Cap 31

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Regina Mills
 
Rever a minha família depois de tanto tempo me causou um sentimento inusitado. Eu estava exausta, pronta para explodir, com cada caco meu jogado no chão. E simplesmente ao ver a minha mãe, eu me senti bem e consolada. Seu abraço foi libertador e quando ela passava as mãos em minhas costas, era como se ela limpasse toda a sujeira e arrancasse todo o peso desnecessário que eu não precisava mais. Me questionei durante a viagem de ida se havia feito a escolha certa ao ceder à pressão de Emma. E, sim, foi uma escolha mais do que adequada. Assim que a minha mãe e avó ficaram prontas e ligaram para Daniel e Graham, meus irmãos, Emma chamou uma limusine e nos levou para passear em Nova York. Fomos em pontos turísticos que a minha avó disse que sequer conhecia! E olha que ela nasceu aqui! E comemos bastante, rimos bastante e até fizemos algumas comprinhas. Quando Daniel e Graham vieram ao nosso encontro, apresentei Emma e Henry e expliquei que eles poderiam ir para Miami hoje e voltar amanhã bem cedo, para trabalhar. E como bons nova-iorquinos, eles se
perguntaram: por que não? Jantamos em um restaurante finérrimo chamado Magnum Imperium¸
Emma praticamente fechou o lugar para nós. E após esse dia agitado, mas nada cansativo, fomos de jatinho para Miami. A minha avó e minha mãe precisaram tomar remédio para dormir, porque só de entrar na aeronave elas começaram a ter um treco. Graham e Daniel, entretanto, curtiram a viagem, as bebidas, os petiscos e não pararam de se perguntar se tudo aquilo era real mesmo. Como a poltrona ao lado de Emma estava desocupada, já que Henry estava dormindo em seu colo, eu me sentei ali.
— Obrigada por hoje. Falei baixinho, para não perturbar o Henry, mas como ele estava com os abafadores no ouvido, acho que não se importaria de jeito nenhum.
— Não foi nada.  Emma falou com suavidade.
— Foi sim. Significou muito para mim. Eu não fazia ideia que... ao vir para cá eu recarregaria um pouco da minha energia para seguir nesse casamento... e no trabalho... e na vida. Suspiro.
— Sei como é.  Emma trocou Henry de lado para poder se virar em minha direção. O silêncio entre nós falou alguma coisa. Algo muito acalentador, certamente, porque senti meu coração mais quente. E precisei massagear as bochechas para impedi-las de enrubescer.
— Às vezes tudo o que precisamos é nos afastar, dar um tempo do que nos está afligindo e olhar a situação por outro ângulo. Sei que agora você vai conseguir.
— Uhum.
— Por que você não veio ver sua família antes?
— São várias as razões, Emma...
— Ainda bem que a viagem ainda vai demorar uma hora; acha que é tempo o suficiente para me dizer? Entortei a boca e depois mordisquei o lábio inferior.
— Não quero te sobrecarregar com os meus problemas.
— Eu sou mais forte do que aparento. Ela pisca para mim. Essa maldita não cansa de ser charmosa.
Após um longo suspiro e a insistência do olhar dela, decido dizer:
— Eu fui para Miami com um sonho. E não queria voltar para casa sem ter vencido nele.
— Não entendo.
— A outra razão que se mistura a essa é que: eu não tenho dinheiro, Emma. Eu investi tudo o que eu tinha, na Sweet Show. É claro que a loja consegue pagar os funcionários e se manter..., mas ainda não estamos lucrando. Bem... depois desse casamento... acho que vamos lucrar um pouquinho.
— Quanto vocês investiram?
— 150 mil dólares, cada uma. Emma assente e seus olhos encaram o vazio, parece até que faz um
cálculo rápido.
— O investimento já se pagou?
— Está se pagando.
— Qual a previsão de ter lucro?
— Daqui dois anos, quem sabe. Somos uma pequena empresa, concorrendo com outras bem maiores e nativas de Miami... mas estamos indo bem. Esse casamento da sua irmã fez um bom dinheiro entrar no caixa...
— Aham...
— Pude pela primeira vez montar uma equipe de cozinha de verdade, porque normalmente sou eu e mais quatro ou cinco tentando dar conta de tudo...
— Você quer que a sua família se orgulhe de você. E também quer que o seu sonho dê certo. E aí você iria visitá-las, com dinheiro de sobra e com boas notícias. Ela avalia. Emma é mesmo muito observadora. Não precisei dizer muito para que ela traduzisse de forma tão simples os meus pensamentos complexos.
— A sua família tem orgulho de você, Regina. Ela estende o braço e passa a mão pelo meu ombro. — E o seu sonho já deu certo. É uma empresa jovem, com boas ideias, tem limitações, mas funciona.
Concordo com ela.
— Quando a família se ama, ela não está preocupada apenas com as boas notícias. Os laços não se firmam só nos sorrisos. Famílias se unem quando percebem que a parede está rachando... que a conta precisa ser paga... que alguém precisa de um abraço porque teve um dia ruim, mesmo que o seu dia tenha sido pior. Para uma mulher que foi abandonada pela família, Emma parecia entender bem sobre uma.
— Elas querem tanto ficar perto de você que aceitaram entrar no jatinho de uma completa desconhecida que só apareceu em sua casa repentinamente para passar alguns dias com você em Miami... elas sabem que você precisa delas. E elas também precisam de você.
— Você sempre tem repostas e frases para tudo?
— Não. Ela conserta o corpo e começa a balançar Henry levemente.
— Mas famílias são famílias em qualquer lugar. E problemas são problemas em qualquer lugar. E sonhos são sonhos em qualquer lugar. Passamos tanto tempo ocupados estudando a língua, matemática e geografia que nos esquecemos de ensinar coisas simples sobre viver a vida. Eu aprendi da forma mais dura, você não precisa passar por isso.
— Por que não?
— Porque eu estou aqui, para você.
— Novamente, muito obrigada, Emma...
— É sempre um prazer ajudá-la. Emma fecha os olhos e encosta a cabeça na poltrona. Passo o restante da viagem dividida entre acompanhar o percurso pela janela e observá-la dormir com o pequeno Henry em seu colo. Ninguém nunca fez isso por mim.  Não o fato de gastar dinheiro comigo, mas se importar. Prestar atenção. Não me julgar e permanecer ao meu lado. E havia um brilho ainda maior em Emma porque mesmo sendo muito mais rica, atraente e inteligente do que eu, em nenhum momento ela me menosprezou ou se gabou do quanto era qualquer coisa a mais do que eu. Ela só esteve ali, às vezes em silêncio, às vezes com um sorriso, dando suporte. Eu nunca pensei que amar era assim. Não foi isso o que eu senti nos últimos dez anos. Talvez tenha sido isso o que fiz, dentro das minhas limitações, mas nunca recebi de volta. E se amar não é exatamente essa sensação que o meu peito sente agora, acho que pelo menos sei que amar não é o que eu senti por Robin. Em meio aos meus pensamentos pousei a cabeça no ombro de Emma e dormi também.
 
Emma Swan
 
Assim que chegamos a Miami eu levei a família Mills para um dos iates. Apresentei-lhes a praia e desejei que se divertissem e aproveitassem tudo. Também deixei o motorista e o jatinho aos serviços dos irmãos de Regina que precisariam retornar ao trabalho pela manhã. Regina ficou com eles e eu levei Henry para casa, combinamos de nos encontrar na mansão dos Farrah no dia seguinte. Como de costume, acordei bem cedo e preparei toda a minha agenda do dia, assim como a de Henry, que passaria por algumas pedagogas. Preferi que ele tivesse aulas em casa primeiro para depois ir para uma creche. Ele não se sentia confortável com o grupo de colegas autistas, então temi que nesse primeiro momento, estar rodeado de crianças desconhecidas o intimidaria. Quando Henry já estava ocupado, fui para a mansão Farrah encontrar Regina. Ela já estava lá com sua mãe e avó e parecia animada explicando como eventos assim funcionavam, mostrou como os preparos eram feitos de modo ágil e como tudo ficava organizado.
— Viram o sol nascer? Foi a primeira coisa que perguntei após cumprimentá-las.
— Simplesmente linda. A dona Helena grudou em meu braço.
—Muito obrigada, de verdade! No início pensei que não conseguiria ficar em paz, principalmente ao dormir em um negócio que boia na água, mas tudo ocorreu bem!
— Fico muito feliz em ouvir isso, senhora Mills.
— Quando você precisará do iate de volta?  Cora pergunta.
— Não precisarei. Sorrio.
— Podem ficar quanto tempo quiserem. Até que estejam fartas de ver a praia e o nascer e pôr do sol todos os dias!
— Muito obrigada, de verdade!
— É o mínimo que se faz pela família.
Emma? Falando em família... Viro-me devagar até encontrar o rosto do meu pai, James Farrah, e a minha mãe, Kathryn Farrah. Faço um aceno breve com a cabeça para a família Mills e me afasto sem grandes alardes até estar diante dos meus progenitores.
— Você está bem diferente. Minha mãe coloca as duas mãos em meus ombros.
— Parece uma lutadora.
— Eu gosto.
— Tinha ouvido falar que você estava aqui, mas não acreditei. Precisei voltar de viagem para ver com os meus próprios olhos! Meu pai me examina também.
— Como pode ver, estou aqui. Esse reencontro foi bem diferente de como imaginei. Eu esperava uma dúzia de seguranças, pancadaria, talvez até armas...
— Precisamos conversar. Meu pai, como um bom homem de negócios, encurta a conversa, me dá as costas e indica que eu o siga.
— É tão bom te ter de volta em casa, minha filha! Minha mãe não me deixa ir e me abraça com força.
O abraço não dura muito, porque somos interrompidas pelo meu pai arrastando a minha mãe pelo braço.
Não temos tempo! Ele rosna, entra em um carro de golfe e dirige para a mansão. Não tenho muita pressa, então o sigo com minhas próprias pernas. Mas não tarda até que apareça um segurança em outro carrinho para me levar até a propriedade. Da chegada ao hall de entrada até subir as longas escadas e entrar em seu escritório, meu pai fica em silêncio e não me dirige nenhuma palavra. Apenas quando se senta em sua poltrona, ou melhor, o seu trono, ele volta a me analisar e enxota a minha mãe com as mãos, sem encará-la. Ela sai, obedientemente e ficamos só nós dois.
Voltou, não é? Ele debocha e acende um charuto. Me oferece, mas eu não fumo. Então ele indica que eu me sente e pousa os punhos unidos na mesa.
— Estou aqui pela Elsa. E nada mais do que isso.
— Você foi expulsa desse lugar e dessa família. Não há qualquer sentimento em sua voz, nem raiva, nem amor.
— Eu sei.
— Não pode voltar quando quiser ou por qualquer motivo.
Eu sei. Reforço. O senhor Farrah, meu pai, respira fundo e se afasta da mesa. Bate os dois pés com seus sapatos finos em cima da madeira, cruzando-os e se estica na poltrona.
Cinco anos, Emma... cinco anos... É. Eu vi o tempo passar também, eu sei cada mês, semana, dia, hora e segundo que se passou desde que abandonei esse lugar; ele diz que me expulsou. Não entrarei em méritos, o que importa é que deixei de ser seu fantoche.
— Cinco anos mudam lugares... pessoas...
— E você mudou, senhor Farrah? O meu pai ergue bem a sobrancelha e me fita com demora.
— Todos nós mudamos.
— É claro que sim. Balanço a cabeça.
— Emma, eu preciso que você entenda que eu não tenho ressentimentos. Você tem o meu sangue. Você é o minha filha. Você foi firme em sua decisão e até onde sei, soube se virar, mesmo com as sanções que lhe foram acometidas. Ele continua o mesmo. Fala de um jeito impessoal, como se eu fosse uma reles empregada de sua empresa. Ele não consegue admitir que eu transformei a empresa em um império.
— Você chama de perseguição, bloquear meu dinheiro, minhas contas, tentar tirar o meu filho de mim e afastar todas as pessoas que eu gostava de sanções? É a minha vez de levantar a sobrancelha. — Eu chamo isso de perversidade.
— Chame como quiser. Ele dá uma baforada.
— São águas passadas e você está de volta.
Apenas para o casamento de Elsa. Reforço.
— Eu pensei muito após o seu exílio, Emma. E eu entendi que você era jovem e imatura... eu quis protegê-la. Você é um gênio dos números e é ainda melhor quando lida com pessoas. Me aborreceu imaginar que você jogaria tudo isso fora só por um filho.
Só? Me levanto.
— Eu estava errado. Ele se levanta também.
— É duro admitir, mas eu estava errado. Eu deveria tê-la apoiado. O seu fardo seria menor se a criança tivesse crescido no seio da família... Isso consegue aplacar um pouco a minha raiva. Só de ouvir que ele disse que “está errado” já é uma surpresa e tanto!
— Mas peço que me entenda... nós não somos qualquer família, Emma. Nós somos os Farrah! O que você acha que pensariam de nós ao descobrir que tínhamos um herdeiro com... limitações...
— Henry não tem limitações. Bato com o punho cerrado na mesa.
Ele é especial O senhor Farrah amplia a voz.
— Cinco anos atrás eu pensava diferente. E hoje vejo que errei e fico feliz que tenhamos esse momento para passar por cima do passado e resolver nossas diferenças.
O que você quer? O senhor Farrah se senta de forma majestosa em sua poltrona e volta a se aproximar da mesa.
— Volte para o seio da família e traga o seu filho. Vocês serão bem aceitos e terão de volta todos os benefícios.
Eu não preciso dos seus benefícios e também não os quero.
— Mas nós precisamos de você e do seu filho, Emma. Somos diferentes agora. Amadurecemos! Você não consegue entender como foi para Kathryn ficar cinco anos sem o sua filha e neto? Como foi para a Elsa? E para mim? Isso não é sobre ele. Tampouco é sobre a minha mãe e a minha irmã. Eu conheço esse homem. Eu sei que todo esse jogo guarda alguma coisa e preciso descobrir o que é.
— Nós sentimos a sua falta. E queremos ter Henry crescendo aqui, como um Farrah, recebendo os cuidados e benefícios como um membro dessa família.
E o que você quer em troca? Meu jogo é sempre limpo e transparente. Não tenho tempo para toda essa conversa, eu já entendi o ponto dele. Agora só preciso entender o preço que preciso pagar por tal. O senhor Farrah respira com demora e em seu olhar escorregadio eu consigo ver a verdade por detrás de suas palavras.
— Eu quero que se case com Gabriela Weiss.

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