Desconfiança

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Acordei sentindo que tinha dormido dois dias inteiros. Mas não havia como eu saber. Rolei na cama, parecia que ainda sentia sono. Fui fechando os olhos lentamente. Ouvi a porta ser destrancada. Olhei de relance na direção dela, e lá estava o homem. Deitei a cabeça na almofada e fechei os olhos.

- Está na hora de comer.- Ademar disse aproximando se de mim.- Alice, tens de acordar.

- Não...consigo, estou cheia...de sono.- falei lentamente. Aos poucos começava a apagar.

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Despertei. Levantei da cama indo em direção à secretária. Peguei no pão, começando a comer. Logo em seguida bebi o leite. Sentia me sem forças. Acho que mesmo comendo ia perdendo a força no corpo. Ademar apareceu, aproximando se da secretária.

- Ademar, o que vocês estão a fazer comigo? Estou a sentir me muito fraca. Nem sei que dia da semana é hoje.

- Não se preocupe. Isso passa.- pegou o tabuleiro indo embora.

Permaneci um bom tempo sentada, a olhar para um ponto fixo. Andei até à cama lentamente. E deitei me de forma desajeitada. Mas estava sem forças para pôr me direita. Novamente alguém entrou no quarto. Por muito que eu estivesse sonolenta, ainda conseguia ouvir.

- Alice, trago novidades.- não era Ademar que falava, mas era a outra voz familiar.- Fui até o colégio. E devo dizer que eles estão todos desesperados à tua procura. Até chamaram a polícia. Isto é incrível.- enquanto falava parecia que sorria. Ele pegou a minha mão.- Não vou deixar que te façam mal. Tu estás melhor aqui comigo.

Eu debatia me comigo mesma, para não dormir.

- O vestido ficou te lindamente.- elogiou.- Também aproveitei para trazer te os teus pijamas. Trouxe três. Depois se precisares de mais, eu compro.

- Por favor...- tentava falar, mas o sono pesava me ainda mais.

- Sshh. Tens de dormir. É melhor deixar te descansar.- senti novamente os seus lábios frios beijarem me a testa. Depois largou a minha mão indo embora.

***************
Deitada na cama, reparei que já era noite, através da janela. Farta de estar deitada, levantei indo à casa de banho. Permaneci um bom tempo em baixo do chuveiro. Depois de já estar vestida, peguei o livro e fui sentar na secretária. Retornei a ler de onde tinha ficado.

As horas foram passando. E eu já estava cansada de ler. Queria fazer outra coisa. Como é possível neste quarto espaçoso não haver uma televisão? Pensei. Ademar entrou no quarto, com o habitual tabuleiro.

- Achei que era melhor variar a comida.- comentou enquanto pousava o tabuleiro à minha frente.

- Concordo.- disse dando um leve sorriso.

- Devia sorrir mais vezes.

- Tenho a sensação de já me terem dito isso.- desabafei e respirei fundo.- Mais alguém entra aqui no quarto, sem seres tu?

- Não tenho permissão....

- ...para falar sobre isso.- terminei a sua habitual frase.- É que às vezes eu oiço uma voz familiar.

- Todos ouvimos vozes familiares.- disse indiferente.

- Já vi que estás a tentar fugir ao assunto.- observei o tabuleiro com o prato de comida. Era arroz com bife, acompanhado de uma salada.- Está com bom aspeto.

- Então espero que não deixe esfriar.- disse por fim indo embora.

Peguei nos talheres começando a comer. E como tinha referido antes, a comida estava ótima. Pergunto me se é o Ademar que faz a comida. Ele não parece esse tipo de homem. Como devia ter algo na comida, decidi ir já para a cama. Enquanto andava, acabei por dar um pontapé em algo. Olhei para a caixa em frente aos meus pés. Fiquei de joelhos no chão. Abri a caixa e deparei me com os meus pijamas. "Também aproveitei para trazer te os teus pijamas", era o que a voz familiar tinha dito. Peguei num qualquer e vesti o. Senti me confortável. Deitei na cama, o sono apareceu rapidamente.

****************
Abri os olhos lentamente. O quarto ainda continuava escuro devido as suas cortinas. Levantei da cama indo até elas. Como sempre afastei uma cortina. O céu hoje estava limpo. Havia sol, mas dava para notar que não estava muito forte. Lá fora fazia vento, os troncos finos com as folhas, estavam a balançar. Não se via uma única alma, naquela floresta. Aliás se não fosse pelas árvores, eu diria que este lugar era um deserto.

- O que tanto observa lá fora?- levei um susto ao ouvir a voz de Ademar vinda atrás de mim.

- É que apetecia me dar um passeio. Já estou cansada de estar aqui dentro. Vocês vão fazer com que eu fique maluca.- falei indo sentar na cama.

- Não posso fazer nada quanto a isso.

- Porque não me diz quem é que mandou prender me?- questionei olhando o.

- Você não está presa. Tem este quarto que é enorme.

- A sério?- revirei os olhos.- Mas eu não queria estar neste quarto. Acho que preferia mil vezes estar no colégio.

- Você é que sabe.- ele virou se para sair.

- Por favor. Nunca pensei que as pessoas de lá pudessem fazer me falta. Mas a verdade é que elas fazem, e muito.

- Não posso fazer nada.

- É você que faz a comida?- mudei de assunto repentinamente.

- Sou.- respondeu e trancou a porta.

Levantei da cama para ir sentar me na cadeira. Fiquei a comer o pequeno almoço. Enquanto comia, ia lembrando das coisas que tinham acontecido comigo desde que entrei naquele colégio. Os nossos almoços, onde estavam todos juntos. O dia da Páscoa, quando eles decidiram ficar comigo no colégio. A primeira vez em que vi o Afonso. O Joel que ficava sempre a brincar. A Laura que ficava sempre a implicar com todos. A Rute, a Isabel e a Sandra que davam me muitos abraços. A Maria sempre de cima a baixo com o seu terço. Ou as conversas chatas do Sr Armando. Ri me ao lembrar dessas coisas absurdas. E agora que eu pensava nisso tudo, o tal rapaz misterioso nunca mais tinha aparecido. Era me um pouco difícil lembrar me dele. Porque cada vez que ele aparecia e nós falávamos, eu acabava por ficar com sono. Não fazia ideia do porquê. Mas com um pouco de esforço, fui recuando nas lembranças. E parei num dia em que estava na enfermaria. "Nunca me abandones", foi o que eu tinha dito e ele respondeu "Nunca, sua preguiçosa". Ri novamente.

No instante em que lembrei me daquele momento. Apercebi me de que o rapaz misterioso e o individuo com a voz familiar, podiam ser as mesmas pessoas. Porque a pessoa da voz familiar também disse num dia "Eu disse que não te abandonaria". E eles têm o mesmo toque. E a voz era igualzinha. Por isso que a voz era familiar, já a tinha ouvido vezes sem conta. Porque ele já tinha falado comigo várias vezes no colégio. Talvez no momento em que tinha ouvido a sua voz, eu soubesse que era ele. Mas não queria acreditar. Mesmo com aqueles pensamentos a pertubarem me, consegui dormir.



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