Passaram-se duas semanas, a data da minha viagem se aproxima rapidamente. As aulas na faculdade começa em meados de setembro, mas vou viajar antes para organizar as coisas no apartamento e correr atrás de um emprego.
Decidi acertar o "pagamento" que minha mãe estava devendo e com isso ganhei um apartamento em Seattle. Richard disse que vou gostar do lugar e que tem três quartos
Segundo suas palavras, eu poderia levar Olívia e cuidar dela sem compromisso, cada um no seu quarto, inclusive o bebê.
- Estão prontos? - a médica diz, de repente, me lembram que eu não estou sozinho. E pior, não faço ideia do que estou fazendo aqui. Mas vim.
Prometi pra meu pai e Janne que estaria presente, e por algum motivo, também quis estar. Olívia está deitada na maca, com a barriga exposta e uma expressão que mistura nervosismo e curiosidade. Eu, do outro lado da sala, finjo normalidade. A médica fala para Olívia algo sobre "respirar fundo", "gel um pouco frio", mas não presto muita atenção já que não é comigo. Ela ajeita o monitor e coloca o gel sobre a barriga de Olívia.
- Pronto, pode relaxar, querida. - ela diz, em tom calmo. - Vamos ver esse pequeno hóspede aí dentro.
Olívia solta um riso contido. Eu me aproximo um pouco mais, tentando enxergar a tela. A imagem para mim é meio confusa, não consigo identificar nada. A médica move o aparelho com cuidado e de repente um som preenche a sala. Rápido, ritmado, forte: o coração do bebê.
- Esse é o som mais bonito do mundo, não é? - a médica comenta, olhando para nós. - Tudo indica que está tudo bem. Batimentos fortes, desenvolvimento dentro do esperado.
Olívia leva uma das mãos à boca, se segurando para não chorar, mas seus olhos cheios de lágrimas a entregam. Eu fico em silêncio, completamente paralisado, tentando entender o que sinto. É como se pela primeira vez, a coisa virasse realidade, já que a barriga de Olívia não aparece para denuncia que tem algo alí dentro.
- Quer ver, pai? - a médica pergunta, apontando para a tela.
Demoro um instante pra reagir. "Pai". Nunca ninguém tinha me chamado assim, pelo menos não dessa forma. Todo mundo fala como se eu só fosse ser pai quando o bebê nascesse. Me aproximo e observo o borrão que ela indica.
- Aqui... - ela mostra, apontando com o cursor - essa parte mais clara é o embrião. Ainda é bem pequeno, mas já dá pra ver os batimentos e o início da formação do corpo.
Assinto, sem dizer nada. A garganta aperta, o coração dispara, e um calor estranho me sobe ao peito. Não sei se é medo, ansiedade ou outra coisa que ainda não sei nomear. É como se a realidade ganhasse forma, como se aquele som, aquele borrão na tela, dissesse que não tem mais volta. Achei que já tivesse aceitado tudo isso, mas agora percebo que só fechei os olhos pra não encarar de verdade. Ignorei a gravidez de Olívia como quem tenta fingir que nada mudou, até ouvir aquele coração batendo e perceber que já mudou tudo.
- Está de sete semanas - a médica continua, enquanto limpa o gel da barriga de Olívia com uma toalhinha. - A partir de agora, vocês precisam manter os exames regulares. E você... - olha diretamente pra mim - Pode ajudar muito mais do que imagina. A presença paterna nesse período faz diferença. Reduz o estresse da mãe, melhora até o bem-estar do bebê.
- Entendo. Está bem! - respondo quase num sussurro.
Ela sorri, sem acrescentar nada e se volta para Olívia. Tá na cara que tanto eu quanto ela estamos mais perdidos do que cego em tiroteio, mas é como se ela soubesse que aconselhar não iria adiantar de muita coisa.
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Heitor
Teen FictionTodos adoram uma história com um garoto complicado, e aqui você vai encontrar um pouco disso. Mas, acima de tudo, talvez você se identifique com os personagens, já que não há nada de excessivamente fantasioso no mundo adolescente que apresento. Paix...
