Cap 34

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Regina Mills
Eu simplesmente não consigo acreditar. Pensei que esse tipo de comportamento fosse apenas folclore, que pessoas como o senhor Farrah jamais teriam esse tipo de atitude. Mas eu errei e errei feio.
Como... como assim, senhor Farrah?
— É bastante simples, na verdade. Sua mão vem para o meu colo e isso me deixa desconcertada.
— Nós somos de mundos bem diferentes.
— Certamente somos. Penso alto.
— No meu mundo existem outras preocupações para além do amor, paixão e essas outras ilusões que vocês, menos abastados se preocupam, já que não possuem outras possibilidades na vida e precisam se apoiar nisso.
Hum...
— Diga-me o seu valor. Todas as pessoas têm um valor, senhorita Mills.
— Eu não. Sinto muito.
Você não? Ele desdenha.
— Isso significa “mais zeros após o um”? Estou consternada. De todos os últimos acontecimentos em minha vida, esse aqui é a cereja do bolo. Eu cheguei no auge do fundo do poço, só pode. Não há outra explicação!
— Não quero distrações no caminho de Emma enquanto ela efetua a tarefa que lhe impus.
Distração? Já adianto e me levanto. O senhor Farrah permanece impávido, sua expressão é uma máscara de controle e poder que não tem como ser real... não é possível...
— Existem grandes planos no horizonte. E Emma deverá se concentrar agora no que realmente importa e não com trivialidades.
— Obrigada pela conversa, senhor Farrah.
— Você não disse um número. Ele insiste.
— Não direi. Não preciso do seu dinheiro e não o quero. Acho que a própria Emma e eu podemos decidir sobre isso, sem qualquer interferência. Vejo a rachadura. Parece que o personagem foi desmontado. O senhor Farrah se levanta e vem até mim, em passos largos. Me machuca ao segurar em meu braço e seus olhos me advertem.
— Você está na minha cidade. E na minha cidade, eu sou a lei, senhorita Mills. Cravo as unhas nas mãos dele até que ele solte um grunhido e me solte.
— Diga isso para alguém que se importe. Jogo meu cabelo para o lado, para acertá-lo em cheio.
— Um bom dia, senhor Farrah!
— Os meus advogados irão procurá-la! Ele rosna. Amor, manda seus advogados, a carrocinha, o FBI, a clínica psiquiátrica e até o fantasma do Michael Jackson fazendo moon-walker até lá em casa. Eu não ligo. Saio daquele lugar da mesma forma que entrei: de cabeça erguida, ciente de que os meus sonhos, as minhas atitudes e as minhas decisões dependem apenas de mim. E dinheiro algum pode comprá-las. Ligo para Emma em todos os intervalos que tenho, mas ela não me atende. Será que está me ignorando? Ao passar pelo salão sou abordada pela senhorinha simpática, dessa vez com outra flor em um chapéu furta-cor.
— Com licença, será que a senhora teria visto a Emma por aí? Ela reflete por meio segundo e acena de modo negativo.
— A vi ontem, na mansão, ela pareceu sair bem zangada de lá.
— Deve ter conversado com o pai. Penso alto.
— Certamente. Ela gruda em meu braço.
— Ambos possuem o gênio bem forte. E querem ter controle sobre tudo. Mas é isso o que a maioria dos poderoso do nosso meio fazem, não é? Estes CEOs e bilionários só pensam em ter controle sobre suas empresas e pessoas...
— Às vezes até confundem e acham que pessoas são empresas. Reflito.
— Sim. Precisa de ajuda, querida? Se estiver ao meu alcance...
— Só se encontrar a Emma. Diga que quero vê-la. Ela faz que sim e me deseja sorte. Retorno para a cozinha onde vejo tudo adiantado para o jantar e me posiciono para trabalhar. Eu preciso me ocupar para não pensar nenhuma besteira, e também para não fazer nenhuma besteira. Quando enfim tenho um descanso prolongado, volto a ligar para Emma e ela me atende.
Não! Escuto a voz de Henry do outro lado.
Alô? Regina? É a voz dela, fico até mais tranquila.
— Emma, precisamos conversar. É sério!
— Regina, eu não posso. Não agora. Como assim ela não pode? O que está acontecendo? O mundo girou tanto que eu estou perdida!
— Você pode me encontrar agora pela noite? Prometo que será rápido.
— Regina, não vai dar. Sinto muito.
— Mas... você... Emma, eu só preciso entender o que está acontecendo...
— Você vai entender, eu prometo.
— Tá, mas você não pode...?
— Preciso desligar. Sinto muito. Ela não faz rodeios e desliga assim que termina de falar. O que está havendo? A voz dela estava diferente e ela não parecia querer falar comigo! Ainda bem que todo o trabalho está adiantado a ponto de só concluir as refeições e limpar os pratos, porque não tenho condições para operar qualquer coisa nessa cozinha que envolva pensamento. Então ligo o robô automático em mim e trabalho sem parar até a hora de ir para casa. Da mansão dos Farrah, minha mãe, avó e eu vamos direto para a minha casa. Elas chegam empolgadas, já entram fazendo festa e gritando que deveríamos pedir uma pizza. E eu fico do lado de fora, estico o pescoço o máximo que posso e procuro algum sinal na casa ao lado. Mas ela parece completamente vazia.
— Agora sim vamos fazer uma festa de inauguração da casa! Minha avó brada.
— Vovó, já é quase meia noite. Aviso.
— Em algum canto do mundo ainda são nove! Então vamos celebrar! Ela abraça Belle e Zel.
— Essa casa é linda!
— Sim..., mas um pouco desorganizada... por que tantas caixas de sapatos pelos cantos? E esses vestidos super chiques pendurados? Minha mãe olha em volta. Realmente a casa está uma zona. Nada do que Emma me deu coube em meu armário, então tivemos que deixar tudo pelos cantos da parede.
— Toda casa precisa de enfeites. E a nossa possui enfeites da Gucci, Dolce & Gabana e Prada! Belle ri.
— A verdade é que precisamos de um espaço maior.  Zel desabafa.
— A Regina ganhou tudo isso e não há espaço para guardar.
Ganhou? Minha avó usa um tom acusatório e bem-humorado.
Ganhou de quem, Regina Maria?
— Adivinha. Reviro os olhos.
— Não é possível... ela não tem um defeito, essa mulher? Ela pragueja. Talvez tenha, mas eu não descobri... ou talvez esteja estampado em minha cara, mais do que nunca: o defeito de Emma é que ela nunca vai ser minha. Somos de mundos diferentes, vivemos vidas diferentes, temos concepções diferentes do que importa, pelo que parece. E agora ela estava fugindo de mim... provavelmente eu nunca mais a veria.
— Conheçam a casa, meu quarto é o primeiro à esquerda após as escadas. Explico.
— Vou dar uma volta lá fora.
— Não vá muito longe! Elas gritam enquanto correm para espionar e vasculhar meu quarto. Pego um xale que está jogado no sofá e cubro meus ombros, saio de casa e ando em direção à mansão de Emma. Ela está toda escura, como nunca a vi antes. Não há nenhuma luz ligada lá dentro. Ainda dou uma volta na propriedade só para conferir se há qualquer vestígio de gente, mas não há. E como sou bastante teimosa, vou tocar a campainha e bater na porta só para garantir mesmo. Não há resposta.
Ligo para Emma e o telefone toca initerruptamente, não há qualquer barulho dentro da casa a respeito da chamada. Ou está no silencioso ou realmente ela não está aqui. E vai ver... ela não quer me atender, no fim das contas. Paciência. Desisto da ideia de tentar entender o que está acontecendo. Preciso descansar agora e me preparar para o último dia de evento antes do casamento. Talvez Emma apareça amanhã e me explique toda a situação. Saio do jardim da mansão e fecho a pequena cerca branca quando passo por ela. Confiro as horas no celular e começo a digitar uma mensagem, só para garantir que tudo está bem e talvez receber alguma novidade.
Ela não te atende, não é? Ao ouvir a voz de Robin , dou um salto e procuro qualquer lugar que possua uma pedra ou um pedaço de pau para pegar.
— Não encosta em mim! Fecho os punhos.
— Relaxa, eu não vim aqui te fazer mal. E eu lá vou acreditar nesse cara? Me afasto e ando o mais rápido que consigo, mas ele me persegue.
É aqui que ela se escondia? Se escondia?
— O que você quer dizer com isso?
— Todo esse tempo, todos nós achávamos que ela estava fora de Miami, mas ela estava bem aqui... debaixo dos nossos narizes. Robin avalia a casa.
— Vai ficar me seguindo agora? Não me segue não, Robin , que eu estou perdida! Dou-lhe as costas e pego o caminho de casa.
Ela também te deixou, não foi? Droga de curiosidade! Por que eu não consigo só ir embora?
— Como assim “também te deixou”? Viro-me devagar.
— Eles são assim, Regina. Robin  balança os ombros. Só agora consigo perceber que ele está com o terno todo puído e até mesmo rasgado em alguns pontos. O cabelo todo embaraçado, a cara não é das melhores. Eu vi esse cara mais cedo hoje, não foi a Zel que fez isso com ele não, ele estava em perfeito estado até o almoço!
Eles quem, cara pálida? Fale logo de uma vez, está tarde e quero entrar.
— Posso ir com você?
— Robin , você largou o emprego e decidiu fazer stand-up? Não que eu queira te ajudar, mas suas piadas não têm graça!
Você ainda não sabe? Não vou mais me casar com a Elsa Farrah. Gostaria de mostrar piedade pelo estado de Robin , mas não consigo. Ele merece cada pisão que eu der em sua cabeça.
— É óbvio que eu soube. Talvez até mesmo antes de você, já que sou eu a responsável pela comida desse evento. Robin  não vai dizer nada de importante, então vou mesmo entrar...
— Nós somos objetos nas mãos deles. Peças. Temos valor enquanto somos úteis... quando perdemos a utilidade, é isso o que eles fazem conosco, Regina: eles nos descartam. Paro onde estou, mas não me volto para ele, deixo que fale com minhas costas.
— Eu fui útil até aqui e agora fui descartado. Mas pelo visto... parece que não fui apenas eu.
Certo. Boa noite, Robin .
— Eu te disse, Regina. Eu te disse que quando terminasse tudo isso, nós ficaríamos juntos. Temos dez anos de relação. Conhecemos tudo um sobre o outro. E você sabe que nos encaixamos perfeitamente. Eu prefiro acreditar que me encaixo melhor no caixão que vão me enterrar um dia, desculpa Robin .
Acabou. E agora estamos só nós dois, abandonados pelas pessoas que têm controle sobre o jogo. Nós somos peças e eles os jogadores.
— Viu. Qualquer coisa eu te aviso. Balanço os ombros.
— Eu sei que você vai tentar lutar para ficar com ela, mas... não vai dar certo, Regina. Essas pessoas quando não conseguem o que querem, destroem tudo ao redor. Elas esmagam o que você ama, elas descobrem seus segredos e te ameaçam. Não há como sair dessa sem obedecer às regras deles. Talvez tenha chegado a hora de fazer algo realmente importante. E esse algo é colocar os pingos nos is com Robin .
— Me escuta. Viro-me e vou até ele.
— Você me usou porque é um aproveitador, mentiroso e babaca. Eu corri, praticamente me rastejei aos seus pés por dez anos, Robin ! E tudo aquilo que você fez por mim, que eu achava que era amor, na verdade era mentira.
Mentira? Mentira é esse seu teatrinho com a Emma!
— Pois as duas semanas e meia de mentira com a Emma foram muito mais verdade do que os dez anos de suas verdades. Eu cansei. Eu não te amo, e descobri que lá no fundo, eu nunca te amei. Robin  olha para o chão e ri.
— Eu não me amava e por isso achava que precisava de alguém para suprir isso em mim. Mas olhe só para mim. Me aproximo ainda mais dele.
— Olhe para mim! Levanto o queixo dele, para que ele me encare.
Eu sou maravilhosa. Eu sou incrível. E eu sou demais para você!
— Você perdeu o juízo...
— Sozinha eu sustentei essa relação por dez anos, até perceber que você nunca me amaria de volta. Porque você não se ama. Você me tratou feito um lixo, porque você é um lixo. Você não sabe o que é o amor, talvez você nunca tenha sido amado e quer convencer a si mesmo que pode vir aqui e me fazer mudar de ideia, me fazendo acreditar que no fim terminamos juntos? É a minha vez de rir.
— Só sobramos nós dois, Regina. Ele abre os braços para mostrar ao redor. Faço como Henry e levanto o dedo indicador, mostrando que não.
Não sobramos nós dois, Robin !
Não?
— Eu não estou sobrando. Eu estou completa, estou feliz, estou reconstruindo a minha vida! Enquanto você riu pelas minhas costas e eu chorei, percebi que não precisava de você. Assim como não preciso da Emma. Assim como não preciso fingir ser quem não sou para agradar ou pertencer a qualquer lugar!
— O que você quer dizer?
— Eu quero te dizer. Agora eu me aproximo mesmo. É a última vez que esse desgraçado vai sentir o meu perfume tão perto.
 — Que eu me basto.
— Você está se achando demais...
— Eu não estou sozinha, estou comigo mesma. E isso basta. Eu sou autossuficiente, meu filho. Eu sou sócia de uma empresa que um dia vai dominar o mercado e você vai continuar sendo o mascote, o bichinho de estimação que vai balançar muito essa cauda para agradar seus donos.
— Você ainda vai voltar chorando, pedindo para voltar, Regina. Ele me ameaça. Mas eu não tenho mais medo.
Eu sou a minha própria dona. É tudo o que tenho a dizer.
— Ela vai se casar com a Gabriela. Você vai trabalhar feito uma empregada para a festa de casamento da mulher por quem está apaixonada. Ele desdenha.
— Ela vai se casar com quem ela quiser. Balanço meus ombros.
— Aprendi uma coisa muito importante nos últimos tempos, não espero que você entenda.
— Então me ilumine com a sua sabedoria!
— Eu não me importo se no final Emma vai se casar com a Gabriela.
Não?
Não! Sou firme.
— Eu apenas me importo se ela estará feliz. Robin  continua a debochar.
— Sim, eu estou perdidamente apaixonada por ela. E eu espero que ela também esteja por mim. Mas se não estiver, eu gosto tanto dela e eu me  amo tanto, que só espero que ela seja pura e verdadeiramente feliz.
— Você ainda não entendeu que ela é uma mentira... uma farsa...
— Mesmo que ela seja uma mentira, ela é muito melhor do que você um dia pôde sonhar em ser. Parece que você ainda não entendeu, Robin ...
O quê?
— Os seus sonhos foram destruídos, o dia acabou e foi você que veio até mim, não o contrário.
E daí?
— Acabou, Robin . E é você que nunca vai achar alguém como eu.

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