu para ver, curioso em saber sobre o que estávamos falando.
- Se ele pode ver os peitoes eu também posso - Julian encarou a mancha.
- Não seja otário.
- Uma pereba.
- Seu cu. É uma mancha de nascença - Vanda voltou a ajeitar a gola.
- Babaquice, perdi meu tempo vindo aqui.
- Ninguém te chamou, eu estava mostrando ao Ethan.
- Ethan e eu somos carne e unha. O que ele vê, eu também vejo.
- Ele vê o próprio pinto todo dia, significa que você também vê?
- Caramba, vocês são crianças bastante perturbadas - Falou Peter começando a tremer devido ao frio.
"Cale a boca", Julian e Vanda falaram quase que em sincronia.
- Bem, vamos prosseguir com o plano, vou buscar algumas roupas do meu pai e já volto - dei as costas para os três e aprofundei casa a dentro. Subi para o segundo andar e tinha como destino o quarto dos meus pais, local onde encontrava-se o guarda-roupa. Dentro havia algumas roupas surradas e empoeiradas, mas iriam servir para a situação.
Minutos depois estávamos analisando Peter, a calça marrom poliéster havia lhe caído muito bem, seguido de uma blusa azulada de pano fino.
- É, tá quase humano - disse Julian posicionando a mão no queixo.
- Obrigado pelas roupas - Peter agradeceu enquanto analisava a si mesmo.
***
Julian estava sentado no sofá de sua casa, esvaziando algumas caixas velhas de sapatos quando ouviu alguém bater na porta.
- Oh inferno - sussurrou enquanto levantava-se e ia em direção a porta. A abriu e se surpreendeu ao ver quem era.
- Olá - Disse Kathy adentrando na casa, quase que o empurrando.
- Hein? Como assim você saí entrando sem ser convidada?
- Cale a boca, temos que conversar.
- Como vamos fazer isso se eu calar a boca? - ele fechou a porta.
- Eu descobri algumas coisas sobre o nosso amiguinho Nolan, pretendia dizer tudo ao Ethan mas ele ainda não chegou do trabalho - Kathy segurava algumas fotos.
- Descobriu o que? E como?
- Eu mexi alguns pauzinhos, vocês não são os únicos com segredos aqui.
- Diz logo o que descobriu.
- Não tão rápido - ela olhou em volta - que grande bagunça.
- Estou me livrando de algumas velharias, não enche.
- Está vendo isso aqui - ela balançou as fotos na altura do rosto - são as coisas que eu descobri sobre Nolan. Mas se quiser ver vai ter que se comportar, que tal fazer um café? Bolinhos?
- Bolinho o caralho - Julian levou rápido a mão direita até as fotos mas fracassou pois Kathy abaixou o braço.
- Bolinhos, agora.
- Nem morto - Ele começou a investir em tentativas fracassadas de conseguir as fotos.
- Pare de agir como criança - Kathy o empurrou.
- Me de logo essas malditas fotos.
- Nossa, que bruto ele - ela riu.
- Agora - Ele aproximou se novamente e ambos começaram a agir como crianças, ele tentando pegar as fotos e ela desviando, até mesmo contornando uma das caixas que estavam no chão.
- Fraco - ela debochou enquanto dava passos para trás até ser encurralada pela parede.
- Sem saída?
- Eu acho que não - Kathy tentou correr para outra direção mas Julian a pressionou contra a parede, fazendo ambos ficaram a milímetros de distância.
- Talvez, sim... - sua vontade de conseguir as fotos foram dando lugar a vontade de beija-la. A proximidade estava mexendo com seus pensamentos, aquela boca, o perfume e o rosto. Era como se aquele jeito provocador o fizesse se recordar de algo, se lembrar de alguém já esquecido a muito tempo.
- Está perto demais.
- É como se eu já te conhecesse de algum lugar...
- Não comece a falar idiotices - ela virou o rosto mas Julian o segurou e o trouxe para o seu novamente.
- O quê? Agora vai querer me beijar?
- Aquela garota, claro. Como eu pude esquecer? Você me lembra ela. Vanda - ele deslizou os dedos sobre seu rosto.
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A Garota Em Coma
RomansaEthan, um ex-soldado que sofre de esquizofrenia começa a trabalhar em um hospital e lá conhece Elizabeth, uma paciente que está em coma e terá seus aparelhos desligados em cinco meses.
