Domingo. Abri os olhos ainda com sono. Virei a cara para olhar o relógio. Ainda eram 3h da manhã. O quarto estava totalmente escuro. Virei novamente a cara para tentar dormir, mas não conseguia. Senti a minha boca seca. Levantei da cama, vesti o robe e saí do quarto. Caminhava apalpando a parede à procura do interruptor. Onde está o raio do interruptor? O corredor estava imerso na escuridão e num profundo silêncio. Continuei a caminhar, até ouvir um barulho que me fez parar instintivamente. Não conseguia enxergar nada. Ouvi novamente o barulho, mas não sabia de onde vinha. Continuei parada no mesmo lugar. Senti alguém pegar me na mão, mas não gritei. A minha respiração estava acelerada.
- O que estás aqui a fazer?- fiquei aliviada ao ouvir a sua voz.
- Quase que me matavas. Ia ao bar beber água. Estou com a boca seca.
- Vem, eu levo te.
- Mas e a luz? Eu não consigo enxergar nada.
- Não precisas da luz. Eu sei muito bem o caminho. Para além disso se acenderes a luz, vais acabar por acordar os outros.
- Não me interessa. Eu preciso da luz.- insisti sem mover me do lugar.
- Anda Alice, comigo estás segura.- ele começou a andar puxando me a mão.- Cuidado com as escadas.
- Eu não vou descer as escadas no escuro.- falei parando com receio.
Como ele já tinha descido alguns degraus, puxou me a mão fazendo me cair nos braços dele. De maneira a ficar no seu colo. Senti a minha cara a ficar quente com o que ele tinha acabado de fazer. Ainda bem que estava escuro, porque com certeza a minha cara tinha ficado vermelha. Ele desceu as escadas sem dizer nada, depois foi na direção do bar. Ao menos eu acho, já que não conseguia enxergar nada. Assim que entramos, ele ligou o interruptor. Ficamos a encarar nos, até que ele começava a aproximar a sua boca da minha.
- É Afonso, já me podes colocar no chão.- ele olhou me frustrado e pousou me.- Olha se fizesses isso com a Isabel, ela iria adorar.
- Porque é que falas sempre nela?
- Quando eu digo Isabel também refiro me a outras raparigas.- completei pegando um copo e enchendo o com água.
- Não sei. É que ás vezes dá me a impressão de que tu só te referes mesmo a ela.- falou, começou a aproximar se de mim.- Eu tenho de dizer te uma coisa.
- Afonso, já viste as horas? Uau que pena já é muito tarde. Vamos dormir.- mencionei passando por ele.- Amanhã contas me...ou talvez outro dia....quem sabe.
Peguei na mão dele, que ficou atónito, mas não a tirou. Ele ia me guiando pelo escuro. Quando dei por mim já estava em frente ao quarto. Ele apertou me a mão e foi embora. Entrei e voltei a deitar me na cama. Estava a olhar para o teto ou melhor para o escuro, já que não se via nada. Pensava no que poderia ter acontecido no bar, talvez um beijo. Para falar a verdade eu sempre admiti que o Afonso era bonito. Mas eu devo estar a confundir as coisas. Aliás a Isabel gosta dele, e eu quero ajudá la a ficar com ele. Por isso não posso envolver me com ele. De tanto pensar adormeci.
Acordei, os meus olhos percorreram o quarto. Estava completamente vazio, sem nenhum barulho, o que era estranho. Virei a cara vendo as horas, fechei os olhos novamente. Meu deus, já são 9:50. Levantei da cama num salto, peguei as minhas coisas e saí do quarto, indo apressada para o balneário. Despachei me a tomar banho, vesti me e lavei os dentes. Voltei ao dormitório, atirei as coisas na cama. Desci as escadas rapidamente quase a tropeçar. Quando cheguei, bati com a cara na porta.
- NÃO.- gritei vendo as portas do refeitório fechadas.- Não podem fazer me isso.
- São ordens, menina.- recordou a funcionária.
- Mas você sabe que o pequeno almoço é a refeição mais importante do dia.- supliquei ainda encostada à porta.- Isso não é justo. O pequeno almoço devia ser até ás 10:30.
- Mesmo que fosse também já não podias entrar, até porque são 10:33.
- Uau, três minutos.- disse desanimada.- Faça me um desconto, por favor.- pedi juntando as minhas mãos e cruzando os dedos.
- Não posso, menina.- recusou.
- Já lhe disseram que você está tão bonita? Se não disseram eu digo, você está bonita, magnifica, maravilhosa.- ela ria se com as coisas que eu dizia.- Não me vai mesmo abrir? Nem se eu disser que tem uns olhos tão brilhantes, de uma luz intensa?
- Não.- respondeu a rir.
- Não pode dizer que eu não tentei, não é?- a funcionária simplesmente assentiu. Andei lentamente, ouvindo a minha barriga fazer barulho.- Céus, que fome.
- Menina.- chamou a funcionária, olhei para ela.- Toma e vê se aprendes a lição.- entregou me pão com um pacote de leite.
- Ai meu deus, você é a minha salvação.- abracei a contente, depois afastei me pegando o pão e o leite.- Muito obrigada.
- Não voltes a chegar atrasada. Só te estou a dar porque acho que és uma rapariga educada. E muito engraçada.- disse sorrindo e voltou ao refeitório.
- Já viste Alice? Ser educada tem as suas vantagens.- falei comigo mesma.
- Estás a falar com...?- perguntou Afonso olhando em volta.
- Estava a falar comigo.
- Como sempre atrasada. Agora até ao pequeno almoço.- comentou.
- Só acordei tarde, porque ontem andei por aí ás 3h da manhã. E custou me a adormecer.- informei o, dei uma mordida no pão.
- Tiveste algum pesadelo?
- Contigo? Claro, tenho muitos.- brinquei, ele riu.
- Se fosse comigo, terias tido bons sonhos. Eu não tenho por costume aparecer nos pesadelos.- gabou se, fazendo me revirar os olhos.
- Deve ser deve.- continuei a comer.- E o que é que tu estavas a fazer no corredor, aquela hora?
- Não estava a fazer nada. Simplesmente apeteceu me ir à casa de banho.
- Eu ainda não entendi se aquele balneário é unissexo.- admiti um tanto confusa, ele riu se.- Tu és bom a ver no escuro.
- Então, já ando aqui há um ano, por isso já conheço os cantos todos de olhos fechados.
- Se tu o dizes.- acabei por rir.
Passado uns minutos acabamos por separar nos. Ele foi ter com os irmãos e eu fui para o bar. Encontrei a Rute sentada no sofá, por isso atirei me tranquilamente.
- Estava a ver que nunca mais te via.- comentou olhando me.- Deixa me adivinhar, chegaste atrasada ao pequeno almoço?
- Acertaste em cheio, querida. Acabaram por fechar me as portas. Por pouco que não fiquei sem pequeno almoço. Quer dizer, pensando melhor, eu fiquei.
- Estás a gozar? Não comeste nada? Sabes que não tomar o pequeno almoço faz mal.- alertou me.
- Claro que sei. Não é preciso me lembrares. Mas a funcionária acabou por dar me um pão com leite. Por acaso ela foi boazinha.
- Tiveste sorte.
O resto do dia passou. Como sempre estive dentro do colégio, enfiada no bar. Jantamos e fomos para o dormitório. Era horrível, só de pensar que amanhã já voltávamos as aulas. Vesti o pijama, dirigi me ao balneário. Mal entrei, vi o Afonso a lavar os dentes. Molhei o rosto e comecei a escovar os dentes.
- Tens um pijama giro.- elogiou olhando o meu pijama.
- Oh, achas?- dei uma volta, para ele ver melhor.- Também acho que é bonito. O teu também não fica para trás.
- Achas? Por acaso nunca o achei bonito.- confessou olhando o seu pijama.- Boa noite.
- Boa noite e sonha comigo.
- Vou levar isso em consideração.- piscou me o olho e saiu do balneário.
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O Colégio
VampireApós um acidente trágico, Alice vai para um colégio interno. No colégio, conhece Rute, uma rapariga simpática que faz logo amizade com ela. E também conhece Afonso e os seus irmãos, Beatriz e Henrique, que logo à primeira vista parecem não simpatiza...
