cap 8

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Emma Swan
 
Ao entrar na cozinha eu vejo uma Regina Mills fardada, preparada para a batalha: ela usa um avental branco e um lenço na cabeça para cobrir seus cabelos. Desinibida e comunicativa ela vai dando as instruções para suas funcionárias e só para de falar quando me vê chegar.
— Ainda não tinha visto esse seu lado. Tento segurar o riso, mas é difícil demais não olhar para essa mulher e ficar séria. Ela desperta algo em mim, e parece ser o melhor.
Que lado? Ela abaixa o rosto e tenta mexer no lenço que cobre seus cabelos, acaba tirando-o e procura agora um reflexo para recolocá-lo.
— Deixa que eu te ajudo. Vou em sua direção e tomo o lenço de suas mãos.
Assim, mandona, brava, dando ordens. Vou comentando enquanto a vejo paralisada em minha frente. Asseio seus cabelos sedosos devagar para trás das orelhas e ela me entrega um prendedor que eu coloco, sem pressa, tendo tempo o suficiente para encostar meu nariz em sua testa e sentir o cheiro delicado da sua pele. Novamente o sorriso brota, mas preciso me concentrar. Coloco o lenço devagar e ela me encara, assustada e surpresa, continua com essa mesma expressão quando termino, mas não me afasto.
— Estou parecendo uma vovó, não é?  Ela ri de nervoso.
 — Deve ter sido por isso que ele me trocou por ela. Regina entorta a boca.
— Você gosta do que faz? Eu pergunto.
O quê? Ela se mostra surpresa e ao julgar por seu olhar, ofendida.
 — Eu adoro o que faço. É o que eu sempre quis ser! Toco seu rosto com os polegares, deixando-os ao lado de seus lábios, o restante da mão entre seu pescoço e nuca. Olho Regina no fundo dos olhos e me aproximo devagar, enquanto vejo suas pupilas se dilatarem e ela erguer a sobrancelha.
Você parece uma mulher bem-sucedida e feliz que ama o que faz e se entrega de corpo e alma ao que se propõe. Se um babaca não consegue reconhecer isso, o problema é dele e não seu.
Não sei se Regina me ouviu. Mas ela assente, devagar. Fricciona os dedos em seu pescoço e nuca, onde acabei de soltá-la.
— Não vou te pagar adicional pela bajulação. Ela entorta a boca e só falta me bater com uma colher de pau.
— Na verdade você não está me pagando nada. Assisto a equipe de sete mulheres correr pela cozinha, fazendo mil serviços em um minuto.
— Estou aqui pela diversão.
— E o que tem de tão divertido? Ela bufa, encarando-me nervosa. Aproximo-me novamente, parece que é a única coisa que a cala. E é exatamente isso o que ocorre. Coloco o dedo polegar no lábio inferior dela e o desço devagar, fazendo-a entreabrir a boca com o leve puxão.
Mais tarde eu te mostro a diversão. Sorrio e me afasto.
— O que tem mais tarde?  Ela pergunta preocupada.
Só faça a sua mágica, senhorita Mills! Me despeço.
 
Regina Mills
 
Em partes, não sei se trazer Emma foi uma boa opção. Ela é sim um apoio moral indispensável, já que não tenho Zelena ou Belle aqui, apenas minhas funcionárias que, a todo custo, evito que conversem, senão atrasaremos muitos procedimentos. Emma é um excelente suporte, é atenciosa e parece que lê o meu pensamento. Quando me encontro perdida pela cozinha, em busca de algo e
não lembro o quê e começo a andar em círculos, ela magicamente aparece com o que procuro em mãos. Até parece que conhece o lugar. Mas essa vizinha gostosa e atenciosa é mais do que uma tentação; ela é uma distração. É mais forte do que eu. A cada cinco minutos, pelo menos, eu me
pego pensando nela. Paro de vigiar as meninas batendo as claras em neve ou o processo do chantilly, preciso espiá-la. E lá está ela. De braços cruzados, em completo silêncio, encarando-me de volta.
E a expressão em seu rosto mostra que ela admira o que estou fazendo. Diferente de Robin  que sempre me disse que servir os ricos nunca me levaria a canto algum, que eu sempre seria conhecida como empregadinha, que eu precisava de ambições maiores. Ora, estou aqui porque essa foi minha ambição há anos. A Regina do passado ambicionou estar aqui. E quando paro eu mesma para bater as claras em neve ou controlar o processo do chantilly, é porque me dá prazer. Eu vejo a comida como poesia que deve soar perfeita e eu estudei, me qualifiquei e cheguei até aqui com muito esforço, suor e lágrimas. E muita paixão também. Por que Robin  nunca conseguiu enxergar isso?
O que foi? Rosno para Emma, que parece se entreter mais do que deveria. Ela aponta para si, como se tivesse sido pega no flagra.
— É, você mesmo. O que foi?
— Só gosto de te ver fazer as coisas que gosta. Não parece a pessoa que vejo pela janela da minha casa, triste e desencantada com a vida... Ela diz ao se aproximar, não deixa mais ninguém ouvir isso.
Você me espiona? Pergunto horrorizada. Quem faria uma coisa dessas? E a privacidade? E os bons modos e costumes?
— Você tem gritado muito, ultimamente. Fico meio preocupada. Imediatamente me recordo das minhas cenas de crise, gritando que Robin  é um desgraçado, um canalha, um desalmado, um filho da p...
— Foi só uma vez.
— Uma vez a cada duas horas, você diz. Ela se diverte.
— Precisa de ajuda?
— Não, não, obrigada, senhora prestativa. Mas já que está aqui, vamos conversar.
— Estou aqui para você, bebê. Diga-me o que quer conversar.
— Eu preciso saber sobre você, assim como você precisa saber sobre mim. Vamos cair na real, e quando alguém nos encontrar e eu disser que somos namoradas?
— Alguém você diz o Robin ? Levanto as sobrancelhas. Ela se lembra do nome do cafajeste! Que atenciosa, ela realmente me escuta, até quando falo do homem. Já o Robin ...
— Ele e qualquer outro. Namorados sabem tudo sobre o outro. Então enquanto termino esses preparos e a mise en plase, vamos papear.
— Adoro jogar conversa fora. Ela diz e sorri feito o cafajeste que é
E jogar fora a conversa; Ela se aproxima e não para de rir. Meu Deus! Por que tão tentadora? Não sei se consigo resistir assim.
— Qual a sua coisa favorita no mundo? Pergunto, para tentar afastar os pensamentos impuros e deliciosos.
— O meu filho. Ela me examina mexer na bancada, arrumar as coisas e voltar a bater as claras.
— Que resposta clichê! A repreendo com o olhar.
— É clichê, mas não deixa de ser verdade. Ela rebate.
— Certo. Se você, Emma... qual o seu sobrenome mesmo?
Swan.
— Emma Swan, se você morasse em um lugar assim, quem você seria? Quais seriam seus filmes favoritos? Quais livros você teria lido nos últimos anos e que tenham te marcado? Que música você colocaria no som milionário até ser ouvido do outro lado da cidade? A provoco. Foi a primeira vez que vi Emma parar no tempo e encarar fixamente uma das janelas abertas.
— Para ser sincera, acho a vida de pessoas ricas bem superestimada. Se eu nascesse em um berço de ouro? Bem, provavelmente eu teria tido tudo nas mãos e não teria aprendido a conquistar as coisas sozinha, só com a ajuda dos meus pais. E, talvez, eles tivessem sido controladores e exigido que eu vivesse o tipo de vida que eles achavam ideal...
— Mas você tem cara de ser rebelde.
Acertou. Ela olhou para mim e abriu aquele sorriso mágico, capaz de me fazer ficar presa no tempo, com ela.
— E eles teriam me deserdado.
Triste fim de Emma Swan.  Lamento.
— E pelo quê eles te deserdariam?
— Por ser autêntica, no meio de tantas cópias. Ela diz séria e coloca as mãos em cima da bancada, se curva levemente em minha direção.
E você? Me conte tudo sobre Regina Mills.
— Um filme? Uma Linda Mulher.
— Que antigo isso!
— Um clássico! Ai, o meu sonho achar um ricão bonito, charmoso e interessante que queira mais do que sexo. Que queira me ouvir... e... Por que você está rindo, Emma Swan?
— Desculpa. Continue. Ela colocou a mão em frente à boca, mas os olhos continuavam fazendo aquela curva perigosa. Perigosa demais para o meu coração, quando menos percebi, lá estava eu, com ele acelerado.
Sem graça... não quero mais conversar com você!
Pretty woman, walking down the street.  Ela começou a cantar baixinho para mim. Abaixei o rosto e continuei a fazer meu serviço.
Pretty woman, the kind i like to meet.  Ela continuou.
— Tá, chega. Ergui o rosto e a encarei, brava. Mas como? Emma e sua mão que sempre vinha até meu rosto e me afagava, me deixando arrepiada e desconcertada! No fim ela segurou em minha mão, mesmo ela um tanto suja.
— Quer ser a minha Julia Roberts? Ela perguntou.
— Se ao menos você fosse rica, Emma... duas pobres não rola, né? E você deve ser a pretty woman das senhoras ricas.
— O que você quer dizer?
— Do seu trabalho.
Meu trabalho? Ela pareceu confusa. Talvez fosse um assunto delicado demais para tratar no momento.
— Deixa para lá. Mas você está certa.
Sobre?
— Se eu tivesse nascido nesse lugar... Olho ao redor. É assustador de tão grande. Tudo parece caro e valioso. Eu tenho medo de encostar em qualquer coisa e ela quebrar, não terei dinheiro para pagar! E mesmo sem o uniforme, do modo que cheguei, nenhuma das pessoas lá fora olhou para mim. Eu não pertencia a esse mundo. O meu único link com tudo isso era o traidor do Robin . Que encontrou sua mulher rica e me trocou por ela. Ele foi esperto, devo admitir. Mas me machucou profundamente.
... e se eu tivesse tido tudo com tanta facilidade... eu não seria eu. Quero dizer eu não teria os mesmos sonhos e ambições que a Regina que eu conheço.
Uh, falando de si mesma em terceira pessoa. Ela apontou para mim.
— Eu gosto de como sou. Só não gosto dos homens babacas com quem me relaciono.
— E quais foram os homens babacas da sua vida?
— Só o Robin , é claro. Não namorei com outros. Olhe para mim.
Estou olhando.
— Então olha direito. Insisto. Emma andou alguns passos para a direita e me fitou. Depois foi para
a esquerda. Deu a volta na mesa, esticou os pés e me olhou bem de cima. Depois abaixou e me olhou lá de baixo, sempre curiosa.
— Não vejo nada de errado.
— Eu nunca poderia competir com uma Elsa Farrah, Emma.
— E por que você teria de competir com ela?  Ela ficou ainda mais interessada.
— Para ser boa o suficiente — Levantei os ombros, começando a ficar cansada da conversa. Não da conversa em si, mas de como eu estava me sentindo com ela.
Boa o suficiente para quem? Ela insistiu. Sem alterar a voz ou o jeito com que me olhava.
Emma era de uma finesse que estava em falta nos dias atuais. Parecia perfeitamente equilibrada e me tratava de um jeito atencioso que nunca fui tratada. Não me lembro de uma só vez que alguém tenha parado para me ouvir tão atentamente e se preocupar comigo... a não ser meus pais, Zelena ou Belle.
— Para quem você acha que eu deveria ser boa o suficiente?
Mal perguntei, ela pegou uma panela pelo cabo e a levantou. Até fechei os olhos e me afastei, assustada. Mas não senti nada. Passado o medo, abri o olho esquerdo um pouquinho. Depois os
dois. Vi meu reflexo no fundo da panela que ela levantou.
Que susto. Levei a mão ao peito.
Por um momento pensei que... Emma suspirou.
Ele já te bateu?  Emma murmurou.
— Não quero falar sobre isso. Dei o assunto como encerrado, tomei a panela de suas mãos e a abaixei.
Pelo pouco que conhecia do minha ilustre vizinha, acho que ela estava decepcionada. Rapidamente o clima mudou, tudo pareceu vir abaixo e ela ficou menos radiante do que era.
— Ele não te merece, Regina.
— Estou aqui para me vingar. Me justifiquei.
— Para se vingar ou para reconquistá-lo? — foi a vez dela provocar.
— Chega de joguinhos. Só vamos fazer o que viemos aqui fazer, ok? Emma sacudiu os ombros e se afastou devagar, para retornar para o lugar onde estivera parado antes.
—... o que eu estava dizendo antes era que... concordo com você. Se eu não pudesse viver meus sonhos e tomar as minhas escolhas... e o preço fosse estar presa à fortuna da família... Nitidamente roubei um pouco da atenção da vizinha charmosa, porém decepcionada, Emma Swan. Fiquei triste de ver aquele rostinho cabisbaixo, parecendo um cachorrinho perdido na chuva, mesmo que eu fosse a chuva. Ou a tempestade.
—... eu também fugiria.
— Para morar perto de mim?  Emma riu. Nesse momento minhas esperanças retornaram, principalmente do medo dela decidir ir embora e deixar essa louca aqui se virar sozinha.
— Ninguém tem tanta sorte assim, Emma. Ri junto com ela.

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