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 Eu estava longe de ser uma pessoa interessante

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 Eu estava longe de ser uma pessoa interessante. Não queria ser uma pessoa interessante, dava muito trabalho. Eu queria mesmo um espaço sossegado e obscuro para viver a minha solidão; por outro lado, de porre eu abria o berreiro, pirava, queria tudo e não conseguia nada. 
— Charles Bukowski.

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JÉSSIKA VELARK

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Devido às dores de Sebastian, fomos ao hospital verificar se algo estava errado com ele. Pela manhã, ele acordou estranho, robótico, me desejou bom dia, dizendo apenas que sentia uma leve pressão nada demais, o que me deixou preocupada ao ponto de marcar a consulta e informá-lo minutos depois de encerrar a ligação.

Enquanto esperávamos para o atendimento, a sensação estranha que estava sentindo parecia maior, intensa ao ponto de me causar desconforto e medo — algo estava terrivelmente errado com ele. Aguardamos por dez minutos, fomos seguindo a recepcionista até o consultório do dr. Denyel, onde entramos em silêncio e nos acomodamos na poltrona acolchoada. 

— Bom dia senhor e senhora Velark — saudou. — Como se sente?

— Bem, ao menos por enquanto — soa vago. 

— Lembrou-se de algo? 

— Sim e não, tudo é um pouco vago.

O médico assente, continuou com as perguntas, o que durou meia hora, nesse tempo fiquei observando quieta, o coração apertado e um mal pressentimento — portanto, exames foram passados para que os fizesse no mesmo dia, em momento algum Velark olhou em minha direção, era como se eu não estivesse ali, por isso optei por esperar na recepção.

Pelas portas duplas vejo Kenji parado, observando o movimento, totalmente atento, encaro minhas mãos trêmulas e procuro respirar fundo. Estava tudo bem. Ficaria tudo bem. 

Em duas horas tudo havia sido esclarecido, graças a Deus, me levanto ao vê-lo vindo até mim, com um menear de cabeça o sigo para fora do hospital, minhas perguntas foram respondidas de modo vago, entretanto, Sebastian me entregou os papeis para que eu lesse os resultados conforme seguiamos para casa — aparentemente tudo estava bem, Denyel havia me mandado um email onde explicada detalhadamente tudo o que dissera ao meu marido, o que me trouxe um alívio deveras momentâneo. Durante o percurso, observo o sol, o céu azul; sinto falta da liberdade, de ter a vida comum, de caminhar durante as manhãs, de trabalhar na cafeteria, enfim, sinto saudades de um tempo que não irá voltar, e isso me desgasta ainda mais emocionalmente.

Desperto de meus devaneios ao sentir sua mão fria cobrindo a minha, não me atrevo a olhá-lo, não quando minha maior vontade é de chorar em algum lugar onde não possa me ver. Ao chegarmos desço primeiro, seguindo diretamente para o jardim onde pudesse passar um tempo sozinha, sinto o sol aquecer meu corpo à medida que caminho por entre as pedras brancas que abrem caminho rumo ao jardim, meus olhos se enchem de lágrimas e as permito cair, soluço conforme a ansiedade se alastra, levando-me a cair de joelhos em meio às diversas tonalidades das rosas, me curvo aos prantos, intercedendo a Deus para que dê-me forças qual não consigo obter sozinha — ergo o rosto, a visão pouco turva, ali consigo notar uma única rosa negra com detalhes azul, brilhando ao sol, meu corpo treme em uma nova onda de choro desenfreado; as lembranças não param um segundo, causando uma avalanche de péssimos sentimentos, não havia um meio coerente de impedir que isso aconteça. Me levanto aos poucos e ergo o rosto para o sol, permitindo que o calor aqueça meu rosto e me livre da escuridão que minha mente e coração haviam se tornado. 

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