Não dormi nem por um segundo essa noite. Várias vezes fiquei no lado de fora com a neblina sobre mim. Fiquei a noite toda pensando. Não imaginava que era possível perder uma coisa que você já não tem..
Já se sentiu, como se você não fosse nada? Pensa em tudo que já fez e tudo que já fizeram pra você e então chega á conclusão de que se você não tivesse nascido, não iria ter diferença nesse mundo e muito menos na vida de alguém.
É isso que eu sinto.
Um vazio. Não tenho nada, nem ninguém. A única coisa que tenho são os meus pensamentos. Para o resto do mundo, eu tento, me esforço para ser uma pessoa boa, que ajuda e tenta passar positividade para todos ao redor. Mas ultimamente, estou largando isso de mão.
Não acho que eu consiga passar um pouco de felicidade ou alegria para alguém. Como se passa uma coisa que você mesma não tem?
Escuto passos e vejo Jackson entrando na enfermaria. "Ah acordou cedo. Bom dia." Ele sorri pra mim com seus dentes brancos. "Acabei de acordar." Minto. Me levanto do chão e saio da enfermaria. Bebo um pouco de água e depois fico observando os soldados.
Estou me sentindo como se estivéssemos indo para um abatedouro. Tantos homens já perderam sua vida e parece que muitos ainda estão por vir. Meus olhos caem no olhar de um soldado. Ele está olhando pra mim com um sorrisinho nojento no rosto. Sua mão se encontra perto da sua virilha.
Acho que está escrito prostituta na minha testa. Não desrespeito a profissão de ninguém. Quem sou eu para falar de alguém? Mas não acho certo que as mulheres façam isso com o próprio corpo. Sei que muitas têm dificuldades, mas fico imaginando como elas se sentem depois.
Isso deve ser muito desrespeitoso.
"Te achei!" Escuto atrás de mim e me viro. Melissa está me olhando com um sorrisinho. Respiro fundo já esperando os insultos. "Já comeu?" Ela pergunta. Fico sem entender sua pergunta. "Já comeu? Tomou alguma coisa?" Ela pergunta. Por que está me perguntando isso? "Hã, não. Só tomei água, por que?" Pergunto completamente confusa. "Queria conversar com você em particular. Vamos comer alguma coisa?" Ela fala.
Acho isso bem estranho. "Vem logo." Ela puxa minha mão. Seguimos um caminho diferente, sem ser para o refeitório. Parece que estamos indo para a parte traseira do navio. "Eu achei um lugar muito bom para ficar." Ela fala.
Ela abre um tipo de alçapão e descemos uma escada. Ela me leva para um lugar escondido do navio. Eu nunca tinha visto esse lugar. O cheiro forte de esgoto é tão forte que me dá ânsias de vômito. É muito escuro, a única claridade é buracos de tiro no metal. "O que estamos fazendo aqui?" Pergunto tampando o nariz. "Você vai ver meu amor." Ela diz.
Tem algo errado.
Antes mesmo que eu consiga falar, ela começa. "Consegui seu primeiro cliente." Tento entender suas palavras. "O que?" Pergunto. Ela começa a rir que nem uma maluca. "Ela é toda sua Robert." Ela diz olhando para trás de mim. Fico sem entender até ouvir passos atrás de mim. Me viro para trás assustada.
Vejo a sombra de um soldado saindo de uma porta, não consigo identificar o rosto. "E..eu não to entendendo." Falo trêmula sem perceber. "Aproveite." Melissa diz rindo. Meu coração começa a se acelerar. Pela primeira vez na vida senti medo dela.
Vejo que ela começa a subir as escadas. "Ei espera!" Vou atrás dela. Até que sinto o soldado me segurar. Olho para seu rosto escuro pela falta de luz. "Me solta por favor." Peço com lágrimas brotando nos olhos. Ele sorri de uma forma nojenta. Esse sorriso...
"Vai ser um prazer ser o primeiro cliente da prostituta de Londres." Ele fala. No mesmo segundo que ele fala, reconheço o sotaque dele. Ele é um alemão. "Ah.. Vo..você é.." gaguejo sobre seu olhar. Ele começa a rir. "Vamos parar de enrolação vadiazinha." Ele me puxa para perto dele. "Não! Por favor!" Começo a gritar e chorar. "Cala a boca desgraçada." Ele fala no meu ouvido e aperta meu pescoço. Toda minha respiração é cortada.
Ele bate minhas costas na parede me fazendo gemer de dor. "Por favor." Imploro. Ele começa a apertar os meus seios com força. Tudo sobre aquele dia volta em minha mente. Ele começa a rasgar as minhas roupas. "Não! Por favor! Eu imploro!" Grito. "Cala boca aberração imunda!" Ele me dá um tapa forte me fazendo cair no chão.
O gosto metálico do sangue toma conta da minha boca. Começo a me arrastar para a escada.
Eu não vou deixar isso acontecer de novo...
"Nós nem começamos boneca." Ele fala e me puxa do chão. Nesse exato momento tento recuperar todas as minhas forças. Dou um chute no meio de suas pernas. "Vagabunda!" Ele grita e cai no chão com as mãos na virilha. Subo as escadas o mais rápido que consigo.
Quando abro o alçapão sinto meu pé ser puxado e eu acabo caindo. "Me solta!" Grito chorando. Dou um chute em seu rosto e ele me larga. Começo a correr. Corro muito. Não vou deixar ele fazer isso. De novo não..
Quando eu estava chegando no refeitório, sinto minha cintura ser puxada com força. "Não!" Choro. "Você não vai a lugar nenhum desgraçada." Ele sussurra no meu ouvido me causando arrepios de medo. "Socorro!" Grito o mais alto que consigo. "Cala boca!" Ele me bate com algo na cabeça. Sinto sangue escorrendo pelo meu rosto.
Tudo começa a ficar completamente turvo. A partir desse momento não entendo mais nada. Não posso dormir, eu preciso falar! Sinto o aperto se soltar e meu corpo se chocar com o chão. Preciso falar!
A única coisa que consigo ver são olhos cor de jade na minha frente. "Alemão." Falo baixo e fraco.
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DUNKIRK
Fanfiction*EDITANDO* Ao meio do caos total, um simples sorriso, uma risada, pode mudar tudo. Talvez para você seja apenas "mostrar os dentes". Mas para uma pessoa que precisa vê-lo é totalmente diferente. Um sorriso é confortante aos olhos de quem precisa del...
