Emma Swan
— Como você está aqui e não lá? Regina se espanta.
— Eu estou onde importa.
— Você e suas frases dramáticas...
— Regina, eu quero te contar uma coisa.
Alguns meses atrás.
Não importa a cara feia que eu faça, Henry é completamente indiferente. E eu tento de todas as formas explicar-lhe que não deve sair de casa sem avisar, mas ele simplesmente não liga.
— Por que você só decide fugir de casa nos momentos mais estranhos? Pergunto para mim mesma, para ver se em voz alta eu encontro a resposta. Chove torrencialmente e tento equilibrar Henry em um braço e o guarda-chuva gigantesco do outro.
— Quando chove o que acontece com as fomigas?
— Elas ficam em casa, dentro da terra, porque é mais seguro. Preciso desviar de um carro que quase me atropela. Antes de decidir tirar satisfação, vejo quem o conduz. Aquele merda! O que está fazendo aqui?
— Vai ser diferente, eu prometo! Ouço sua voz. A porta do carro se abre e uma moça sai, ela não se importa de ficar toda ensopada. Mas antes que se afaste, ela bruscamente cai, ao ser puxada por Robin pela sua jaqueta. Ela deixa a jaqueta para trás, se levanta e sai mancando em direção à sua casa.
— Você sempre volta para mim! Ele dispara. Corro para tentar alcançá-la e a cubro com o guarda-chuva, mas ela sequer me olha. Acompanho-a até a porta de casa, ela faz um sinal de agradecimento, mas continua a cobrir o rosto enquanto chora.
— Se precisar... Eu tento dizer, mas ela bate a porta na minha cara. Fico ali parada, tento entender o que acabou de acontecer. Só saio do lugar quando o carro dá a partida e some da rua.
— Eu só quis ajudar as fomigas. Henry tenta explicar.
— Tudo bem, filho. Vamos para casa.
Algum tempo depois.
Eu pensei em ir ver como a vizinha estava, depois daquela tarde chuvosa. Mas senti que poderia estar invadindo seu espaço pessoal e sendo inconveniente, além de que, Robin reapareceu por ali mais algumas vezes, então imaginei que foi um problema resolvido. Ainda assim me soava estranho. Pela janela da sala eu vi Regina chorar com suas amigas e contar toda a sua vida. Não a pude escutar, mas assisti suas expressões. Havia um punhado de coisas nela: dor, insegurança, pressão e decepção consigo mesma. Mas não era só isso. Havia também força, coragem, trabalho e persistência. Esperei o momento certo para abordá-la e ver se estava tudo bem, mas ela se recuperou sozinha. Os dias de completa desolação se tornaram um show de cheiros deliciosos e canções de clássicos dos anos 90.
Ela parecia se tornar outra pessoa quando estava cozinhando, seja para si ou para suas amigas. Havia um brilho em seu olhar que mudava tudo, até mesmo sua aparência. E ela jogava o cabelo freneticamente para todos os lados e saía performando pela casa, e eu, a acompanhando, por cada janela, rindo e me perguntando se ela estava realmente bem. Estava. Regina encontrou uma forma de sobreviver ao seu inferno e renascer pelo seu amor à cozinha. Mesmo que os dias se passassem, eu não conseguia tirá-la da cabeça. Eu já sabia que ela estava bem e seguindo a vida... Mas eu sempre tirava algum minuto do dia para dar uma espiada e conferir com meus próprios olhos se estava tudo bem na casa ao lado. Às vezes não. Às vezes parecia que o mundo caía lá dentro, numa torrente de culpa, desespero e mágoa. Eram como relâmpagos percorrendo sua cabeça e trovões sendo expelidos por tanto ódio. Às vezes vinha a maresia, o sol voltava a brilhar. E aí parecia que o mundo voltava ao seu normal, agitado e maluco, de pijama e fazendo a frigideira de guitarra enquanto se descabelava,
escorregava e decidia ficar mais séria de repente.
— O que você está fazendo? Surpreendo-me ao perceber que Henry demonstrou interesse em algo que eu estava fazendo. Agachei-me e tentei explicar do meu jeito:
— Estou olhando pela janela.
— E o que há para ver pela janela?
— O mundo todo? Faço cafuné em sua cabeça.
— A casa é o nosso aquário de formigas?
— Às vezes você me assusta, filho. Sério. Henry pisca os olhos e tenta subir à janela sozinho.
— Mas ainda não é Halloween. Ele diz em respeito a “assustar”. O pego no colo e deixo que ele veja através da janela. Henry olha para todos os cantos, para o jardim que fica logo à frente, a cerca, a rua e os automóveis passando por ela...
— Quero descer, já vi o mundo todo. Ele se debate até que eu o coloque de volta no chão. A minha curiosidade me levou a pesquisar tudo sobre a vida de Robin . Ele ainda trabalhava para a Farrah, mas devido à demissão de diversos braços direitos do meu pai, ele acabou ganhando sua confiança e
subindo de cargo com o passar dos anos. Vivia em um bom apartamento no centro de Miami e estava sempre acompanhado de mulheres. Depois daquele incidente na chuva, o vi pelo menos duas vezes pelo bairro, mas não tenho certeza se foi com a vizinha. A minha maior surpresa foi ao descobrir que Robin estava se aproximando de Elsa, e que, ela estava apaixonada por ele. Não preciso dizer que tentei convencê-la de que merecia alguém melhor e que esse cara não acrescentaria nada em sua vida.
Mas a paixão pode cegar as pessoas, fazendo com que elas enxerguem apenas o que querem. E se eu pensei que estava surpresa o bastante, Elsa me informou, do dia para a noite, que iria se casar com essa peça rara. Como a essa altura eu já conhecia a Sweet Show e um pouco de cada uma das suas sócias fundadoras, indiquei-as para Elsa, só para deixar que o universo tivesse a boa vontade de somar 1 + 1 e alguma criatura inteligente pudesse dizer: 2. Desmascarar Robin , entretanto, se tornou o menor dos meus problemas, e sim, suas atitudes, para com a minha irmã e para com a Regina. Elsa e eu não podíamos manter muito contato porque desde que o meu querido progenitor me expulsou da família, ele tenta me encontrar para me destruir e até tomar a guarda do meu filho. Eles sequer sabem que ainda vivo em Miami, decidi voltar recentemente para fechar de vez esse ciclo maldito e dar cabo no que eu deveria ter feito desde o início. Eu fui a pessoa que tornei a Farrah o que ela é hoje e fui apagada de sua história. A empresa deixou de ter um propósito e seguir a coisa certa para se tornar uma máquina de lavagem de dinheiro para o governador corrupto e o meu pai. Eu construí o monstro e eu o destruiria de vez.
— Você dormiu com todas as acionistas e sócias da Farrah? Ruby faz um estardalhaço. Não é para menos.
— Eu consegui que elas investissem na empresa, então sejamos justas: eu que deveria pôr um fim nisso. É a minha réplica. O sexo foi bom, mas foi mais uma troca de favores.
— E o que conseguiu com isso?
— Elas são investidoras, então querem ver o lucro. E a Farrah dá o lucro que elas precisam.
— Que merda.
— Mas... o que elas vão fazer quando a Farrah se envolver em vários escândalos com o governo atual? E suas ações caírem e começar uma verdadeira operação de caça níquel dentro daquela empresa?
— Você as assustou.
— E falei sobre a Leão&Dourado, a maior concorrente da Farrah. É o mesmo ramo, uma empresa que domina tudo abaixo do México... e eu devo alguns favores ao tio David, então... cumpro minhas promessas, fico sem débitos e consigo o que quero.
— O que elas disseram?
— Que vão abandonar o barco se ele afundar e irão para a L&D se for o caso.
— E aí?
— E aí que eu vou afundar esse barco, Ruby. O meu pai se sente dono do mundo porque tem poder e dinheiro. Mas se eu tomar isso dele, o que ele vai ser? Ruby ergue a caneca com achocolatado e brinda comigo.
— Você é muito maquiavélica. Ela diz.
— Agora me dê uma luz sobre a vizinha.
— O que tem a vizinha?
— Não consigo tirá-la da cabeça.
— Emma, pelo amor de Deus, você fodeu com o quê? Umas quinze mulheres nos últimos três dias? Me dá um tempo! Ninguém vale tanto a atenção assim não.
— Ela parece que vale. Ruby revira os olhos e termina de tomar o achocolatado que tanto criticou, por causa das exigências de Henry.
— Invade a casa dela, pega ela pelo cabelo e a arrasta até a sua cama.
— Bem homem das cavernas. Achei ultrapassado.
— Então conversa com o pai dela para fazer um contrato de casamento, sei lá.
— Você não está ajudando...
— Emma, cá para nós, quando foi que você e eu precisamos conquistar uma mulher? Nós só surgimos e... sabe? Elas olham para gente. Sei lá, aparece na frente dela. Tira a roupa. Balança esse sino de Belém na cara dela e está tudo certo.
— Agora entendo porque você está solteira. É o meu diagnóstico final desse paciente.
— Ser solteira é uma arte, Emma. Por que ter uma mulher quando você pode ter todas?
— Está certo então... obrigado pelas dicas medievais... Mas eu não precisei ir até ela. Ela veio até mim.
*
Não sei em que espelho Regina costuma se ver, mas me parece que tem uma visão bastante distorcida de si mesma. Ela não enxerga em si todas as coisas que eu vi: ela é incrível, autêntica, uma peça rara! E tudo o que ela mais quer é... ser como todas as outras mulheres. Por quê? Por que ela só não... fica só sendo ela mesma? Eu não entendo. E por isso eu a olho bem de perto. Sempre. Existe alguma coisa nessa mulher que prende a minha atenção e eu não consigo decifrar. Temos um ódio em comum, o que já nos aproxima e tanto. E ela precisa de mim para algo, o que me permite ficar sempre por perto para descobrir o que ela tem que eu não consigo parar de pensar nela. A melhor parte disso tudo é que agora não preciso mais vê-la de longe, da janela. Agora posso ir até a sua casa, conversar com suas amigas, estar por perto e ajudá-la no que for necessário. E não importa o que digamos ou façamos, acabamos rindo igual duas adolescentes idiotas. E o melhor: ela gosta do Henry. Não, melhor do que isso: o Henry gosta dela. Até o meu filho gosta dela! E o Henry não gosta de absolutamente nada além de suas formigas... Não pode ser. Eu estou obcecada por Regina e já não consigo me controlar. Quero tocar a sua pele, quero sentir o seu cheiro bem de perto. Quero descobrir sua história, quero vê-la feliz e satisfeita, quero garantir que ela nunca mais chore por um babaca.
O brilho dos olhos dela é capaz de me cegar. E quando me vejo refletido em sua íris, eu vejo a verdadeira eu. Não a Emma do passado que só pensava em dinheiro e mulheres. E que não tinha tempo para qualquer sentimento, principalmente após a perda de uma pessoa tão amada... Agora... eu me sinto pronta. Pronta para mergulhar em seus mistérios, pronta para redescobrir a vida ao lado de alguém... pronta para amar e, é claro, o mais difícil: permitir ser amada.
*
Durante a visita a David Booth
— Quer falar sobre isso? David ajeita os óculos e me examina com profunda seriedade. Mary Margareth, a esposa de David, leva Henry para a sala onde August está e depois retorna, fecha a porta e se senta ao lado do marido. Tentei esboçar qualquer palavra, qualquer coisa, mas é bem difícil.
— É difícil, não é? David se diverte.
— E é assustador também.
— O quê?
— Sentir isso depois de tanto tempo. Descobrir que... você ainda é capaz de se apaixonar e de repente amar uma pessoa...
— Eu não sei se “amor” é a palavra adequada. Eu gosto dela.
— Sim, dá para perceber que gosta. Mary Margareth é bastante gentil.
— O amor não é um grande ato. E também não surge ocupando os céus em uma cortina de fumaça, isso é uma bomba atômica. David puxa as mãos da esposa para o seu colo.
— O amor é a persistência... em cuidar, ajudar, construir, observar, deixar acontecer... como o trabalho de uma formiga. Cada grão fará diferença no final.
— Agora você fala igual o Henry...
— O amor é construído na rotina, Emma. Em cada “bom dia” ou “como você está?” que você deu. E cada vez que você ouviu os problemas dela e não a julgou. Cada vez que você percebeu que ela precisava de um abraço e você se dispôs, sem que ela precisasse pedir. O amor é entender que você não tem os mesmos problemas que ela, e você está vivendo dias incríveis, ainda assim, você escuta sobre os dias tristes dela e mostra que estará ali, não importa se o dia não terminou como o esperado. David faz uma longa pausa.
— Você está querendo dizer que de uma forma ou de outra... ao me aproximar tanto após decidir ajudá-la... estamos construindo o amor?
— Em cima da paixão que você já tem. Mary Margareth diz.
— E que... de alguma forma... ela parece corresponder.
— Mas ela... é tão confusa...
— Porque ela é uma mulher e não a matemática, ora bolas. Você quer se relacionar com algo que consegue entender? Então beija na boca de uma equação, garota! David não perde tempo em me zoar.
— Acho que o que o David quer dizer, do jeito dele, é que não importa o quanto ela é confusa... o que importa é que você não desistiu dela. David retira os óculos, pela primeira vez vejo seus olhos azuis que se concentram em um ponto fixo na sala de jantar.
— Você não vai descobrir o dia que começará a amá-la. Nem o dia seguinte. Só vai perceber um dia que... não se importará mais com as fraquezas dela, na verdade você já as absorveu e transformou em força para si. E vai notar que amar não é olhar para a armadura...
— O corpo. Mary Margareth traduz.
— É olhar além, para algo que os olhos não veem, que o nariz não sente, que ultrapassa o toque... é como se... algo seu vivesse nela e algo dela vivesse em você... e é nesse dia... David aponta o dedo para mim.
— O quê? Pergunto ansiosa.
— Que você vai desistir do seu namoro com as equações e vai se jogar no inferno e paraíso que é amar uma mulher.
— Inferno? Dirijo-me à tia Mary Margareth.
— E paraíso. Ela diz.
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Show de vizinha
HumorRegina Mills sempre corre atrás do que quer. Ela batalhou muito para ter a sua pequena agência de eventos em Miami e um relacionamento de dez anos com Robin Hood, coisas das quais ela se orgulha muito. Até que após um incrível final de semana com se...
