Raoni só queria acabar o turno no trabalho e ir para a aula de teatro. Mas, um inesperado e um tanto vergonhoso encontro num ônibus com Isaac, um modelo com deficiência visual, resultou numa história de amor.
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Obra postada...
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Raoni
Os fins de semana não tinham dois dias. Não pra mim.
Sábado era um dia em que poderia fazer o que quisesse. Minha mãe trabalhava, chegava às 20h. Ela mandava limpar a casa e, muito embora uma faxina de verdade nunca tivesse fim, conseguia arrumar tudo de uma forma que ficasse limpo bem rápido e depois ia aonde quisesse, fazia o que quisesse. Passar a tarde tomando sol na praça, ou tomar sorvete na Belmira ou visitar algum amigo ou sei lá, marcar algum encontro no Grindr se tivesse muito desesperado. Podia passar o dia longe dela, do trabalho, do curso e de tudo que me dava dor nas costas.
Domingo era diferente. Além de que minha mãe ficava o dia inteiro em casa no domingo, era dia de visitar meu pai. Não que eu fosse obrigado, mas se não fosse vê-lo, minha avó ficaria me ligando e me atrairia com bolos, tortas, empadas, coxinhas, brigadeiros, mousses...
Minha barriga ficava brigando com meu cérebro, tentando me convencer de que toda aquela comida compensava ter que passar horas conscientemente tentando suprimir e disfarçar qualquer trejeito que pudesse ser considerado afeminado. Fingir ser um personagem é fácil pra mim, eu atuo bem, de verdade, eu sou bom. Mas, fingir ser uma versão diferente de mim mesmo? Isso é uma arte que nunca consegui dominar direito.
Vó Pauline veio pra São Paulo com a família quando tinha dez anos, pernambucana. Foi cozinheira profissional, teve um restaurante conhecido, ganhou até prêmio. Infelizmente, também se apaixonou por um cara que queria abrir uma empresa de informática. Eles casaram, ela investiu na empresa dele e descobriu que o cara não entendia nada de informática. Mais investimento pra ele estudar. Ele não era tão interessado. Tiveram meu pai. Separar não era uma opção tão boa porque ele ficaria com metade do restaurante. Mais investimento tentando resgatar uma empresa falida, pagar dívidas e sustentar um filho e de repente, teve que vender o restaurante pra ter o que comer.
Meu avô morreu há uns seis anos. Minha avó não chorou. Mas, também nunca teve dinheiro para abrir outro restaurante. Minha mãe costumava dizer que ela era o exemplo perfeitos de porque você nunca deveria investir no sonho de ninguém além do seu.
— Oi, pai. – forcei um sorriso, me sentando ao seu lado na calçada.
— Oi. – respondeu sem voltar o olhar pra mim, mas deu um sorrisinho em cumprimento, uma lata de cerveja na mão. Pelo amor de Deus, homem! Não são nem dez da manhã! — Tudo bem?
— Aham. E você?
— Demais. – revirou os olhos, irônico. — Como vai o trabalho?
— Tudo certo.
Em outros tempos, ele teria me perguntado algo sobre a aula de teatro, com um falso interesse. Apenas para poder dizer algo sobre como eu estava investindo demais em hobbys quando deveria me preocupar em gastar com coisas realmente úteis, diria que receber pouco e investir em algo tão sem valor era uma irresponsabilidade.