Regina Mills
Fazendo sua voz sobressair à música, o DJ anuncia que “o que acontece na Night Light, fica na Night Light”. E é respondido com um coro animado, garrafas de bebidas sendo levantadas e agitação fora do comum. Os ricaços de Miami não são nada diferentes das outras pessoas. Só fazem suas algazarras com os seus iguais, porque de resto, eles bebem, brigam, alguns não conseguem se manter de pé de tão chapados que estão. Três caras levantam uma mulher e fazem com que o líquido de champanhe desça por seu corpo, vários outros se aproximam para beber cada gota em sua pele. Agora esse mundo me parece um tanto que despido da sua glória. Eu não sou a pessoa mais espiritualizada do mundo, mas consigo ver que há um certo desespero em sobressair e uma mania de chamar atenção por todo
canto. Quando não estão brigando, estão quebrando coisas, ou disputando mulheres. Não era exatamente o que eu tinha em mente da elite de Miami.
— Se divertindo? Emma pergunta.
— Eu queria que a música acabasse. Fico próxima a ela, não tenho dúvida que nada vai acontecer comigo se eu o mantiver por perto.
— Acho que você não entendeu o segredo. Ela suspira.
— Você pode dizer quando a música acaba. Não precisa ficar aqui se não quiser, acho que... já temos material o suficiente. Ele ri.
— Robin vai ficar uma fera quando vir meu perfil.
— Só uma fera? Vamos lá, quero aquele cara tendo uma parada cardíaca. Emma ri.
— Olhe à sua volta. Ela pede. Imediatamente volto a vigiar o espaço.
— Escolha uma pessoa, qualquer pessoa. Ela diz.
— Para quê? Encosto nela para evitar que alguém esbarre em mim, e sou abraçada de um jeito que os suspiros se tornam outros. A pele parece que reconhece o toque de Emma, instantaneamente.
— Para beijar. Quero tirar uma foto sua beijando alguém, vamos postar isso. Ainda tento, por alguns segundos, olhar ao redor. Mas sinceramente? Todos esses homens são bonitos, sem dúvidas. E ricos,
certamente. Mas Emma tem um brilho diferente.
— Você é a pessoa mais interessante daqui. Digo friamente, para não levantar muito a autoestima dela.
— O lugar deve estar caindo aos pedaços então. Ela mexe no cabelo e olha distraído ao redor.
— Se eu sou o melhor que você tem, porra... Ela ri.
— Você é a minha namorada de mentirinha. A pessoa que irei levar ao casamento. Se eu deveria beijar alguém, essa pessoa deveria ser você, não?
— Currículo. Ela diz meio avoada.
— São novas figurinhas no seu álbum. Acho que deveria tentar com outras pessoas, sabe? Só no caso de... aproveitar esse momento.
— Você está falando nada com coisa nenhuma, Emma. Cruzo os braços.
— Hein?
— Tá nervosa? A provoco.
— Eu te deixo nervoso? Emma sopra forte enquanto tenta rir, depois coloca as duas mãos na cintura e fita-me com uma seriedade estranha.
— Não.
— Não o quê?
— Eu não estou nervosa.
— Ah, admita Emma, está sim. Faz tempo que pessoas não te deixam nervosa? Passo os dedos pela mão dela e vou subindo lentamente, como se estivesse escalando seu braço.
— Estamos na fase de tirar fotos, se lembra? Mostrar, ser vista. Se nos beijarmos, quem vai tirar uma foto? Ela balança os ombros. Não seja por isso. Dou uns cutuques na primeira mulher que passa, ela já vem se jogando para cima de mim e eu só tento garantir que minha mão a pare antes que uma cabeçada a pare.
— Pode tirar uma foto nossa? Claramente ela fica desanimada, mas pega o meu celular. Retorno para Emma e levanto o rosto para poder fitá-la.
— A hora é agora. Provoco.
— Não saio bem em fotos. Ela dá essa desculpa esfarrapada.
— Eu vi vários quadros com fotos suas e o Henry, em sua casa. Você sai bem em fotos sim. Alguém deve ter inventado a máquina fotográfica no passado só para registrar uma Emma da vida, porque depender da memória... Paro de rir ao finalizar a frase. Que merda estou dizendo? Eu sabia que não deveria ter bebido.
— Vocês vão tirar a foto ou não? A moça pergunta.
— Vamos. Bato o pé no chão.
— Não, eu... eu não quero tirar foto. A moça me devolve o celular, mas não vai embora. Encara Emma por tanto tempo que até eu fico constrangida.
— Ela é minha. Aviso logo e volto para ela.
— Ela é minha? — ela se diverte.
— Qual o seu problema? Não quer me beijar ou só não quer tirar a foto?
— A foto. Ela pisca os olhos. Então ele quer me beijar? Isso parece interessante. Posiciono-me bem perto de Emma e não paro de encará-la, do mesmo jeito que ela faz comigo. Normalmente fico constrangida e sem ar, vamos ver como ela vai reagir. Bem... isso talvez surtiria efeito, caso eu fosse mais alta. Só sinto que terei dores no pescoço mais tarde. Então elz abaixa o rosto e começa a me encarar daquele jeito, bem feroz e intenso. Quando elz faz, dá super certo. Também... se eu tivesse quase dois metros de altura, isso funcionaria...
— Eu estava pensando... Tento introduzir um assunto para não me sentir tão constrangida.
— Você está me ajudando mesmo com a ideia de mexer com o psicológico do Robin . Sinto até que... está mais interessada do que eu.
— É? Ela ri. Essa desgraçada, só sabe fazer isso. E quando ri e mostra seus dentes, os caninos tão afiados e as covinhas no rosto, eu quase me esqueço o que quero dizer.
— Todo mundo quer que eu o supere e encontre uma pessoa melhor...
— Não seria má ideia.
— Mas você quer me ajudar. Por quê?
— Porque eu acredito na sua vontade. Ela suspira e põe as mãos em meu ombro.
— E se é o que você quer e sente que vai te fazer feliz, eu vou te ajudar.
— No fim das contas você só quer me ver feliz?
— Se acabar com o cara vai te deixar feliz, eu topo. Você não para de me perguntar: por quê? Tudo o que consigo pensar é: por que não?
— Acho que você gosta de ser a minha namorada de mentirinha, Emma Swan. Agora sim ela mostrou o que eu queria. Seus olhos se desconectam dos meus por um segundo, é rápido demais para perceber, mas eu consigo ver as muralhas ruindo. Ela gosta. Eu sei que ela gosta. Não tem outra explicação. Mas por quê? Uma mulher dessas devia estar com qualquer mulher daqui, as herdeiras de Miami e não comigo.
— Mentirinha? Suas mãos começam a ficar mais intensas em meu ombro.
— Tudo acaba semana que vem. A provoca.
— E talvez... quem sabe... eu volte para Nova York, sabe? Acho que Miami já deu para mim.
— Você não existe. Emma balança a cabeça num sinal negativo. Encosto na parede e não apenas o olhar dela, mas o corpo me acompanha. Vou tentar escapar pelos dedos dessa mulher... vamos ver se esses segredos que ela me contou tem algum efeito mesmo ou é só frase decorada para impressionar.
Quanto mais eu me afasto, mas ela tenta se aproximar. Encurrala-me na parede e eu já não consigo nem segurar as risadas, parece que algo magnético o atrai em minha direção.
— Para onde você pensa que vai?
— Tive vontade de ir procurar alguém para me beijar e tirar uma foto. Não é isso o que você quer?
— Quero.
— O beijo ou a foto? Levanto a sobrancelha.
— Você é impossível.
— Tudo bem, eu acho alguém que queira os dois. Não preciso dizer mais nada. Emma segura em minha nuca e me traz ao seu corpo, onde sou envolvida por seus braços e sinto uma sensação que não tive antes em momento algum. Mesmo com tanto barulho, com a dança, o calor dos corpos que se
unem, que é extremamente natural e a música, sinto como se o corpo de Emma vibrasse. Ela está quente, mas é como se eu pudesse ouvir seus batimentos passando por suas veias. E o rastro da sua mão e seus dedos pelo meu corpo fazem-me sentir cada vez mais quente e inebriada por seu perfume, sua boca e sua língua que devagar passeiam dos meus lábios até encontrar a minha língua. Essa sensação é gostosa e devo admitir que ela é ainda melhor lá embaixo. Se tento me afastar... Não tem mais como me afastar. Não tem mais como resistir. O corpo dela praticamente me imobiliza, suas mãos me obrigam a permanecer no aqui e no agora que é essa tentação. A música de fundo até para...
Mas a festa não acaba. Nós encontramos o nosso jeito de sentir uma a outra sem precisar de barulhos de fundo. Os nossos corpos se guiam sozinhos, se encontram e mesmo que entre tropeços ou pelo fato de eu ser estabanada nos desequilibremos, ela nos mantém onde estamos. No aqui e agora que é só nosso. E tudo gira ao nosso redor. Flash. Emma afasta o rosto e aperta os olhos. E eu confiro se a foto ficou boa. Ficou. Ficou ótima, vou guardar essa recordação com muito carinho.
— Você está me... usando? Ela passa as mãos no cabelo e sorri daquele jeito cafajeste. Emma é má. Mas eu consigo ser pior, se eu quiser. E eu quero. Ah, se eu quero!
— Pode apostar que sim. Dou um selinho nela e corro para encontrar minhas amigas.
Emma Swan
Regina Mills é a mistura de tudo o que me irrita. Ela consegue ser dissimulada, mexer comigo e ainda ir embora de modo inesperado, deixando-me com dúvidas. Porra, eu nunca fico com dúvidas! E é exatamente essa mistura que me irrita, que me deixa intrigada. Não consigo ficar irritada com ela. Só estico o pescoço para ver aonde ela vai e se está bem, e rapidamente ela se encontra com Zelena e Belle, mostra algo no celular, deve ser a foto. Passo a mão pelo rosto e respiro fundo, tento me concentrar. Não é possível que eu esteja me sentindo assim. Por que não consigo ficar irritada e ir embora? A música meio que parou mesmo... Eu só deveria ir...Mas não consigo. Algo em mim diz que eu devo ficar aqui. Mas por quê?
— Não, não me enganei Ouço uma voz feminina, mas não consigo tirar os olhos de Regina.
— É você mesma... Emma Farrah. Ao ouvir isso, procuro quem foi que disse, de imediato.
— Tsc.
— Tsc? Ela joga o cabelo para o lado.
— Minha presença não te agrada?
— Gabriela. É tudo o que consigo dizer agora.
— Ah, ela se lembra do meu nome... depois de cinco anos.
— Todo mundo conhece a filha do governador. Se eu tivesse um copo na mão, essa seria a hora perfeita de levantá-lo. E sair. Então eu só saí.
— Espera aí. Ela me alcança e se põe em minha frente.
— Não sabia que havia retornado. Você voltou pelo casamento da sua irmã, é isso? Se eu tenho a opção de ficar calada é assim que permaneço.
— Então ainda vamos nos ver muito. Ela passa a mão pelo meu braço.
— Elsa me convidou, é claro. Vai ser uma semana intensa! Concordo com a cabeça, para não a deixar sem resposta.
— Precisamos recuperar o tempo perdido, Emma. Não te vejo há tanto tempo... você deve ter tantas histórias interessantes para contar... ... e pessoas mais interessantes para ouvi-las, obviamente.
— Você está sabendo que o meu pai sai do mandato de governador direto para a Casa Branca, não é?
Se sustentando em cima do poder do pai. Eu gostaria, de coração, de tecer palavras sobre Gabriela Weiss. Mas o que falar dela? Além do poder e a influência do pai... além das escapadas da mãe... dos irmãos delinquentes e drogados... e seu péssimo hábito de se sustentar em cima do feito dos outros?
Bom, é só isso que eu tenho a tecer sobre Gabriela. A pessoa com quem meu pai queria me casar e por isso me deserdou.
— Você está muito calada hoje. Bancando a misteriosa? Ficou tão impactada assim de me ver? Eu sei, Emma, eu sei, esses olhos verdes não se encontram em qualquer lugar. Ela joga o cabelo de novo.
Pelo menos ela se sustentou em algo que é dela. Tecnicamente foi passado pelo DNA de seus ancestrais, então... é isso.
— Gosto disso em você. Sempre tão fechada e misteriosa. Nunca diz nada, ri das minhas conversas... por que ainda não aceitou que somos o casal perfeito? Ah! Outra piada! Ela é boa. Devia trabalhar no circo, acho que faria sucesso.
— O seu sorriso é lindo. Ela diz. Eu sempre pensei que não tinha sentimentos ou coisa do tipo, até
conhecer a mãe do Henry. Ela era simples, mas era autêntica. Tão autêntica que eu me sentia alguém que me sustentava nos feitos do meu pai. E então Gabriela retorna... e o que eu sentia por ela antes, é o que sinto agora: nada. E ainda assim, eu tenho em mim, a mesma sensação que já tive um dia. E é bem diferente. Tudo em Regina me deixa intrigada e é só isso o que eu preciso, não quero pedir mais que isso. Mentira. Eu quero mais. Eu quero muito mais. Eu quero tudo. Até que dentro de mim eu sinta que não sobrou nada. Com um sorriso simpático eu dou meia volta e vou embora, em busca de Regina. Esse encontro inusitado foi... produtivo. Uma pena que Gabriela estava nele.
— Foi ótimo te ver também! Ela diz, em minhas costas.
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Show de vizinha
HumorRegina Mills sempre corre atrás do que quer. Ela batalhou muito para ter a sua pequena agência de eventos em Miami e um relacionamento de dez anos com Robin Hood, coisas das quais ela se orgulha muito. Até que após um incrível final de semana com se...
