Fico encarando a carta por pelo menos meia hora. Eu chorei muito lendo a carta mas agora não sinto nada, estou sem reação. Cada palavra que ele disse me tocou de um jeito diferente e cada detalhe contado nessa carta fez meu coração apertar.
Ele lembra da roupa que eu vestia quando a gente se conheceu... Ele lembra da primeira vez que dormimos na mesma cama... Ele lembra quando percebeu que me amava.
Quando eu paro pra pensar não consigo lembrar de um momento específico que eu tenha percebido que amava ele. Eu só me dei conta quando ele disse que me amava, e eu percebi que não conseguiria passar um dia sem pensar nele.
Mas se eu penso bem, eu já o amava bem antes disso. Meu coração já era dele no dia em que colamos nossos lábios. Mas será que vale a pena? Simplesmente voltar com ele depois de ele ter dito aquelas coisas horríveis sobre mim.
'Ele não te conhecia naquela época', meu subconsciente me lembra.
O pior é que cada palavra sua parece sincera.
Eu não deveria nem estar considerando voltar com Caio, mas eu estar feliz não vale a pena? 'Vou para sempre saber que você foi o meu primeiro amor', eu não sei exatamente porque, mas essa frase pesa demais.
Eu só queria poder abraçá-lo agora, sentir suas mãos acariciando meus cabelos, sentir seu cheiro. O mais próximo que eu cheguei disso nesses últimos dias foi esse ursinho, no qual estou ridiculamente abraçada com força como se fosse uma espécie de talismã para esquecer os problemas à minha volta.
Se for ver, não tem porquê não estar com ele, certo? Quer dizer, ele não se lembrava de ter dito aquelas palavras então, tecnicamente, ele não mentiu pra mim.
'Para de ser trouxa, Catarina!', meu subconsciente me repreende, mas eu o calo.
Me levanto na cama em um impulso.
Fico em uma luta mental contra mim mesma.
Temos o lado 1: 'Você tá na mão dele'; e o lado 2: 'Você merece ser feliz com ele'. No momento estou mais inclinada para o lado 1. Querendo ou não, ele disse aquelas coisas sobre mim.
Mas ele também pediu desculpas e disse que só falou aquelas coisas para se livrar dos amigos.
Mas desculpas não são suficiente. E amor também não.
Fico parecendo uma louca enquanto o lado sensato e o lado burro(do amor) discutem entre si.
Eu amo ele. Amo ele de verdade, como nunca amei ninguém. Além do mais, esse ano é o último do Caio. E se eu não tiver mais nenhuma oportunidade com ele? E se ele for fazer uma faculdade em outro estado, ou se mudar pra outro país? Eu nunca me perdoaria por não ter nem ao menos tentado ficar com ele.
E se for ver, a gente nunca se deu uma chance de verdade. Estava tudo bem, até ele me pedir em namoro e nós namorarmos por uma semana, nos separamos por uma semana, voltamos a namorar e ficamos juntos até as estaduais. Isso não pode ser considerado um namoro.
E apesar de eu estar realmente cansada desse vai-e-vem com o Caio, eu o quero como nunca quis ninguém na minha vida.
Eu quero estar com ele, eu quero estar com o Caio! Tenho uma epifania.
Foda-se o que os outros vão achar, eu quero estar com ele, isso não conta? Eu quero estar com ele, e só com ele.
Desço as escadas às pressas. Eu deveria pensar com mais calma, mas já perdi tempo demais longe de quem eu amo.
Sem planejamentos, sem ninguém dando opinião, sem nada, eu me permito ser impulsiva ao menos uma vez na vida. Sem pensar nas estaduais, na minha mãe ou no meu futuro, pensando apenas na minha felicidade.
"Pra onde você está indo?", minha mãe me pergunta da cozinha.
"Eu... Eu preciso falar com ele.", digo convicta.
Minha mãe abre a boca de surpresa e solta a panela, vindo até a mim.
"Mãe, por favor, não tenta me convencer do contrário", digo sentindo meus olhos marejarem.
Para minha surpresa, ela me abraça.
"Estou feliz que pelo menos uma vez na vida você está pensando em você", ela diz em meio aos meus cabelos.
Franzo o cenho com um sorriso desconfiado em meu rosto, "Sério?", ela respira fundo.
"Eu sei que não sou a mãe do ano, mas você já tem 18 anos. Eu não posso mais tentar te proteger de tudo, você tem que aprender a se cuidar, por mais difícil que seja pra mim", ela sorri, "Agora, você precisa pensar em você. Na sua felicidade, não na de Caio, não na minha. Na sua. É isso que você realmente quer?"
A encaro pensativa por meio segundo, então balanço a cabeça positivamente com força.
"Então, vai pegar teu homem", ela sorri e dá um tapa na minha bunda.
Balanço a cabeça freneticamente e sorrio, dando às costas.
"E Cat!", ela me chama novamente, "Eu não acredito que vou dizer isso, mas...", engole seco, "Usa camisinha, por favor", ela pede.
"Mãe???", arregalo os olhos.
"Que foi? Você acha que eu engravidei do seu irmão com que idade?", ela coloca suas mãos na cintura.
"Meu Deus, eu vou sair daqui agora", digo colocando a mão na maçaneta.
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penúltimo capítulo.
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Someone To You
Roman pour AdolescentsCatarina é uma adolescente de 17 anos que odeia adolescentes de 17 anos, e no 2° ano do ensino médio a única coisa que ela realmente quer é se formar e acabar com esse inferno. 01 de maio de 2020 - 16 de novembro de 2020. Revisada em 15 de maio de 2...
